Mercado cambial

Estabilidade financeira em risco devido a dívida escondida em dólares

Estabilidade financeira em risco devido a dívida escondida em dólares

O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) alerta para os riscos para a estabilidade financeira devido a uma grande quantidade de dívida em dólares que não aparece nos balanços dos bancos, fundos de pensões, seguradoras e fundos de alto risco.

O chefe do Departamento Monetário e Económico do BIS (Bank for International Settlements), Claudio Borio, disse ao apresentar hoje a revisão trienal do mercado cambial de 2022 que "há uma quantidade esmagadora de dívida em dólares que não aparece nos balanços e que está parcialmente escondida".

Grande parte dessa dívida de biliões de dólares é de muito curto prazo, menos de um ano, e o seu refinanciamento cria por vezes tensões no financiamento em dólares.

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Nestes momentos de tensão, a Reserva Federal dos EUA (Fed) deve fornecer dólares a outros bancos centrais com linhas de 'swap' sem saber em que regiões é detida esta dívida não declarada.

Os 'swaps' cambiais e obrigações de futuros e 'swaps' cambiais atingiram 97 biliões de dólares no final de junho, tendo em conta todas as moedas (67 biliões em 2016).

Este montante representa o Produto Interno Bruto global em 2021 (96 biliões) e três vezes o comércio global (29 biliões de dólares).

Os bancos fora dos EUA, que não têm acesso ao financiamento da Fed, tinham 39 biliões de dólares de dívida não declarada no final de junho, em comparação com 15 biliões de dólares que aparecem nos seus balanços.

Como essa dívida não aparece nos balanços, é difícil prever quanto e onde será necessário refinanciar, tornando mais difícil uma resposta atempada dos bancos centrais, adverte o BIS.

O volume médio de negócios no mercado global de divisas ultrapassou os 7,5 biliões de dólares por dia em abril de 2022 num ambiente de mercado volátil, em março chegou mesmo aos 8,5 biliões de dólares por dia, uma quantidade superior ao pico de março de 2020 durante a turbulência dos mercados financeiros devido à pandemia da covid-19.

Este montante é 30 vezes superior ao PIB global diário, que era de 0,26 biliões de dólares por dia em 2021.

Em comparação com a análise de 2019, os volumes de negociação foram muito mais elevados em 2022 devido ao aumento da atividade em derivados de divisas de curto prazo e ao aumento da negociação entre intermediários.

Em contraste, acrescenta o BIS, o comércio com clientes estagnou devido a uma queda no investimento internacional em 2022.

Grande parte da negociação foi feita através de métodos bilaterais e não através de plataformas multilaterais que afixam os preços a todos os participantes, pelo que a transparência no mercado cambial se reduziu.

Num ambiente de maior risco as posições são ajustadas, os riscos cambiais são cobertos ou são tomadas posições mais especulativas e todas estas atividades aumentam o volume de negócios.

O volume de negócios médio diário com o dólar num dos lados da transação foi de 6,6 biliões de dólares, mais 14% do que em 2019 (5,8 biliões de dólares).

O dólar esteve envolvido em quase 90% das transações cambiais, tornando-o a moeda mais negociada no mercado cambial e o seu domínio é evidente em todos os instrumentos e contrapartes.

Pelo menos 85% das transações nos mercados à vista, a prazo e de 'swaps' apresentam o dólar numa parte da transação.

O euro é a segunda moeda mais transacionada, com uma quota de apenas 31% (contra 39% em 2010) e o BIS observa uma tendência semelhante para o iene, enquanto a libra tem mantido uma quota constante.

A queda da quota do euro e do iene no volume de negócios do mercado cambial foi impulsionada pela maior utilização de moedas de mercados emergentes, como o renminbi, cuja quota aumentou de menos de 1% há 20 anos para mais de 7% atualmente.

O dólar domina os mercados cambiais porque é utilizado como veículo para transações, ou seja, outros pares de moedas não são trocados diretamente, mas através do dólar.

Por exemplo, se um banco quiser trocar francos suíços por zlotys polacos, trocará francos por dólares e depois dólares por zlotys.

Esta utilização do dólar como veículo representa pouco menos de 40% do seu volume de negócios em divisas, de acordo com os números do BIS.

Além disso, o dólar é a moeda em que a dívida em moeda estrangeira é emitida ou emprestada.

Metade de todos os títulos de dívida internacionais e empréstimos transfronteiriços emitidos nos mercados de financiamento são denominados em dólares.

O dólar é também a moeda mais amplamente utilizada no comércio e pagamentos mundiais. Aproximadamente metade do comércio mundial é faturado em dólares.

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