Economia

Ex-administrador do BPN diz que Banco de Portugal assustou depositantes

Ex-administrador do BPN diz que Banco de Portugal assustou depositantes

O administrador do BPN aquando da nacionalização, Meira Fernandes, acusou, esta sexta-feira, o Banco de Portugal de ter agravado a situação no banco ao assustar os depositantes, em audição na segunda Comissão de Inquérito ao BPN.

João Meira Fernandes, que fez parte da administração do BPN durante a liderança de Miguel Cadilhe, estando no banco quando se dá a nacionalização, em novembro de 2008, foi, esta sexta-feira, muito crítico da atuação do Banco de Portugal (BdP) neste caso, tal como Cadilhe já o tinha sido em audição nesta mesma comissão.

"A partir do momento em que começámos a comunicar ao BdP o que íamos encontrando, o BdP começou a reagir como se o mensageiro fosse culpado da mensagem. As relações começaram ser azedas", relatou hoje Meira Fernandes, respondendo a questões do deputado do CDS João Almeida, o primeiro a inquiri-lo.

O ex-administrador do BPN foi mesmo mais longe e disse que a liderança de Vítor Constâncio no BdP contribuiu para agravar a situação do BPN.

"Quem assustou [os depositantes] foi o senhor governador do BdP [na altura Vítor Constâncio], provavelmente involuntariamente, ao afirmar em outubro que havia dois bancos pequenos com problemas, que éramos nós e o Finibanco", afirmou Meira Fernandes, considerando que também as declarações que se seguiram do então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, "contribuíram" também para agravar a perceção do público face ao BPN.

Isto, segundo Meira Fernandes, quando desde que a administração Cadilhe tinha pegado no BPN em junho não tinha havido problemas de liquidez para fazer face a depósitos, mas apenas para fazer face às reservas de caixa legais.

"Entrámos em junho e os depósitos connosco melhoraram. O BPN nunca esteve em risco de não pagar depósitos", afirmou o responsável, adiantando que mesmo em outubro de 2008, um mês antes da nacionalização, o banco foi avaliado pela agência de notação financeira Fitch que manteve a nota do BPN em 'BBB', não a baixou.

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Segundo o responsável, foi depois das declarações do Governador do BdP e do ministro das Finanças que houve uma saída de depósitos do BPN, mesmo de entidades públicas como a Casa da Moeda e a Segurança Social.

"A forma miserável (porque de miséria) como [o BdP] nos foi apoiando, com montantes mínimos, aos pinguinhos, e a não intervenção quanto ao levantamento dos depósitos pelos organismos públicos. Tudo isto contribuiu para o agravamento da liquidez", afirmou Meira Fernandes.

O Banco de Portugal foi o alvo principal de Meira Fernandes no início da audição, ao considerar que neste processo se encontra "fortes indícios de negligência" do supervisor bancário, ao não detetar irregularidades na atuação do BPN, como concentração de crédito, e ao ter tido um comportamento que "conduziu ao agravamento da liquidez".

Ainda assim, afirmou, a "sangria" de depósitos no BPN deu-se depois da nacionalização porque as "pessoas não acreditaram muito na intervenção do Estado".

Os depósitos que eram de 4,4 mil milhões de euros em 2008 chegaram a 2011 a menos de metade, 1,68 mil milhões de euros, especificou.

O ex-administrador do BPN criticou ainda a decisão da nacionalização do BPN com o argumento de risco sistémico, considerando que este não se coloca num banco que tinha dois por cento de quota de mercado. Para além disso, não considerou plausível a justificação do Governo para que não tivesse aceitado um pedido de injeção de 600 milhões de euros da administração BPN para reforçar capitais com a justificação dos "custos para os contribuintes", quando essa cedência de capital era "remunerado" e com "dividendo prioritário", e depois tenha considerando que a nacionalização era a melhor opção, sem custos para os portugueses.

"Só posso achar que o senhor ministro das Finanças não percebeu o que estava a fazer", afirmou Meira Fernandes, ainda em resposta ao deputado democrata-cristão João Almeida.

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