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Pandemia acelera rede de ciclovias na Europa

Pandemia acelera rede de ciclovias na Europa

Lisboa, Barcelona, Milão ou Bruxelas são algumas das cidades europeias que anteciparam os planos de mobilidade. A covid-19 deu um empurrão à bicicleta e aos circuitos pedonais que estão agora a ganhar mais espaço nas ruas.

Por todo o planeta e, em particular na Europa, a mobilidade nas cidades atravessa profundas mudanças. E o responsável é, sem surpresas, a covid-19, que levou governos locais, regionais e centrais a acelerar os planos e a inaugurar novos circuitos para as bicicletas e peões. Grandes centros urbanos como Milão, Paris, Barcelona ou Bruxelas estão a construir ou a projetar para o curto prazo centenas de quilómetros de ciclovias e passeios pedonais. Lisboa e Porto também não ficaram de fora desta megaoperação, que ganhou um novo impulso com a pandemia do coronavírus.

Mesmo aqui ao lado, em Espanha, o objetivo de Barcelona é criar, nos próximos dois meses, mais 21 quilómetros de ciclovias e 12 quilómetros de espaços pedonais, além da requalificação de algumas dezenas de corredores bus no centro da cidade. A capital da Catalunha já é considerada uma das melhores do mundo para andar de bicicleta com os mais de 300 km de ciclovias que ficaram concluídos em 2018. O que se pretende agora é limitar ainda mais a circulação do automóvel em várias artérias da cidade e reduzir a velocidade máxima para 30 km/h em zonas mais movimentadas.

Bruxelas, entretanto, arrancou com a primeira fase de medidas pós-confinamento, no início de maio, expandindo a rede ciclável da cidade em cerca de 40 quilómetros. As obras na capital belga aconteceram ao mesmo tempo que a autoridade Brussels Mobility apelou aos residentes para optar pela bicicleta nas viagens de curta distância. A maioria dessas pistas que, nas últimas semanas foram sendo marcadas nas estradas, são para conservar - assegura o governo regional - uma vez que já estavam previstas no plano de mobilidade para a próxima década.

É Milão, em Itália, que está, contudo, entre as cidades europeias com o calendário mais ambicioso, esperando, antes do fim do verão, transformar radicalmente as suas estradas para dar mais espaço aos ciclistas e aos peões. No final do maio, as autoridades anunciaram o plano Strade Aperte (Estradas Abertas), que prevê a reconversão de 35 quilómetros de vias rodoviárias em pistas cicláveis e pedonáveis. Pretende-se com esta a intervenção assegurar as deslocações casa-trabalho através de modos de transportes leves.

Apesar de densamente povoada, mais de metade dos 1,4 milhões de habitantes utiliza os transportes públicos para trabalhar e, em média, cada residente mora a cerca de quatro quilómetros do escritório. São números e distâncias que levam a autarquia a considerar não ser difícil implementar a mudança. Até porque tanto Milão como toda a Lombardia estão entre as regiões mais poluídas e atingidas pela pandemia na Europa.

Em Atenas, na Grécia, as escavadoras também já começaram a abrir caminho aos peões e às bicicletas. O plano passa por interditar os carros à volta da Acrópole e alargar os passeios das avenidas mais importantes para permitir o distanciamento social. A capital grega prevê, até ao final de 2022, concluir ainda uma passadeira pedonal de quase sete quilómetros a ligar os principais pontos turísticos e arqueológicos da cidade.

E, em Paris, há cerca de 650 quilómetros de ciclovias a serem aceleradas desde a segunda quinzena de maio. O Plano Vélo, que deveria ficar concluído em 2024, foi agora antecipado para o final do próximo ano. Para incentivar os parisienses a usar a bicicleta, as autoridades francesas criaram também um fundo de 20 milhões de euros para o programa Coup de Pouce Vélo. A iniciativa, do Ministério da Transição Ecológica, inclui um incentivo de 50 euros para financiar a manutenção das bicicletas usadas em cerca de três mil oficinas.

As cidades portuguesas

À semelhança de Paris, Lisboa criou também um fundo para apoiar quem quer comprar uma bicicleta. São três milhões de euros que a câmara municipal anunciou recentemente e têm como finalidade evitar que os lisboetas regressem ao automóvel. Os apoios foram divididos em três classes: até 100 euros para bicicletas convencionais (exclusivo para estudantes universitários e do ensino secundário), até 350 euros para bicicletas elétricas e até 500 euros para bicicletas de carga destinadas ao transporte de crianças e mercearias.

Ao mesmo tempo, o presidente da autarquia, Fernando Medina, assegurou que até julho haverá mais 26 quilómetros de pistas cicláveis a ligar as principais artérias da zona oriental, da avenida da Liberdade ou da avenida 24 de julho. Em setembro, ficarão terminados outros 30 quilómetros de ciclovias e, no primeiro trimestre de 2021, conclui-se finalmente o plano com mais 25,5 km entre a avenida Gago Coutinho e a avenida Helena Vieira da Silva.

O estacionamento para bicicletas também será reforçado em mais 1050 lugares nos parques concessionados pelo município e nos espaços subterrâneos da EMEL. As interfaces de transporte público terão, por outro lado, mais 1700 lugares, e há mais cinco mil espaços disponíveis para entidades públicas que o solicitem, como escolas ou clubes desportivos.

O Porto já tem em curso a estratégia de recuperação do espaço público, em que se prevê mais áreas pedonais aos fins de semana e uma rede de percursos cicláveis alargada em 35 quilómetros até ao final do ano. Serão também criados 130 lugares para estacionar bicicletas em parques vigiados e ainda 72 estações (bicicletários) com mais 521 lugares. Na avenida da Boavista, o plano passa por usar parte da via para colocar a pista ciclável, mantendo-a afastada das zonas de estacionamento. O que se pretende é que, até dezembro, toda a cidade - da zona ocidental à oriental -, fique ligada por esta rede de percursos cicláveis.

Do Peru à Nova Zelândia

Outras cidades europeias como Londres, Berlim ou Roma estão, do mesmo modo, a fechar as estradas à circulação automóvel para dar passagem à micromobilidade. Mas este não é um fenómeno circunscrito à Europa. Um pouco por todo o mundo, as autarquias procuram incentivar os moradores a tirarem a bicicleta da garagem e saírem para a estrada.

O caso mais extraordinário será, talvez, a capital do Peru. Lima quer concluir em três meses a implementação de uma rede ciclável que estava prevista terminar somente em 2025. No total serão criados 301 quilómetros de ciclovias temporárias, que vão passar gradualmente a definitivas.

Na Nova Zelândia, o governo lançou, este mês, um programa para financiar projetos de pequena ou média escala que promovam a mobilidade ciclável e/ou pedonável entre bairros vizinhos. Innovating Streets For People é um fundo de quase cinco milhões de euros - mas que poderá chegar aos 65 milhões - ao qual qualquer entidade pública ou privada pode candidatar o seu projeto.