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Economia

Portugal pode ganhar com esta crise sem culpados

Portugal pode ganhar com esta crise sem culpados

A crise económica chegou de forma galopante com uma pandemia inesperada. Em 2008, ao contrário do que sucede agora, a crise não atingiu todos.

Nuno Fernandes, professor de Finanças na IESE Business School, em Madrid, e João Cerejeira, professor na Universidade do Minho, levam-nos numa viagem que parte do presente em direção a um futuro diferente. Portugal pode ter algo a ganhar nas cadeias mais curtas de abastecimento que estão a nascer, em detrimento da produção asiática. Houve um salto tecnológico provocado pelo confinamento que pode gerar, a prazo, mais desemprego estrutural (permanente) para muitos, mas que traz inúmeras vantagens. Tanto o trabalho como o ensino não ficarão iguais ao "status quo" pré-pandémico.

Todos foram atingidos

A crise financeira de 2008 tinha uma origem concreta nos EUA. As ondas de choque fizeram-se depois sentir nas taxas de juro das dívidas públicas de vários países. Portugal foi um dos mais atingidos, tendo de pedir ajuda internacional em 2011. Fazíamos parte do grupo de estados mais vulneráveis, tendo em conta o peso da dívida pública e os desequilíbrios nas finanças públicas. Tínhamos a companhia da Grécia, de Espanha e até da Irlanda, país que rapidamente resolveu os seus problemas nos bancos e renasceu rapidamente das cinzas. Agora, o cenário é diferente e a Europa do Norte tem resistido, tal como há uma década, em dar dinheiro fácil ao Sul. "A crise atual é simétrica e não há um culpado e difere nesse aspeto da anterior. No entanto, o ponto de partida não é simétrico. Há países muito menos endividados que têm muito mais capacidade de se financiarem. A Europa do Norte também ganha mais se o processo de recuperação for simultâneo. Se assim não for, os países do Norte vão exportar para onde? Se a recuperação for assimétrica, haverá perdas e isso prejudica também os mais ricos", refere João Cerejeira, professor da Universidade do Minho. "Estamos perante uma crise provocada por um vírus que atinge todos, pobres e ricos, novos e velhos", sublinha Nuno Fernandes, professor da IESE.

China será substituída

Para espanto de muitos, os serviços nacionais de saúde de países ricos ou pobres tinham falta de coisas tão básicas como máscaras, um material têxtil. Havia uma competição global por chegar primeiro a esses bens. De onde vinham? Sobretudo da China. "Nós vimos uma falha de bens ligados à Saúde no início da pandemia em Portugal. Faltavam máscaras e ventiladores, mas não houve falta de alimentos. Porquê? Porque há uma política agrícola comum na Europa. Vamos assistir no futuro a uma maior nacionalização de produtos essenciais", considera João Cerejeira. A oportunidade já estava lá. "No último ano, a guerra comercial entre EUA e China não foi bem aproveitada por Portugal. Estão em jogo 1,2 triliões de dólares. Quase metade deste valor foi capturado, isto é, os fornecedores dos EUA já foram substituídos por não chineses", revela Nuno Fernandes. "Há algo que pode jogar a favor das empresas portuguesas: a redução das cadeias de valor globais, que estavam muito centradas, na parte inicial da produção, na China e noutros países asiáticos. Enquanto a economia chinesa é complementar à alemã, a nossa é mais substitutiva [da China]. Poderemos beneficiar algo aí", refere João Cerejeira.

Ganhos e perdas com a tecnologia

A digitalização a que assistimos nos últimos meses veio para ficar? E só traz vantagens? . "Há uma aceleração da digitalização e da automação. O consumidor descobriu que pode fazer mais compras online. Ao nível das empresas, houve uma reorganização por via da automação devido a um imperativo de saúde pública. Tivemos casos de infeções num armazém de logística na Azambuja. Nos EUA, no entanto, há várias empresas a automatizar estes processos logísticos", diz João Cerejeira. Mas não haverá apenas ganhos com este salto tecnológico. O desemprego estrutural, que corresponde a um desajuste técnico entre a procura e a oferta de trabalhadores, pode aumentar. "A taxa de desemprego estava nos 6,7% antes da pandemia e já assistíamos a um crescimento dos salários e a um aumento da emigração. Esses 6,7% já não davam resposta à procura de mão de obra pelas empresas e havia aí muita gente com falta de competências tecnológicas. A indústria do turismo vai gerar muito desemprego menos qualificado que dificilmente terá lugar na nova economia", reconhece João Cerejeira.

Relações laborais à distância

"Estamos a acelerar tendências, por via da tecnologia e das novas gerações. O teletrabalho era um tabu. Os velhos do Restelo foram ultrapassados pelo vírus. Não vamos querer estar sempre em casa, mas a flexibilização dos horários e uma melhor divisão entre família e trabalho é algo que veio para ficar. Antes havia relutância, mas agora todos experimentámos. O contacto presencial será sempre necessário em algumas situações. O turismo de negócios é que vai diminuir. Muitos gestores já me disseram que vão viajar menos", nota Nuno Fernandes. "Mais de metade da população não poderá fazer teletrabalho, pela sua função. Nos serviços não será possível, acrescenta. "Em toda a relação laboral entre empregadores e empregados, um dos aspetos principais era a greve. Como é que se faz greve ou um plenário em teletrabalho? Já tínhamos o surgimento de sindicatos inorgânicos, motivados e suportados pelas redes sociais, como aconteceu nos motoristas e enfermeiros, mas essa tendência vai acentuar-se", faz notar João Cerejeira. Veremos novas formas de representação coletiva, quer dos empregadores quer dos trabalhadores. Houve muitos trabalhadores que ficaram sem rendimentos com esta pandemia, micro empresários e muitos independentes. Já não eram representados à mesa da Concertação Social", acrescenta.

"Numerus clausus" perdem sentido

Diz-se "blended learning". Refere-se a um ensino misto, grande parte feito à distância mas com uma parte presencial obrigatória. Milhares de alunos, do Básico ao Superior estão, neste momento, mais confinados ao estudo por via digital. No entanto, a vida irá prosseguir nos próximos anos letivos. Mas voltará a ser o que era? "Nós assistimos a uma aceleração em dois ou três meses de uma coisa que em tempos normais demoraria 20 ou 30 anos a acontecer. Em termos universitários, a ideia de termos um professor a falar para um auditório com 200 alunos e a debitar aulas teóricas é algo que vem da era medieval. O detentor do conhecimento nem sequer permitia o diálogo e, agora, muitos alunos percebem melhor as matérias quando vão ao Youtube", sublinha Nuno Fernandes. "Nós ainda temos uma visão muito industrial no acesso ao Superior. Com o ensino à distância, o conceito de "numerus clausus" pode mudar. A limitação física do espaço deixa de ser importante e o mesmo professor pode chegar a muito mais alunos. Um custo muito relevante para as famílias está no arrendamento de um quarto quando o aluno é deslocado", refere João Cerejeira. "Vamos evoluir para "blended learning", isto é, misturar o ensino tecnológico com as presenças físicas em sala. Só ensino online não será suficiente", alerta Nuno Fernandes.

União Europeia testada de novo

No dia 11 de março deste ano, a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de pandemia relativamente à covid-19. No dia 28 de maio, a União Europeia (UE) parece ter chegado a acordo sobre os instrumentos que darão ao executivo comunitário um poder de fogo de 2,4 biliões de euros contra a crise. Estes montante subdivide-se em várias parcelas, mas certo é que haverá 500 mil milhões em subvenções que os países do Norte não apreciam. "Há ainda uma grande desunião. A UE chumbou na resposta à crise de 2008. Até agora, só o Banco Central Europeu (BCE) fez algo de positivo. Em 2008, o BCE demorou quatro anos a reagir. Era uma oportunidade para a UE se reafirmar e não para retroceder. Mas este é o último teste", diz Nuno Fernandes. "A instituição que dá melhor resposta é o BCE. Repartindo os 750 mil milhões de compra massiva de dívida pública, estima-se que isso corresponda mais ou menos ao défice que cada país terá de suportar este ano. É a única instituição independente e que não é eleita", recorda João Cerejeira. "Não há um acordo sobre a mutualização da dívida [coronabonds]. Vimos um fechar de fronteiras sem qualquer coordenação entre Estados, pondo em causa cadeias de abastecimento dentro do Espaço Schengen", acrescenta o professor da Universidade do Minho.

Alguém tem de pagar

A solução é o dinheiro a fundo perdido? Perante uma crise inédita, a solução tem de ser original? "Dinheiro a fundo perdido não existe. Alguém vai pagar. É possível imprimir dinheiro para comprar dívida dos países. Se Portugal chegar ao fim do ano com uma dívida de 140% do PIB, será necessário pagá-la algum dia pelos contribuintes. Ao emitir dívida perpétua ou a 30 ou 40 anos, estamos a dar dinheiro a pessoas que estão no ativo e deixar a conta para as novas gerações", sublinha Nuno Fernandes. "Se já temos uma carga fiscal elevadíssima em Portugal, a pergunta é se os nossos filhos e netos vão querer residir e pagar impostos em Portugal", questiona. Imprimir notas e mandar para as famílias é algo que já feito nos EUA e em Hong Kong. "Quando atiramos em todas as direções, estamos a desperdiçar recursos e a criar novas desigualdades", alerta o professor da IESE.