Economia

Lojistas com quebra de 30% nos saldos

Lojistas com quebra de 30% nos saldos

São de entre 25% a 30% as quebras na facturação nos saldos de Inverno, a decorrer até 28 de Fevereiro. De Norte a Sul do país, sucedem-se as histórias de comerciantes em apuros para manter as portas abertas. Mesmo com 70% de desconto, os clientes não compram.

"Não houve reacção dos consumidores à época de saldos", comenta Maria do Céu Prim, secretária da União de Associações do Comércio e Serviços e presidente da Associação Comercial de Moda do Distrito de Lisboa. O resultado dessa indiferença dos consumidores àquela que, em tempos, teria sido a época mais esperada do ano, é uma "quebra de 25% em relação ao ano anterior", que já foi apontado como sendo um ano de quebras.

"Neste momento, há situações muito preocupantes de comerciantes em dificuldades, a fechar portas, a recorrer a ajudas familiares para subsistir", relata a empresária, que recusa culpar apenas a crise por tal descalabro. "A grande machadada no comércio tradicional foi o decreto-lei que permitiu todas as liberdades às grandes superfícies", aponta, acusando os hipermercados de "matar todo o comércio, impondo a lei dos mais fortes, afectando a concorrência, os trabalhadores e o país, uma vez que não compram os artigos na indústria nacional e o próprio capital é, muitas vezes, estrangeiro".

Armazéns cheios sem escoar

Também Vasco Mello, vice-presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, adianta que os comerciantes portugueses estão "muito pessimistas", pois a recessão prevista no final de 2010 "vai confirmar-se agora e 2011 não será muito melhor". Ciente das dificuldades nas zonas do país mais afectadas pelo desemprego, o representante diz, ainda, que "no Norte, principalmente, os comerciantes estão dependentes das receitas dos saldos para comprar mercadorias e, neste momento, correm o risco de não conseguir renová-las". Esse é o maior receio de Miguel Dias, proprietário da sapataria "Praça do Feirante", no Porto: "Estou a vender artigos ao preço de custo, porque vale mais perder dinheiro do que não conseguir comprar a nova colecção. Mas, com as quebras que tenho tido (30%, só em Janeiro), estou a ver que vou ter de ir buscar artigos da Primavera passada e colocá-los em promoção, porque não está a vender-se nada".

Habituado a clientes que procuram preços em conta, o comerciante confessa que tem "um receio medonho do que o futuro traz", pois com os "cortes nos ordenados da Função Pública e o desemprego, há muita gente a passar fome nas cidades".

"Não há dinheiro, nem mesmo para comprar em saldos", resume Júlia Lima, responsável pela loja Fabio Lucci, da Rua do Bolhão, no Porto, que aumentou a agressividade da campanha de saldos, oferecendo duas peças em quatro.

O presidente da Associação de Comerciantes do Porto, Nuno Camilo, considera que as dificuldades já são para todos e encontra aí explicação para "as grandes superfícies fazerem campanhas e ofertas, para diminuir as quebras".

Dá a ideia, inclusive, que quanto maior o desconto, mais fogem os clientes. "A Blanco já tem a colecção nova toda exposta, está cheia de gente e há poucos artigos em saldos", comenta uma vendedora concorrente.

"Já não sabemos o que fazer para convencer os clientes a entrar na loja, só porque não temos um nome sonante", acrescenta Bárbara Almeida, da Tanara, na Rua de Santa Catarina, no Porto.

"Estamos com perdas, certamente, a rondar os 30% na região", revela, também, João Rosado, presidente da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve. Sem turistas que compensem pela diminuição do consumo interno, nesta época do ano, vão promovendo "feiras de stock-off para haver oportunidades de escoar stock fora de saldos".