Economia

Pagar a fornecedores dentro do prazo ajudava a criar 120 mil empregos

Pagar a fornecedores dentro do prazo ajudava a criar 120 mil empregos

Portugal poderia gerar mais de 120 mil empregos e aumentar o valor bruto da produção em 22 mil milhões de euros se todos os agentes económicos pagassem, de acordo com a lei, aos seus fornecedores, revela um estudo.

Segundo um estudo da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), elaborado em colaboração com a consultora Augusto Mateus & Associados, de que é líder o economista Augusto Mateus, o pagamento aos fornecedores, conforme o estipulado na lei, permitiria uma injeção de liquidez na economia que "poderia gerar mais 120 mil empregos num primeiro ano, 22 mil milhões de euros do valor bruto de produção e 4800 milhões de euros do valor acrescentado bruto, o que representa 3,24% do Produto Interno Bruto (PIB)".

"Nós estamos numa situação em que o pior da destruição já terá passado e em que temos condições para podermos preocupar-nos com um caminho de recuperação que vai ser longo e difícil", disse Augusto Mateus à imprensa durante a conferência "Pagar a horas, fazer crescer Portugal".

O antigo ministro da Economia disse ainda que o pagamento não atempado aos fornecedores, com especial enfoque nas pequenas e médias empresas (PME), contribui para que existiam mais entre 75 mil a 100 mil pessoas no desemprego.

Além disso, apontou o facto de as PME, com este procedimento negativo, terem aumentado as suas dificuldades de tesouraria e de liquidez, problema que é ampliado por causa da subcapitalização das empresas e da política de capitalização da banca que foi seguida, tendo-se esquecido as entidades de menor dimensão.

"Nós não podemos sair da situação em que estamos apenas com medidas financeiras. Nós temos uma crise financeira, mas precisamos de tomar medidas financeiras dentro de uma estratégia económica e social mais vasta, pois as nossas dificuldades atuais têm a ver com a não existência de medidas de acompanhamento das antipáticas medidas da austeridade ou de ajustamento financeiro", salientou.

O economista considerou que Portugal "não pode capitalizar apenas a banca e não capitalizar as pequenas e médias empresas", acrescentando que a taxa de sinistralidade no crédito é de 16%, visto pelo lado de quem emprestou, e de 30%, visto do lado das empresas que não estão a cumprir, "não totalmente, mas pontualmente".

"É uma situação muito complexa e temos de fazer um esforço de capitalização das PME que já nasceram com pouco capital financeiro e insuficiente capital humano", disse.

O estudo permitiu ainda concluir que a economia poderá funcionar "mais depressa" se se conseguir resolver o problema dos pagamentos em atraso ao nível do setor privado, encontrando desta forma resultados "muito interessantes" do ponto de vista do emprego e do crescimento.

Se Estado pagasse era "balão de oxigénio"

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, por sua vez, referiu que o financiamento "está escasso e caro" e se o Estado pagasse aquilo que deve, sobretudo às PME, que segundo os cálculos desta entidade patronal ronda 2700 milhões de euros - já esteve nos 3200 milhões de euros -, "isso já era um balão de oxigénio para as tesourarias das empresas (PME) e eventualmente resolveríamos muitas das falências, porque as empresas não estão a resistir à falta de crédito e aos atrasos constantes de pagamento".

Para Augusto Mateus e António Saraiva o atraso nos pagamentos não se deve só ao Estado, mas também às empresas, "é um círculo vicioso para a economia". Por isso, defendem uma prática assente na ética e de maior colaboração e ajuda ao nível das associações empresariais, Estado e do setor privado, para que se crie emprego e haja crescimento sustentado.

"A prática do pagar e morrer quanto mais tarde melhor está a asfixiar as tesourarias e está a matar as empresas [PME]", salientou o presidente da CIP.

António Saraiva defendeu que parte dos 12 mil milhões de euros que foram destinados à recapitalização da banca, e que não foram utilizados deveria servir para capitalizar as empresas portuguesas, numa alusão às PME.

Já António Pinto Leite, presidente da ACEGE, disse que o estudo revela "uma situação dramática, mas ao mesmo tempo é uma janela de oportunidade", ideia também partilhada pelo economista Augusto Mateus e por António Saraiva.

As conclusões do estudo, que denunciam, entre outros aspetos, a perda de 75 mil a 100 postos de trabalho, deveria "envergonhar todos os líderes empresariais e pôr as mãos na cabeça a todos os membros do Governo", salientou.

O economista Augusto Mateus defendeu a extensão da experiência do IVA de caixa, como medida a propor, a aposta no capital humano, e o repensar da lógica das indemnizações compensatórias às empresas.

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