A ética ao serviço da saúde do fumador

A ética ao serviço da saúde do fumador
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Até que ponto mensagens alarmantes e com uma forte carga de culpabilização ajudam os fumadores a melhorar a sua saúde? A ética, a informação científica e a forma como esta é comunicada estiveram em análise na quinta Conferência Científica dedicada à redução do risco dos produtos alternativos aos cigarros.

Da totalidade de doentes internados com patologias do foro cardiovascular em unidades da especialidade na Grécia, 27,5% admitem que continuam a fumar, apesar de terem consciência dos efeitos nocivos para a saúde que isso acarreta. Os dados, fruto de uma pesquisa do grupo grego Cardioresearch, foram divulgados pelo cardiologista Panos Vardas, durante a quinta Conferência Científica dedicada à redução do risco nos produtos de tabaco, que decorreu em Atenas na semana passada. Com estes dados o médico grego, orador num painel dedicado ao tema da ética, pretendeu lançar a discussão sobre a melhor forma de lidar com os hábitos tabágicos e os riscos que acarretam.

"Como cardiologista tenho consciência de que estou a falar de um tema sensível: tabagismo, redução de risco e ética", admitiu Panos Vardas, que vê a atual perspetiva da Organização Mundial de Saúde - que em seu entender almeja a erradicação do tabagismo e do consumo dos produtos de tabaco - como utópica. "O ser humano é, por natureza, hedonista. Por vezes os prazeres acarretam riscos. Mas o que é melhor: condenar o consumidor na tentativa de cessação total dos hábitos tabágicos ou pensar em vias alternativas?", questionou.

Contudo, para que se aposte na via alternativa, são necessários mais dados e evidência científica mais clara. Para Panos Vardas, com muita informação partilhada sobre os produtos alternativos aos cigarros como o tabaco aquecido ou os cigarros eletrónicos, e com as provas inequívocas de que representam "cada vez menor risco para a saúde", estas poderão ser formas de acompanhar melhor a população que não consegue deixar de fumar. "Uma forma de compromisso entre o ethos e a realidade", disse.

Por seu turno, David Sweanor, professor de Direito da Universidade de Otava, sublinhou a importância da confiança da informação veiculada pelas autoridades para a saúde pública. "Se as pessoas não acreditam na informação divulgada pelas autoridades, acontecem coisas más. Vimos isso com a Covid-19", lembrou.

Para Sweanor, os produtos alternativos aos cigarros têm sido afetados pela crença enraizada de que "se o fim é correto, é normal que se enganem as pessoas". Uma estratégia que, alerta, tem levado a uma quebra de confiança em relação às informações oficiais. "Para haver um enquadramento ético, é necessário que o objetivo a atingir esteja bem identificado na mensagem e que esta não sobrecarregue um grupo em particular", defende. Algo que, a seu ver, não tem acontecido com os produtos alternativos aos cigarros, alvo de informação que acaba por culpabilizar o consumidor. "É preciso dar às pessoas hipóteses que sejam viáveis e não apenas que pareçam uma boa ideia aos decisores", apelou.

Mais informação médica

"Médicos mais bem informados são a garantia de doentes mais bem tratados", este é o moto da EMA e é também o meu", afirmou Manuel Pais Clemente, médico e vice-presidente da Associação Médica Europeia (EMA), ao abrir o painel que pôs em relação a evidência científica e as necessidades dos indivíduos. Para o médico portuense, é urgente que o consenso sobre a estratégia de redução de risco, já vigente quando se fala de alcoolismo ou toxicodependência, chegue também ao combate ao tabagismo. "Não devemos abandonar os fumadores, mas sim procurar produtos alternativos e inovadores que os possam ajudar", defendeu.

Salvaguardando que os produtos de risco modificado como o tabaco aquecido ou os cigarros eletrónicos são menos prejudiciais do que o tabaco, mas não estão isentos de risco, o médico defendeu que consumidores, políticos e reguladores devem ser informados sobre os desenvolvimentos e inovações nesta área. Só assim, acredita, podem tomar decisões mais corretas e informadas e criar legislação e recomendações políticas mais adequadas às necessidades dos indivíduos.

Tal como outros oradores que passaram por Atenas na última semana, também Pais Clemente defendeu a necessidade da realização de estudos comparativos de grande dimensão ou investigação prospetiva, de modo a garantir um cada vez maior número de dados científicos fiáveis que apoie a tomada de decisão aos vários níveis.

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