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Emprego na indústria aguenta crises, nos serviços afunda

Emprego na indústria aguenta crises, nos serviços afunda

O setor industrial é o que melhor consegue resistir a ciclos de recessão, mantendo os postos de trabalho, mas também é o que menos emprego cria quando a economia cresce.

É a conclusão do estudo "Novo desemprego: as fragilidades de uma opção produtiva nacional", do Barómetro do Observatório sobre Crises e Alternativas, que analisou a série longa dos valores do desemprego registado nos centros de emprego nestes 40 anos.

No outro extremo estão as atividades relacionadas com os serviços, onde se incluem empresas ligadas ao turismo (alojamento e restauração), comércio e imobiliário - fortemente afetados pela atual crise, já que foram obrigados a fechar, por decisão do Governo ou falta de clientes.

"O setor dos serviços - ao contrário das indústrias transformadoras - é aquele que se expande em fase de retoma, mas que se retrai desproporcionadamente em fase recessiva, manifestando uma enorme volatilidade", indica o estudo elaborado pelo economista João Ramos de Almeida. Ou seja, absorve muitos desempregados em momentos bons da economia, mas também os expulsa rapidamente e de forma agressiva em fase de recessão. Esta dinâmica tem-se aprofundado nos últimos 20 anos.

mais volátil

"Foi o setor dos serviços que marcou sobremaneira a evolução do desemprego criado (variações positivas) e destruído (negativas), registando-se uma alta volatilidade. Essa volatilidade parece, com o tempo, ter vindo a ampliar-se", refere o estudo. E isso pode revelar outras fragilidades de mercado de trabalho e estrutura económica do país muito assente nestes setores.

"Desde o início do século XXI e até ao início da retoma em 2013, os serviços tiveram uma subida do nível de desemprego registado de mais 236 157 pessoas, contra 29 615 do setor industrial. Apenas em 2019 os serviços recuperaram o nível de emprego observado no início do século XXI", aponta a análise.

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Já o setor industrial "revelou maior dificuldade de criação de postos de trabalho, embora nos períodos de recessão esses tenham resistido melhor", indica João Ramos de Almeida, acrescentando que "em março deste ano, o setor industrial tinha menos 43 616 pessoas desempregadas do que o início do século XXI, enquanto os serviços registavam mais 45 106 pessoas desempregadas do que no início do século".

A análise permite ainda concluir que a concentração nas atividades no setor dos serviços parece aumentar a instabilidade laboral. "Mesmo nas fases de retoma e descida continuada do desemprego, o movimento de inscrição e anulação de desempregados inscritos ao longo dos meses não parece atenuar-se, o que indicia elevada instabilidade contratual nas atividades desse setor.

Razões na origem - Para o autor do estudo, a instabilidade contratual que afeta o setor dos serviços pode ter três justificações: "pode ser fruto da sazonalidade das atividades; como pode ser reflexo das alterações à legislação do trabalho introduzidas desde 2003; ou ainda ser efeito da opção do tipo de contratos usados pelo setor".

Efeitos - João Ramos de Almeida realça que essa volatilidade revela-se igualmente em particularidades como a "instabilidade nas relações laborais, traduzida pelos elevados valores de inscrição de novos desempregados em cada mês e visível na amplitude entre os valores mínimos e máximos dessas inscrições ao longo das duas últimas décadas". O autor sublinha que, mesmo na última fase de retoma, os valores mais altos não se afastaram dos verificados noutras fases recessivas.

Sobrevivência - As limitações apontadas pelo autor do estudo acabam por ganhar uma importância maior quando um choque exterior à dinâmica do país obriga ao fecho das portas de parte significativa da economia nacional e da população ativa do país, como acontece nesta crise da covid, "pondo em causa - de um momento para outro - a sua sustentabilidade e sobrevivência", sublinha.

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