Pequenos acionistas

Porque é que o caso GameStop não ocorreria em Portugal

Porque é que o caso GameStop não ocorreria em Portugal

Em Portugal não ocorreriam situações de especulação e elevada instabilidade como a que se vive em Wall Street com empresas como a GameStop, declarou o presidente da Maxyield - Clube dos Pequenos Acionistas, Carlos Rodrigues, à agência Lusa.

A GameStop, uma cadeia de lojas de videojogos, começou o ano a cotar 17 dólares por ação, mas na passada quinta-feira alcançou os 483 dólares e fechou janeiro com uma valorização de 1600% O fenómeno, que tem na base um movimento de protesto organizado de pequenos acionistas, está a perder força e acabou terça-feira a sessão bolsista em queda de 60%, para 90 dólares, depois do recuo de 31% na segunda-feira.

Para fundamentar a afirmação de que em Portugal não ocorreriam situações de especulação e elevada instabilidade, Carlos Rodrigues avançou vários argumentos. Desde logo, o facto de, no nosso país, existirem apenas quatro empresas com registo de operações de vendas a descoberto (short-selling, em inglês): NOS, BCP, REN e CTT. Depois, as respetivas partes do capital social envolvidas são escassas: 0,6% nos casos de NOS e BCP, 1% no da REN e 2% no dos CTT. E destas, "apenas uma [CTT] tem grande histórico relativamente a vendas a descoberto". Daqui conclui-se desde já que "este fenómeno em Portugal tem uma dimensão reduzida", afirmou.

Nas explicações está também o facto de a importância relativa dos pequenos acionistas e investidores portugueses ser bem menor do que em outros mercados, desde logo o dos EUA, o que não permite este tipo de situações. Menção ainda para uma regulação dos mercados muito mais forte na União Europeia do que nos EUA.

Para o também fundador da Maxyield, que foi docente nas universidades Católica, no Funchal, e da Madeira, desde 1984 até 2019, o que o processo GameStop mostrou foi "uma economia de casino", quando, na sua opinião, "não se pode ver o mercado de capitais sujeito a tal economia".

Recordou que o objetivo das vendas a descoberto é obter ganhos com a alienação de ações, que se pedem emprestadas, procurando forçar a sua descida, para depois as comprar e devolver, lucrando a diferença. Mas, no caso do GameStop, salientou, o processo foi mais longe e chegou-se a vender ações sem o vendedor as possuir, nem sequer via empréstimo. "O número de ações sujeitas a 'short-selling' foi superior ao número de ações da empresa colocadas no mercado".

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Esta versão extrema de "short-selling" - vender ações sem as ter -, designada "naked short selling", disse, "na UE ou não existe ou é muito limitada".

Para a forte valorização da GameStop também contribuiu o sentido de oportunidade de outros fundos, que aproveitaram a sua subida, além da revolta dos pequenos investidores, organizados em fóruns virtuais, contra os "hedge funds". Mas, por junto, Carlos Rodrigues apontou que o crescimento bolsista da GameStop "não tem qualquer relação com o seu valor ou os seus fundamentais empresariais". O que passou foi, sistematizou, "uma conjugação de pequenos investidores, agrupados na Reddit, juntamente com fundos que beneficiaram com a situação".

Apesar de rejeitar a analogia com a história de David contra Golias, Rodrigues avançou que "houve um comportamento emocional contra a prática do 'short selling'" e em particular da versão mais dura, de vender sem ter a ação. Contrapôs, por outro lado, que "o mercado bolsista dos EUA tem uma grande robustez e dimensão", que lhe permite lidar com estas crises, aludindo ao comportamento dos principais índices.

No primeiro mês do ano, Dow Jones e o S&P500 recuaram, respetivamente 2,0% e 1,1%, e o Nasdaq subiu 1,4%. "Trata-se de um domínio totalmente diferente do ocorrido com o GameStop", salientou. "Há aqui uma componente racional que não tem nada a ver com as emoções dos pequenos investidores reunidos nesta pequena comunidade em torno do Reddit", insistiu.

Em todo o caso, desenvolveu, estas diferenças "não significam que os reguladores não devam agir para impedir uma especulação que leve preços para valores irracionais".

Sobre a Maxyield, criada há dois anos, o seu fundador recordou que na sua génese estiveram quadros que pertenciam aos CTT. Desde então, tem-se batido por mais transparência e melhor informação ao mercado de capitais, com um foco na responsabilidade da gestão das empresas de tornar o funcionamento dos mercados mais eficiente e transparente, de forma a captar novos investidores. Esta captação é um objetivo em que se confronta, constatou, com um "nível fraco de associativismo dos pequenos investidores no país".

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