Turismo

Portugueses não chegam para sustentar o turismo

Portugueses não chegam para sustentar o turismo

Dependência nacional dos mercados externos na origem de maior impacto de fatores como o coronavírus. Somos dos mais vulneráveis da Europa.

Portugal está entre os países da União Europeia onde os residentes menos pesam na atividade turística: em 2019, entre quase 27 milhões de hóspedes na hotelaria, apenas 10,6 milhões eram portugueses. O país mais visitado do Mundo, a França, com perto de 90 milhões de estrangeiros todos os anos, consegue ter o dobro de residentes.

A dependência do turismo português de mercados externos deixa-o mais vulnerável a epidemias como o coronavírus - 80% dos hotéis algarvios têm cancelamentos de reservas para a Páscoa - e a outras conjunturas internacionais, o que diminui a competitividade quando é hora de negociar com os grandes operadores turísticos.

Quem está no terreno sugere o reforço das campanhas cá dentro e, até, incentivos fiscais. "As pessoas estão com medo dos aviões e dos aeroportos. Para o Algarve, onde 70% das dormidas provêm de mercados externos, já se imagina o impacto", antecipa Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve.

Além dos cancelamentos para a Páscoa, em 80% dos hotéis da região, as vendas para o verão estão 30% abaixo do que estavam há um ano. Só os residentes podem segurar as perdas. "O Governo podia e devia criar incentivos fiscais para os nacionais que fizessem férias cá dentro, através de deduções à coleta no IRS, bem como a dedução do IVA dos eventos."

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"Em 2009, foi o turismo interno que ajudou a segurar o setor quando a crise internacional parou tudo", recordou Jorge Costa, presidente do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo. Passada a crise de 2011, o mercado interno começou a acelerar em 2015 e, no ano passado, bateu recordes em viagens também para fora. "Os portugueses estão famintos de viajar para o estrangeiro, até porque, bem planeado, ainda sai mais barato do que fazer férias em Portugal. Também estão a viajar cá dentro, mas, não havendo ação para concorrer com os mercados externos, as viagens para fora vão continuar a aumentar", vaticinou.

Dobro de estrangeiros

Em Portugal, o rácio de dormidas de estrangeiros e de residentes é de dois para um, mas chega a 4:1 em Lisboa, 3:1 no Algarve e 7:1 na Madeira. No Centro e nos Açores há equilíbrio. Só no Alentejo há mais turistas nacionais do que estrangeiros.

"A minha filosofia sempre foi que "temos de marcar golo e não sofrer nenhum", ou seja, ganhar mercado externo sem deixar de ter como cliente, primeiro, o mercado interno", explicou Ceia da Silva, presidente do Turismo do Alentejo, a região que mais aumentou aos proveitos no ano passado "porque o turista nacional também gasta e interessa ao turismo". Para estimular o aumento da procura interna, Ceia da Silva diz que "não era preciso nada de especial", mas medidas tão simples como "o desencontro regional das férias escolares já podia ajudar muito, porque permitia que as pessoas fizessem escapadinhas em períodos desencontrados".

A secretária de Estado do Turismo considera que "é desejável mantermos um bom equilíbrio de mercados". Rita Marques recorda que "em termos estratégicos, é determinante a redução da dependência excessiva de um qualquer mercado e é este sentido que tem sido prosseguido, com crescimentos significativos em mercados como os EUA (+ 25% em 2018), Brasil (+15%) e China (+13,5%). Este ano, o coronavírus afetará inevitavelmente aqueles valores.

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