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Os últimos 10 anos no Norte em números

"Preocupa-me mais o país do que a Região Norte"

"Preocupa-me mais o país do que a Região Norte"

A Região Norte é a mais exportadora, a "mais municiada com as armas de que o país precisa" para crescer. E, contudo, Portugal não cresce. Daniel Bessa insiste na necessidade de captar investimento estrangeiro. "A Autoeuropa mudou o país", argumenta.

A evolução do poder de compra mostra um atenuar das disparidades regionais no Norte. É uma ilusão ou a região está mais coesa?

É o indicador que mais atenua as disparidades. No PIB, o Norte está a 83% da média nacional, continua a ser a região mais pobre. No poder de compra, está a 92%. A diferença vem da ação redistributiva do Estado: pensões, subsídio de desemprego, ajudas ao rendimento, também de remessas dos emigrantes... Desde 2004, os concelhos mais pobres recuperaram, com uma exceção: o mais pobre é Tabuaço mas Murça, com 62% da média da região, é o único que, apesar de pobre, se atrasou. E a diferença dos concelhos mais ricos, sobretudo da Área Metropolitana do Porto, para o resto da região não é tão grande. Os pobres recuperaram.

E os ricos ficaram menos ricos?

Os concelhos com mais rendimentos - Porto, Matosinhos, Gaia, S. João da Madeira - recuaram, estão menos distantes da média da região.

É, então, sinal de coesão ou os números são enganadores?

O país tem vindo a conhecer, há muitos anos, um processo de convergência, atenuando as desigualdades. Nos últimos tempos, uma desigualdade agravou-se muito, o desemprego. Mas desemprego à parte, o resto das políticas públicas têm atenuado as desigualdades.

No interior, o poder de compra aproxima-se da média, mas o envelhecimento é galopante, o despovoamento avança e a urbanização acentua-se. Como o explica?

Pode não se estar tão mal quanto isso numa região muito deprimida, sobretudo quando se é mais velho. Outra coisa é a perspetiva da região, que tem a ver com os que já lá não estão. O problema é o futuro.

Estão a perder população ativa, serviços públicos, não capta investimento privado, empregos...

Sempre me impressionou, em Espanha, ver pequenas cidades bem conservadas e com um mínimo de qualidade de vida e, depois, um esvaziamento total. Por cá, é um processo imparável.

O despovoamento é imparável?

No início do ano 2000, o Governo propôs-me que coordenasse um Plano de Recuperação das Áreas e Setores Deprimidos, o PRASD. Conheci a realidade muito de perto. A área mais difícil do Norte é o Tâmega e Sousa, mas também o Alto Tâmega, o Douro, o Alto Trás-os-Montes... Tomaram-se medidas, mas não foram suficientes. Tem havido melhoria das condições de vida, mas não de perspetivas. Está cada vez pior, o esvaziamento é cada vez maior. Mas a concentração em áreas mais urbanas, em vilas, é uma saída.

Está a ser definida mais uma ação de valorização do interior. Continua a fazer-se demasiados planos?

Se há matéria em que deve haver um acordo de regime é esta, até porque as medidas são sempre as mesmas: melhorar o IRC, atenuar contribuições para a Segurança Social, alguma discriminação no IRS, valorizar os produtos tradicionais...

Nos últimos anos, Portugal afastou-se da Europa, no que toca à riqueza. Vê sinais de inversão?

Estamos contentes porque o Norte não se tem atrasado, as disparidades têm sido corrigidas no interior... Mas se comparar o país com a média da União Europeia, o cenário é outro.

O país atravessa uma crise profunda desde 2008...

O problema é que não é desde 2008, está estagnado desde 2000. De 2000 a 2008, a economia mundial teve o ritmo de crescimento mais alto de sempre! Preocupa-me mais o país do que a Região Norte. Se as coisas correrem mal ao país, não podem correr bem à região. Se o Mundo acabasse aqui, não nos comparássemos com ninguém, talvez se pudesse construir um cenário de alguma esperança. Mas comparando com o que se passa lá fora, a situação é muito mais preocupante. Vão 16 anos, é tempo suficiente para ensaiar outras coisas. Se uma receita não resulta ao fim de 16 anos anos, convém não insistir...

... na mesma solução à espera de um resultado diferente...

É um desespero. Não há certezas, há caminhos que podemos tentar. A Autoeuropa mudou o país! As indústrias do metal, o elétrico, não tinham a dimensão que têm hoje. Trazer esse investimento deu muito trabalho, houve uma ajuda de Estado enorme, mas foi bem gasta. Se a Autoeuropa sair, será um desastre, mas estas empresas já produzem para a Europa fora. Estamos de novo a falar em investimento estrangeiro.

A Região Norte é a mais exportadora. Também é investimento.

A minha palavra de esperança é sempre a mesma: amanhã às 8 horas estamos a trabalhar. Se o país tem de se virar para o exterior, o Norte é - de todas as regiões -a mais virada para o exterior, é a mais municiada com as armas de que o país precisa.
É preciso é trabalhar amanhã, às 8?

Exato.

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