Créditos ruinosos

Há 11 devedores e sete ex-gestores da CGD condecorados por ex-presidentes

Há 11 devedores e sete ex-gestores da CGD condecorados por ex-presidentes

Joe Berardo foi apenas um de vários grandes devedores da CGD que mereceu a atribuição de condecorações pelos presidentes da República Américo Tomás, Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. O JN descobriu mais dez personalidades ligadas às empresas na "lista negra" do banco público. E há pelo menos sete ex-gestores que também foram distinguidos pelos presidentes da República.

Os presidentes da República Américo Tomás, Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva condecoraram pelo menos 11 personalidades que estão ou estiveram ligadas a alguns dos 25 grandes créditos ruinosos da Caixa Geral Depósitos (CGD), incluindo Joe Berardo, que poderá perder o seu título de comendador. Do lado da CGD, identificámos pelo menos sete ex-gestores que poderão ter tido mais ou menos influência na concessão daqueles empréstimos concedidos entre 2000 e 2015.

Um dos casos mais mediáticos é o de Joe Berardo, fundador da Metalgest e da Fundação Berardo, que tem uma divida superior a 300 milhões à CGD, tendo sido cerca de metade daquele valor reconhecido como imparidade (irrecuperável). O ex-quinto homem mais rico de Portugal poderá perder o título de comendador e as suas recentes declarações na Comissão de Inquérito à CGD foram já enviadas para o Ministério Público.

Depois da polémica audição de Joe Berardo, Rui Rio, presidente do PSD, disse que achava "muito bem" que se retirassem as condecorações ao comendador. E até deu uma sugestão: "Já agora, podiam olhar para a lista e de certeza que há lá mais alguns [a quem podem ser retiradas condecorações]".

Entre os restantes grandes devedores à Caixa, identificados num relatório da EY sobre a gestão da CGD entre 2000 e 2015, estão pelo menos mais dez nomes condecorados (ver lista).

Manuel Fino, dono da empresa Investifino, com uma dívida no valor de 138 milhões de euros, foi condecorado por Mérito Industrial em 1996 por Jorge Sampaio.

O empresário Américo Amorim, já falecido, que controlava a empresa Finpro, foi condecorado com dois títulos (em 1983 e 2006), na ordem de Mérito Industrial e e Infante Henrique. A empresa tem uma dívida de 114 milhões de euros à CGD.

A lista tem ainda nomes como Vasco de Mello, presidente da Brisa, Horácio Roque, João Pereira Coutinho, entre outros. Todos têm ou tiveram algum papel de destaque nas empresas que figuram na lista elaborada pela EY.

Um caso curioso diz respeito a José João Guilherme, atual gestor da CGD. Não foi condecorado, mas integrou a administração da empresa Real Formosa, pertencente ao Grupo Bernardino Gomes, uma das maiores devedoras do banco público.

Quanto aos ex-gestores da CGD, que tiveram maior ou menor envolvimento na concessão dos créditos ruinosos, há pelo menos sete ex-quadros de topo do banco que também mereceram condecorações atribuídas por vários presidentes da República ao longo dos últimos anos.