Covid-19

Mesmo em pandemia, o trabalho deles não se faz sem sair de casa

Mesmo em pandemia, o trabalho deles não se faz sem sair de casa

Em menos de dois meses, a Covid-19 originou 343 mil desempregados e um milhão de trabalhadores em lay-off em Portugal, além de mais de 900 mortos. Este cenário era inimaginável a 1 de janeiro, quando o JN noticiou que o desemprego em 2019 tinha atingido "o valor mais baixo desde 2003" - apenas 6,5%, confirmaria o INE. Mas o novo coronavírus paralisou a economia e impôs isolamento social. O teletrabalho generalizou-se, embora haja exceções. O JN falou com seis trabalhadores que, mesmo em tempos de pandemia, não puderam ou não quiseram parar de trabalhar, presencialmente, todos os dias. Eis as suas histórias.

Produção aumentou 50% e trabalham mais horas

A pandemia não é sinónimo de penúria para todas as empresas e a Bial é um bom exemplo disso mesmo. "Se compararmos o que produzimos em março de 2020 com o que tínhamos produzido em março de 2019, posso dizer que aumentámos a produção em 50%", revela Paulo Rebelo, diretor industrial desta empresa farmacêutica da Trofa.

Embora a Covid-19 não tenha diretamente a ver com esse crescimento, uma vez que a Bial não produz medicamentos que possam travar o novo coronavírus, a pandemia acabou por ter influência. Paulo Rebelo revela ao JN que o Infarmed solicitou à empresa que aumentasse a produção de alguns medicamentos, nomeadamente antibióticos e ansiolíticos, "de forma a que não haja qualquer falha no mercado" durante os tempos de incerteza provocados pelo surto.

Dos cerca de 750 trabalhadores da Bial em Portugal, 250 pertencem à parte comercial e estão em teletrabalho; já os que lidam com a produção mantêm-se quase todos a trabalhar presencialmente e, segundo Paulo Rebelo, "têm demonstrado um profissionalismo elevadíssimo", ainda que o seu horário tenha sido alargado - em período normal é das 9.30 às 17.30 horas; agora é das 6 às 23 horas.

Entre as principais restrições conta-se a proibição de os trabalhadores circularem de edifício para edifício - quem está na produção não pode, por exemplo, dirigir-se à secção comercial. Os gabinetes, que antes albergavam até quatro pessoas, agora são ocupados por uma única. E o horário de cantina foi aumentado, de modo a ir ao encontro das necessidades de todos.

Os funcionários compreendem que tenham de trabalhar? "Direi o contrário: têm demonstrado interesse em continuarem a trabalhar. Não tem sido necessário pedir-lhes para virem, eles têm-se oferecido, responde". "Estão perfeitamente alinhados com a missão da empresa."

Chaves no correio para não lidar com os clientes

Se há uma pandemia, existe menos gente nas ruas; menos gente implica menos carros a circular - o que são más notícias para Jorge Oliveira, mecânico e dono de uma oficina em Santa Maria da Feira. No entanto, apesar das dificuldades, o espaço continua aberto. "Houve uma quebra acentuada no negócio, na ordem dos 40% a 50%. Vamos faturando, mas não o que devíamos. Dá para as despesas...".

No início da pandemia o impacto foi grande, de tal forma que Jorge Oliveira diz ter chegado a temer pelo negócio que o emprega a ele e a um outro funcionário. Agora, sente que a situação "já esteve pior".

O que lhe foi valendo durante os dias mais críticos foram as situações "de emergência", como carros com problemas de travões e óleo ou que não andavam de todo. Num país que se retirou em peso para dentro de casa de um momento para o outro, o facto de algumas empresas terem continuado a laborar acabou por ajudar a oficina.

Ainda assim, como medida de proteção, mesmo os clientes que vão existindo têm de se submeter a um ritual: de cada vez que algum deles vai deixar o carro à oficina - após uma marcação prévia que deixou de poder ser presencial -, pára o veículo à porta e coloca as chaves na caixa do correio. Jorge recolhe-as, desinfeta a viatura e leva-a para dentro. No ato de pagamento, "se for a dinheiro, calço luvas".

Mas ver um carro a chegar à garagem pode não ser sinónimo de trabalho imediato, porque os fornecedores reduziram a frequência da entrega de peças. "Antes vinham em 30 ou 40 minutos, agora demoram a manhã toda. Têm menos estafetas a fazer as entregas", diz o mecânico

O facto de a oficina não ter despesas elevadas faz com que a situação "se vá aguentando". O abalo provocado pela pandemia foi forte, mas Jorge Oliveira acredita que a maior tempestade já passou: "Isto está a começar a abrir".

Temos sempre medo mas o melhor é não pensar

Se as grandes cidades se mantêm funcionais durante o dia, muito se deve aos que começam a fazer por isso quando ainda é de noite. Rosa Fonseca é um dos soldados desse exército invisível que continua a garantir a limpeza de uma grande empresa de Lisboa.

A firma não parou durante a pandemia, portanto, o trabalho de Rosa também não. No entanto, o principal problema até acontece antes de começar a trabalhar, às 6 da manhã: "o mais difícil é o medo de andar nos transportes públicos".

Rosa apanha o autocarro de madrugada junto ao metro da Pontinha, local de passagem de muita gente que vem dos arredores para trabalhar na capital. Protege-se como pode: "sento-me ali no meu cantinho e deixo-me estar sossegadinha". Ainda assim, o autocarro traz "muito menos gente" do que dantes - agora, todos têm lugar sentado. Mas não só a proximidade física entre passageiros é inevitável como, relata Rosa, "a maior parte não usa máscara".

O seu horário de trabalho mantém-se - das 6 às 9 horas e, depois, das 14 às 18 horas -, mas o mês ficou reduzido a metade: as 13 funcionárias foram divididas em dois grupos, cada um garante 15 dias de trabalho à vez. O grupo de Rosa, inicialmente de seis pessoas, está agora reduzido a cinco porque "o filho de uma colega apanhou o vírus e ela teve de ficar em casa".

Rosa usa sempre luvas para limpar os seis andares e 18 casas de banho do edifício. E se, por estes dias, o facto de ter um trabalho solitário lhe dá alguma tranquilidade, a verdade é que os receios estão sempre presentes. "A gente tem sempre medo, mas o melhor é não pensar muito."

Ao fim do dia, a hora de ponta é uma memória distante; agora há "quatro ou cinco pessoas" na paragem e, "se alguma tosse, as outras fogem". Rosa espera que o surto passa, até porque trabalhar menos dias "não dá". v

Café, roupa, pacotes: o novo saco do carteiro

Se não fosse pela viseira, à primeira vista pareceria que a Covid-19 mudou pouca coisa no dia a dia de Bruno Lima. No entanto, bastariam poucos minutos de convívio com este carteiro para essa conclusão se revelar precipitada: as ruas que Bruno percorre durante o serviço, antes movimentadas, estão agora desertas; o barulho de fundo, anteriormente intenso devido ao trânsito, deu lugar à acalmia; e o tipo de correio distribuído também mudou radicalmente : antes do surto a entrega de encomendas não superava as 20 por dia, agora chega a 50. Café, roupa e pacotes da Amazon tornaram-se as mais frequentes.

Bruno continua a trabalhar das 6 às 14 horas, sempre na zona do Parque das Nações, em Lisboa. Quando a pandemia começou, chegou a pensar que também os carteiros teriam de ficar em casa; no entanto, o facto de os CTT terem disponibilizado de imediato viseiras, luvas e álcool-gel, fê-lo sentir-se protegido.

Mais difícil, contudo, é transmitir às pessoas com quem contacta que está, de facto, bem preparado para enfrentar o vírus, ou, pelo menos, tanto como a realidade permite. Sempre que vai a casa de alguém fazer uma entrega, o cenário repete-se: "Muita gente pede para deixarmos o correio junto à porta. Mantêm sempre a distância, ficam recolhidos e só esticam o braço. Alguns recebem-me com máscaras". Contudo, não confunde essas cautelas temporárias com quaisquer gestos de animosidade: "não sinto nenhum tipo de discriminação", garante.

Bruno Lima compreende essas atitudes, tanto que ele próprio também se sente um potencial fator de risco para a mulher e as duas filhas. A Covid-19 já o obrigou a adotar um ritual que repete sempre que regressa a casa depois do trabalho: "descalço-me à porta, tiro a roupa, ponho-a toda para lavar e vou tomar banho. Só depois é que lhes dou beijinhos e abraços".

"Deixámos de nos cruzar com na mudança de turnos"

"Ninguém morre por falta de óleo e azeite, mas são dois alimentos que fazem falta." É assim que Filipe Sousa, chefe de turno da secção de embalamento da empresa de óleos alimentares Sovena, justifica o facto de o seu empregador ter mantido a atividade durante a pandemia. Garante que esta opinião é "quase geral" entre os trabalhadores e que o facto de a fábrica ser espaçosa possibilita que a distância entre todos raramente baixe dos cinco metros.

Ainda assim, foi necessário alterar rotinas. A maior diferença registou-se nas rendições de turno: no passado recente, tinham lugar junto à linha de produção, de modo a que esta não parasse; agora, a saída do turno anterior ocorre alguns minutos mais cedo, para evitar cruzamentos entre funcionários. Esse compasso de espera "quebra um pouco a produtividade, mas estamos à altura de cumprir com as necessidades do mercado", assegura Filipe.

À hora das refeições, a produção também passou a parar e, nos balneários, foi imposto um limite máximo de gente. Os trabalhadores dispõem de álcool-gel, mas o uso de máscara e de luvas ainda não é obrigatório. Neste momento, relata Filipe Sousa, "quem quer usar usa, quem não quer é livre de o fazer". Contudo, acrescenta que as regras deverão mudar em breve, de forma a irem ao encontro das novas orientações da Direção-Geral da Saúde.

E terá Filipe Sousa medo da pandemia? "Receio há sempre, como é óbvio. Seria irresponsabilidade não ter. Mas acredito que, se não procurarmos, não encontramos. Se cumprirmos o que tem sido pedido, acho que não há problema."

Uma vez que ele próprio tem mulher e uma filha, compreende que o levantamento das restrições atuais tem de ser "muito bem pensado". Contudo, defende ser importante "começar a fazer mover o país". Acredita que o fim do confinamento trará boas e más notícias. "É um pau de dois bicos."

Aposta em vendas online está a salvar a empresa

Transformar as crises em oportunidades é o Santo Graal das empresas durante períodos críticos. Muitas perseguem esse objetivo, embora, na maioria dos casos, a dura realidade acabe por se impor. No entanto, a Satfiel pertence ao grupo restrito de firmas que, mesmo em plena pandemia, encontraram algumas razões para sorrir.

Segundo Luís Braziela, CFO desta empresa de reparação de eletrodomésticos e equipamentos eletrónicos de Penafiel, as quebras de 50% tanto ao nível de assistência técnica ao domicílio como em reparações de oficina foram, de algum modo, atenuadas pela aposta no e-commerce - ou seja, na venda de peças online. Este serviço cresceu quase 300% durante a pandemia.

"Foi uma oportunidade para, no meio das cinzas, apostarmos em algo que estava parado por falta de tempo", revela Luís. A lição foi aprendida: no futuro, a empresa recorrerá "muito mais" ao e-commerce.

Apesar disso, a restante realidade da Satfiel é bem menos auspiciosa, desde logo porque há muita atividade que depende das reparações ao domicílio. Luís diz que os 30 técnicos da empresa - quase todos a trabalhar - notam que os clientes estão "mais apreensivos". Só chamam uma equipa em casos urgentes, como avarias de esquentadores, frigoríficos ou caldeiras.

Praticamente desapareceram as situações de caráter estético, como equipamentos com ferrugem, ou ainda pequenas avarias. Por exemplo, se uma máquina de lavar deixou de torcer a roupa mas continua a funcionar, as pessoas "ou torcem a roupa à mão ou deixam-na mais tempo a secar".

Entre as deslocações a domicílios, já houve idas a casa de doentes com Covid-19. Nessas ocasiões, além das luvas e máscaras habituais, os técnicos levam um fato protetor e óculos especiais. Luís garante que a saúde dos trabalhadores está salvaguardada.