Feira em Paris

Têxtil: "O que antes era defeito hoje em dia é efeito"

Têxtil: "O que antes era defeito hoje em dia é efeito"

A incapacidade da indústria nacional competir com concorrentes como a China nas quantidades a baixo preço transformou-se na maior vantagem do setor.

No final dos anos de 1980, a já então sexagenária Riopele carregava coleções de tecidos em camiões e enviava carros da empresa com os comerciais que haviam de ser dos primeiros portugueses a participar na jovem feira Première Vision Paris. "Na altura, a empresa ainda produzia muito tecido só azul e preto e preto e azul, o que contava era vender muito", conta Rita Fortes, comercial na empresa de Famalicão.

Vender em quantidade e a preços o mais baixos possíveis foi a estratégia da concorrência asiática que conseguiu fechar portas a quem persistiu nesse jogo de David contra Golias. As empresas que sobreviveram à crise do têxtil tiveram de mudar o paradigma, não só uma vez, mas continuamente.

Hoje, a Riopele vende design, personalizado ao gosto do cliente, se for o caso, vende tecnologia em tecidos "inteligente" e vende sustentabilidade. Na Première Vision Paris (PVP) de 2018, o stand de 130 metros quadrados da Riopele é pequeno para tanta afluência: todos querem espreitar as linhas dos novos tecidos, sentir o seu toque, tomar um café e comer bolinhos enquanto encomendam amostras. "A maioria dos clientes, na feira, são alemães, franceses, italianos, britânicos, japoneses, coreanos e agora também chineses", revela a comercial, com uma década de experiência do evento.

Na altura em que a Riopele se estreava em Paris, a Mefri estava a nascer, em Guimarães. Como muitas outras confeções dos anos de 1980, vivia como subcontratada e estava limitada ao mercado nacional. Só depois da crise internacional de 2009 havia de começar a investir em novos mercados. "Foi com uma marca própria de roupa infantil, a "Wolf & Rita", que começámos a vender design para o Mundo todo", conta Domingos Pereira, comercial da empresa que é estreante este ano na PVP. "Estamos a ter reações muito boas e levamos imensos contactos, que podem ou não concretizar-se em negócios", revela Sérgio Rocha, também comercial na empresa que, hoje, exporta 99,9% da produção. "Na primeira feira que fizemos, em 2012, a Bubble London, ganhámos o prémio Marca Revelação e ficámos lançados", explica o mesmo responsável.

Os potenciais clientes passam e "veem que somos de Portugal e querem logo ver o que trazemos, ouviram falar do país devido ao turismo e ficam curiosos", conta Domingos Pereira. O conceito da coleção deste ano é inesperado: casacos de trabalhador, a fazer lembrar os das oficinas dos anos 1950, camisas de flanela com borboto, manchadas de lixívia ou com tinta branca como quem esteve a pintar a casa e estragou a roupa. "Dá mais trabalho fazer estes efeitos do que deixar a peça direitinha", explica o comercial. "O que, antigamente, era defeito, hoje é efeito", justifica.

Tal como o têxtil nacional, cujo defeito seria não conseguir competir com quantidades avultadas de peças a preços tão baixos como a China ou o Paquistão conseguiam produzir, hoje é a capacidade de produzir pequenas séries em pouco tempo e a preços, ainda assim, muito abaixo do que seria de esperar, que dá toda a vantagem ao setor.

"Trazemos mais de 300 tecidos da nova coleção para a feira, mas depois os clientes pedem alterações. Seja uma cor, um fio, um efeito, e nós fazemos, com prazos de entrega bastante rápidos. O nosso negócio já não são metros e metros de tecido", resume Rita Fortes. "Os chineses são dos clientes mais recentes da empresa porque valorizam muito o design e foi graças a eles, no fundo, que, em 1998, mudámos o foco da empresa para o design", remata.

Cerca de 70 empresas portuguesas participam na PVP, que termina hoje, incluindo 45 no âmbito do projeto "From Portugal" da associação Seletiva Moda. Mais de 50 mil visitantes de todo o Mundo deverão conhecer, em Paris, as coleções de confeções, tecidos, fios, acessórios, malhas e tecidos inteligentes de Portugal, país escolhido este ano para "Focus Country" na seção de manufatura.