Reportagem

O dia a dia da economia em tempo de guerra

O dia a dia da economia em tempo de guerra

Mercearias, padarias, gasolineiras e quiosques. São exemplos de estabelecimentos comerciais que continuaram a funcionar, mesmo depois de ter sido decretado o estado de emergência em Portugal.

Em vários pontos do país, o JN foi tentar perceber nos últimos dias como estão a trabalhar e obteve algumas respostas surpreendentes. Para começar, parece que há alternativas aos supermercados no pequeno comércio local, onde não faltam os produtos alimentares de primeira necessidade e não só. Um deles é o pão, que continua a ser muito procurado, embora não chegue para manter em alta o nível de vendas de locais que também dependem da restauração. Quanto aos combustíveis, há quem prefira vender menos, se isso significar que as pessoas respeitam as indicações de ficar em casa. E existem quiosques com jornais esgotados. Também há boas notícias...

Mercearia mais antiga de Gaia prospera em tempo de crise. Vendas de alimentos dispararam nos últimos dias

As caras sorridentes dos donos dizem tudo. Maria Alcina, de 49 anos, e Firmino Almeida, de 51, partilham com o JN uma satisfação, porventura inesperada, na acolhedora Mercearia Flor Vilanovense, a mais antiga de Gaia, aberta há mais de 100 anos.

"Não me vou pôr a mentir. As vendas subiram nos últimos dias e não estamos a ser afetados por esta crise. Chegámos a ter aqui uma pessoa que gastou 200 euros de uma vez", revela Firmino, enquanto oferece uma cervejinha aos repórteres. "É melhor não? Vocês lá sabem... Os produtos que vendemos são sobretudo alimentares. Tudo o que dê para armazenar, as pessoas vêm comprar. Arroz, enlatados, bolachas", acrescenta.

Maria Alcina nasceu praticamente dentro da mercearia. "É a minha casa desde sempre. As pessoas gostam de cá vir e, nesta altura de crise, muita gente prefere deslocar-se aqui a ir ao supermercado. Há pessoas de mais idade que fazem encomendas por telefone e pedem para lhes levarmos as coisas a casa. Fazemos isso quando saímos, ao fim da tarde", conta, dando uma explicação curiosa para estar a vender mais: "As pessoas comiam muito fora, nos restaurantes e agora têm de passar a comer em casa. Para isso, querem ter a dispensa cheia. Vai ser um caos, porque a maior parte não sabe cozinhar".

Desde segunda-feira passada que os clientes não param de aumentar. "Sexta-feira foi um dia mais calmo, mas mesmo assim com maior movimento do que aquele que tínhamos numa sexta normal", sublinha Firmino, convencido de que a situação de emergência provocada pela pandemia do novo coronavírus será "passageira" e que dentro de algumas semanas tudo voltará à normalidade.

"Isto está a dar para pôr as contas em dia. Mesmo assim, só deixamos entrar na mercearia duas pessoas de cada vez. Toda a gente tem sido muito correta a respeitar as normas de segurança".

Padaria gaiense sofre uma quebra de 70% nas vendas, mas o dono vai fazer tudo para manter o negócio aberto

Há muito que as padarias deixaram de ser apenas locais de venda de pão, para se transformarem em cafetarias. A padaria Benita, que abriu na Rua Soares dos Reis em 1974, não foge a esta regra, mas em tempo de pandemia é mesmo o pão que a mantém à tona.

"A parte da cafetaria não está a funcionar. Deixámos de servir pequenos-almoços e refeições rápidas nas mesas. A produção de pão também baixou. Em vez de ter três pessoas no fabrico, tenho uma. Tivemos uma quebra brutal nas vendas, na ordem dos 70%", conta, ao JN, Paulo Cerdeira, de 41 anos, dono do estabelecimento, resignado a uma realidade nova para todos. "Costumava ter 11 funcionários, cinco a trabalhar de manhã e quatro à tarde. Agora tenho quatro, dois em cada horário. Vou tentar manter a padaria aberta o máximo de tempo possível, mas já sei que terei de injetar capital. As ajudas do Estado, no fundo, serão em forma de empréstimos com custos acrescidos, que protelam a dificuldade", acrescenta, dando um exemplo bem elucidativo do que passou a ser o dia a dia da padaria: "Só em pequenos-almoços, servia 200 litros de leite por semana. Desde que esta crise começou, numa semana só gastei um litro com os funcionários".

Enquanto a reportagem do JN esteve na Benita, foram chegando pessoas para comprar pão e outras adquiriram produtos de tabacaria, que também se vendem no estabelecimento. Mas é o pão que vai saindo com mais frequência.

"Muitas vezes, as pessoas que querem comprar pão encomendam-no de casa e chegam a vir buscar 50 pães de uma vez. Os preços mantêm-se. Tenho a mesma tabela há dois anos", salienta Paulo Cerdeira, ao mesmo tempo que pesquisa no telemóvel sites oficiais das autoridades portuguesas, para saber se pode servir cafés para fora, à americana, em copos de plástico. É preciso arranjar novas fontes de receita...

Proprietário de oito gasolineiras na região aveirense prefere não vender combustível a ver gente fora de casa

"Ainda bem que estou a ter menos clientes desde quinta-feira e espero ter cada vez menos nos próximos dias". Não parece, mas quem fala assim é um empresário. João Almeida, de 61 anos, tem oito gasolineiras na região de Aveiro, uma em Cacia e outras sete espalhadas por Oliveira de Azeméis, Murtosa e Vagos. Vive das vendas, mas sabe que nesta altura outros valores se levantam. É a pensar na saúde pública que deseja ganhar menos nas próximas semanas.

"É sinal de que as pessoas perceberam que têm de ficar em casa para evitar a propagação do vírus", explica ao JN. E se a venda de gasolina ou gasóleo serve de barómetro, "só depois do anúncio do estado de emergência é que a esmagadora maioria ficou em casa". Só nessa quinta-feira se começou a sentir uma quebra nas vendas, com o posto de Cacia "a cair mais de 30%".

João Almeida pertence a um dos ramos que podem continuar em atividade. É daqueles que põe o país a circular e acredita que será possível manter os 27 funcionários das estações de serviço. "Acredito porque tem havido um entendimento entre nós", nomeadamente na redução dos horários (postos funcionavam das 6 às 22 horas e agora estão abertos das 7 às 19) e na compensação futura dos dias agora passados em casa.

A gestão dos recursos humanos é feita dia a dia, "consoante as necessidades". Seis das funcionárias deixaram de trabalhar para estarem com filhos pequenos, um dos postos, o de Vagos, passou a ser de abastecimento automático 24 horas e João Almeida admite uma segunda redução do horário, porque acredita que a procura vai diminuir nas próximas semanas.

Em Cacia, o atendimento faz-se através do vidro, com funcionários de luvas e gel desinfetante disponível para os clientes, que têm mantido "uma postura de responsabilidade, cumprindo a distância social no abastecimento e no pagamento".

Jornais esgotam em quiosque porque há gente cansada de ver televisão. Pessoas aproveitam para tomar café

Não se vê quase ninguém nas ruas e o número de carros a circular diminuiu imenso. Os automóveis estacionados denunciam, porém, que há muita gente dentro das casas. São estas pessoas que esgotam os jornais do quiosque Pinheiro, que não está a sentir uma quebra nas vendas. "Muito pelo contrário, até tenho vendido mais", diz o dono, José Rodrigues, de 68 anos.

A pequena esplanada, montada todos os dias junto ao quiosque para receber os clientes, serve agora de barreira para criar a distância necessária ao impedimento da propagação da Covid-19. As cadeiras amontoadas umas em cima das outras são o suporte de uma folha de papel onde se pode ler: "Por favor, respeite a distância". José Rodrigues e Eugénia Miranda, proprietários do quiosque, também já utilizam máscaras e luvas, e esperam continuar a fazê-lo nos próximos tempos. "Só se nos constiparmos é que fechamos", garante José.

Alguns restaurantes e cafés das redondezas do bairro da Quinta do Pinheiro já encerraram, as igrejas próximas deixaram de celebrar missas e veem-se menos grupos de pessoas. "Se, por um lado, quem ia à missa deixou de aparecer, por outro lado quem ficou confinado em casa aparece mais. E muita gente que comprava o jornal onde trabalha, agora compra aqui", conta José. A máquina de café também é uma mais-valia.

Na tarde em que o JN esteve no quiosque, além dos jornais, que esgotaram todos à exceção de dois exemplares de um desportivo, venderam-se raspadinhas, revistas cor-de-rosa e tabaco. "As pessoas dizem-nos que estão cansadas de verem televisão e preferem ler. Há também quem apareça com medo que o tabaco acabe e compre dois volumes. Já pedi um reforço", revela Eugénia, de 65 anos. Os clientes habituais continuam a vir, mas nota-se uma diferença. "Agora vêm mais de fugida. Não se sentam, não ficam a conviver", conta.

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