Ambiente

Marcas antecipam obrigação de reduzir plásticos

Marcas antecipam obrigação de reduzir plásticos

Sustentabilidade e economia circular são cada vez mais importantes para ganhar credibilidade dos consumidores.

As marcas cada vez mais estão preocupadas com a sustentabilidade e a economia circular. É um caminho que visa, por um lado, "seguir a tendência de mercado" e, por outro, "responder a algumas ações mundiais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas", explica Marta Bicho, professora do IPAM, Instituto Português de Administração de Marketing, adiantando que muitas têm procurado alinhar as suas estratégias de marketing por estas balizas.

"Acredito que há um interesse genuíno na sustentabilidade, mas também ajuda na imagem e reputação da marca", diz. O consumidor português, considera a especialista," está mais desperto e a fazer pressão. Considera cada vez mais importante a sustentabilidade".

A iniciativa Plástico a Mais, lançada em 2019 pela DECO, a Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, atesta essa preocupação. A associação recebeu mais de 1100 denúncias sobre excesso de plástico em produtos, a maioria das quais referentes a frescos, mercearia seca, embalagens de take-away, laticínios, higiene e cosmética e a encomendas com embalagens demasiado grandes, visando "mais de 90 empresas".

Na sequência das denúncias, a DECO reuniu com grandes superfícies e algumas empresas, tendo algumas mudado procedimentos. Há frutas deixaram de vir embaladas em plástico ou passaram a usar menor quantidade.

Ao longo do último ano, a pandemia de covid-19 terá dado mais um impulso e ajudado a "tornar os portugueses mais conscientes", numa tendência crescente de preocupação com o futuro do planeta, acrescenta Marta Bicho.

Por isso, o risco de não enveredarem por este caminho pode levar à descredibilização das marcas. "Daqui a uns anos, quem não tiver esta preocupação vai ficar de lado", pois a questão da sustentabilidade é como "um comboio ou um barco. Ou se entra ou já se perdeu".

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Todas as marcas e grandes superfícies com quem o JN falou assumem compromissos com o ambiente e a economia circular, estão a desenvolver estratégias de redução do plástico nos seus produtos e de substituição de materiais por alternativas mais facilmente recicláveis. Várias integram o Pacto Português para os Plásticos (https://www.pactoplasticos.pt/).

Estão, em muitos casos, a antecipar-se à legislação, já que a diretiva comunitária 2019/904 estabelece regras a cumprir a partir de julho deste ano para reduzir plástico de uso único em vários setores. E a lei 76/2019, também sobre os plásticos descartáveis, aponta períodos transitórios para vários setores. No caso do comércio a retalho, o limite é setembro de 2022.

Opções amigas do ambiente

A Renova está, desde 2018, comprometida com a "eliminação progressiva do plástico", substituindo "a tradicional embalagem de plástico por papel reciclável e biodegradável" no papel higiénico e rolos de cozinha, disse a marca ao JN. No ano passado lançaram a gama Renova 100% Recycles e, este ano, a gama Renova Super "passa também a ter produtos embalados em papel ao invés de plástico". Desta forma, explica a empresa, procuram responder a "uma crescente expectativa dos cidadãos por alternativas de produtos eco-friendly" e assumir a "responsabilidade em criar alternativas que visem a redução de plástico no consumo quotidiano".

Na IKEA, explica Ana Barbosa, responsável de sustentabilidade da marca em Portugal, o processo de descontinuar os artigos de plástico de utilização única começou em 2019. No início de 2020 retiraram os plásticos de utilização única, como palhinhas, sacos de congelação, copos ou talheres, que "deixaram de ser vendidos ou foram substituídos por soluções reutilizáveis ou 100% renováveis". E, atualmente, os descartáveis também já foram todos eliminados da gama de artigos de mobiliário e decoração

Mas para a marca, o plástico é um "material muito importante", por ser "forte, durável, leve, acessível e versátil". Atualmente "mais de um terço" dos produtos plásticos "são produzidos a partir de matérias-primas recicladas ou renováveis, sendo a nossa ambição que em 2030 estejamos a 100%". A mudança obriga a um "grande investimento em Desenvolvimento e Inovação", para encontrar as melhores alternativas.

O problema da poluição dos plásticos, considera a IKEA, "é um trabalho que tem de ser feito em conjunto entre as forças políticas, entidades privadas e os próprios consumidores". Assim, o papel da IKEA passa também por "apresentar soluções que permitem, de forma acessível, fazer pequenas mudanças em casa, mas com um grande impacto no planeta e nas suas carteiras", acrescenta.

A MacDonald"s anunciou que vai reduzir o consumo de plástico "em mais de 500 toneladas por ano, nos restaurantes em Portugal", incluindo 68 milhões de palhinhas e 72 milhões de tampas de bebidas, entre outros. O processo de substituição por produtos mais sustentáveis que permitirá atingir esta meta "estará concluído até ao final do primeiro semestre de 2021". Até 2025, a intenção é "garantir 100% de embalagens provenientes de fontes renováveis, recicladas ou certificadas" sem comprometer a "qualidade e desempenho".

Fim da louça descartável

Encontrar louça de plástico descartável nos super e hipermercados é cada vez mais difícil. No caso do LIDL, a tarefa de descontinuar os plásticos descartáveis, "evitando a entrada no sistema de 12,5 milhões de copos e de 5 milhões de pratos anualmente", começou em agosto de 2018, explica Vanessa Romeu, do departamento de comunicação.

A empresa garante que foi "o primeiro retalhista português a acabar com a venda de sacos de plástico para transporte de compras, em todas as lojas nacionais - que se efetivou no final de 2019 -, retirando do circuito cerca de 25 milhões de sacos de plástico por ano, produzindo menos 675 toneladas deste material anualmente".

Entre outras ações, têm apostado em embalagens com menor impacto e procurado diversas soluções para reduzir. As alterações nas embalagens de cápsulas de café, por exemplo, permitem uma "poupança de cerca de 74 toneladas de plástico por ano". No caso das bananas da Madeira, conseguiram identificar e acondicionar o produto com menos 80% de plástico.

O LIDL integra, ainda, diversas iniciativas de intervenção na comunidade, como é o caso TransforMAR que incentiva a correta deposição dos resíduos para os transformar e devolver à comunidade.

Substituíram as palhinhas

O Continente "antecipou a obrigação legal relativa à comercialização" dos plásticos descartáveis e substituiu as palhinhas de plástico dos pacotes de leites e sumos por outras de papel, evitando 35 milhões de palhinhas por ano. Também está a substituir plástico difíceis de reciclar (como esferovite) e a acabar de escoar artigos de festa descartáveis, que têm sido "escoados a um ritmo de vendas muito inferior". São algumas das estratégias da empresa para ir ao encontro das exigências dos consumidores que, diz Pedro Lago, diretor de projetos de sustentabilidade e economia circular da Sonae MC, "estão cada vez mais atentos às alternativas mais amigas do ambiente".

Na loja Modelo de Vila do Conde, no Continente do Vasco da Gama (Lisboa) e na do GaiaShopping (Vila Nova de Gaia), tem projetos piloto de reutilização de embalagens de take away. Em 2020 lançaram sacos mais ecológicos para o peixe e pão, reduziram gramagem de plástico em embalagens, entre muitas outras ações.

Contas feitas, em 2020, a empresa poupou "4,2 mil toneladas de plástico virgem", um "crescimento de 90% em relação às 2,2 mil toneladas/ano anunciadas em abril de 2019 na plataforma plasticoresponsavel.continente.pt", salienta Pedro Lago.

"Ainda que a mudança de hábitos seja um processo mais lento que o da consciencialização, é notória a preocupação crescente dos clientes e as vendas têm vindo a refletir, gradualmente, essa evolução".

Sacos compostáveis e produtos avulso

A Auchan Retaill Portugal, que tem os supermercados Jumbo, criou um saco reutilizável para frutas e verduras, deixou no ano passado de vender descartáveis de plástico de uso único, como louça, palhinhas e cotonetes, passaram a vender fraldas reutilizáveis e sacos de lixo compostáveis, aumentaram oferta de produtos avulso, frigideiras feitas de latas de alumínio recicladas, entre outras ações. Também têm máquinas para devolução de garrafas de plástico PET

O conjunto destas medidas permitiu eliminar, em 2020, "aproximadamente 222 toneladas de plástico e substituir 343 toneladas de plástico virgem por incorporação de plástico reciclado", destaca a empresa.

No plano de negócios para 2022 contam-se dois grandes objetivos: "tornar 100% das embalagens de marca própria reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis, e eliminar, na medida do possível, as embalagens de plástico nas secções de produtos frescos, frutas e legumes e consumíveis na zona de restauração e cafetaria".

Lutar contra embalagens

No Pingo Doce (PD), explica Fernando Ventura, responsável pela área de eficiência e inovação ambiental, "os plásticos de uso único que estão a ser eliminados (palhinhas, cotonetes, talheres e pratos) representam menos de 1% do total da nossa pegada de plástico descartável, estando os nossos esforços de combate à poluição por plástico centrados nas embalagens com especial enfoque nos produtos de marca própria".

Há pequenas ações que, ao final do ano, poupam toneladas de plástico. Em 2011 a empresa da Jerónimo Martins começou a melhorar o design das embalagens, o que já permitiu reduzir "19 mil toneladas de materiais de embalagens".

Em 2019, "antecipando a eliminação de alguns plásticos de utilização única, os bastões de plástico nos cotonetes PD foram substituídos por bastões de papel, evitando o consumo anual de 25 toneladas de plástico. Já em 2020, foram as palhinhas dos pacotes de leite PD que viram todo o seu plástico ser retirado, sendo que atualmente todas as embalagens de marca própria têm palhinhas de papel" e estão em curso outros projetos.

Há diversas ações visíveis nas prateleiras (que vão desde a utilização de plástico reciclado em produtos até à retirada de microplásticos dos produtos de higiene pessoal, cosmética e detergentes de marca própria) e outras que o consumidor não vê, como o uso de caixas reutilizáveis para transportar frescos, que evitam mais de 20 toneladas em descartáveis.

Materiais alternativos

No final do mês passado, o Mercadona anunciou a conclusão da segunda ação da sua estratégia de sustentabilidade ambiental, ao "eliminar os produtos descartáveis de plástico de uso único em todas as lojas da cadeia, que foram substituídos por outros feitos de materiais sustentáveis". Os novos produtos alternativos são fabricados com "materiais que respeitam o meio ambiente, como o cartão, a madeira, a cana de açúcar e o plástico reutilizável, que pode ser lavado na máquina lava-loiça após cada uma das suas múltiplas utilizações", sublinha.

No âmbito da sua Estratégia 6.25, aponta metas para 2025: reduzir 25% do plástico, ter todas as embalagens de plástico recicláveis e reciclar todo os resíduos de plástico.

Devolução de garrafas

Várias cadeias integram o projeto piloto de devolução da tara das garrafas de plástico PET "Do Velho se Faz Novo", iniciado no ano passado. No âmbito daquele projeto, "foram colocadas mais de 11 milhões de garrafas usadas" nas máquinas, o que representou uma emissão de vales de desconto superior a 500 mil euros, explica o Continente, salientando que 7,3 milhões de garrafas, correspondentes a 289 mil euros em vales, foram nas suas lojas.

No Pingo Doce, o sistema recolheu 1,4 milhões de garrafas (38 toneladas) de plástico, tendo sido descontados "mais de 90% dos talões emitidos". Mas esta empresa tem projetos próprios nesta área. Em 2018, o Pingo Doce disponibilizou as estações de reenchimento de água filtrada "ECO", tendo sido o primeiro retalhista na Europa a disponibilizar este sistema, afiança. A iniciativa, presente em 138 lojas, "permite evitar a produção de cerca de 90 toneladas de embalagens de plástico descartável, por ano", diz Fernando Ventura.

Há outros com a mesma finalidade, como o iRec em Cascais e o Bebidas + Circulares, em Lisboa, que têm o apoio de grandes superfícies.

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