Poluição

Prefere garrafas de plástico? Coca-Cola diz que sim, ambientalistas dizem que não

Prefere garrafas de plástico? Coca-Cola diz que sim, ambientalistas dizem que não

A Coca-Cola garante que os consumidores ainda preferem as garrafas de plástico, por serem mais leves e pela facilidade em voltar a selar. Não é bem assim, responde a associação ZERO, uma vez que as "alternativas reutilizáveis não são uma realidade". Marca é acusada de ser a mais poluente do Mundo, mas diz que o problema está na ação dos consumidores. Ambientalistas culpam as decisões das grandes empresas.

A empresa norte-americana não vai deixar de usar plástico porque os consumidores ainda querem usar esse tipo de garrafas, garantiu na terça-feira, à BBC, a diretora de Sustentabilidade da marca, Bea Perez, à margem do Fórum Económico Mundial, que decorre até sexta-feira em Davos, na Suíça.

Perez disse que a empresa não poderia abandonar o plástico completamente, como alguns ativistas queriam, porque isso poderia alienar os consumidores e afetar as vendas. Além disso, os clientes preferem o plástico por ser mais leve e pela facilidade em voltar a selar, explicou, acrescentando que caso utilizassem apenas alumínio ou vidro poderiam aumentar a pegada de carbono da empresa.

"O negócio não vai ser negócio se não tivermos em conta os consumidores. À medida que mudamos a nossa infraestrutura de engarrafamento, reciclamos e inovamos, também temos de mostrar ao consumidor as oportunidades que existem e eles vão mudar connosco", argumentou Perez.

A Coca-Cola é considerada uma das grandes responsáveis pela produção de resíduos plásticos, produzindo cerca de três milhões de toneladas de embalagens de plástico por ano, o equivalente a 200 mil garrafas por minuto. Em 2019, o movimento global "Break Free From Plastic Europe" acusou a marca de ser a mais poluente do Mundo.

O balanço, mais simbólico do que científico, contou com 72.541 voluntários em 51 países, divididos por 484 ações de recolha de plástico. Recolheram um total de 476.423 pedaços e, sempre que possível, identificaram a marca a que cada um deles correspondia. A Coca-Cola destacou-se com 11.732 peças.

A BBC assinala que a empresa se comprometeu a enviar para reciclagem todas as garrafas de plástico que usa até 2030, apesar de grupos ambientalistas alegarem que várias garrafas da marca vão parar a aterros.

ZERO diz que "solução para a crise não pode ser deixada ao mercado"

Em reação à posição tomada pela Coca-Cola, a associação ambientalista ZERO afirmou que este "é mais um exemplo de que a solução para a crise [ambiental] não pode ser deixada ao mercado". "Não sabemos em que dados se baseia a diretora de Sustentabilidade da Coca-Cola para dizer que as pessoas 'preferem' as embalagens de plástico. Seria interessante perguntar-lhe que outras alternativas dão aos consumidores", disse ao JN Susana Fonseca, membro da direção da ZERO.

"Certamente não a reutilização de embalagens (por exemplo em vidro), área onde a Coca-Cola é conhecida por trabalhar ativamente para que não se torne uma realidade. Se as pessoas gostam de uma bebida e só a podem comprar num tipo de embalagem (existem as latas, mas apenas para uma capacidade específica), será legítimo dizer que são os consumidores que preferem essa embalagem?", questionou.

Uma vez que as "alternativas reutilizáveis não são uma realidade", não é possível afirmar qual é a preferência do consumidor, argumentou Susana Fonseca. A solução, diz a associação, passa pela ação dos governos, sendo necessário implementar "legislação que ajude a sociedade a fazer a transição do descartável para o reutilizável na área das embalagens de bebidas".

Coca-Cola afirma que "todas as embalagens têm um potencial impacto ambiental"

Ao JN, fonte da Coca-Cola Portugal salientou que o "desperdício de embalagens é um problema relevante e cada vez maior" e que a marca reconhece "a responsabilidade de ajudar a resolvê-lo". A empresa considera que "vários formatos de embalagem têm um papel a desempenhar na distribuição das bebidas", desde o vidro, plástico e alumínio às garrafas reutilizáveis e soluções 'package-less'. "Todas as embalagens têm um potencial impacto ambiental, por isso não é tão simples dizer que um formato é melhor que outro", explicou a mesma fonte.

Para a Coca-Cola, "existem vantagens nas garrafas de plástico". "É leve, reutilizável e tem uma menor pegada de carbono do que muitos formatos de embalagem quando uma economia circular é gerada, que é o nosso objetivo. Também pode ser facilmente reciclada numa nova garrafa, por isso acreditamos que ela tem um papel a desempenhar".

Onde está, então, o problema? A empresa aponta o dedo aos consumidores. "O desafio está, como em todas as embalagens, quando não são colocadas no lixo corretamente. É por isso que estamos focados em garantir que as embalagens sejam recuperadas e recicladas para que possam ser transformadas em novas embalagens".

Afinal, a culpa é dos consumidores ou das empresas? Ou dos dois? Quais são as alternativas ao plástico no mercado? Que exemplos são dados pelas grandes empresas? E que conselhos são dados aos consumidores? Ainda preferimos o plástico? Para obter resposta a estas questões, o JN falou com a associação ZERO, que diz que os "malefícios das embalagens descartáveis são bem reconhecidos pela população" e que as empresas devem assumir "responsabilidades".

"O que a ZERO advoga é que seja reconhecido o direito ao cidadão de optar por embalagens de bebidas reutilizáveis. Neste momento, qualquer pessoa que queira comprar refrigerantes, sumos, cervejas, vinhos ou águas em embalagem reutilizável (garantindo que a embalagem é usada dezenas de vezes antes de se tornar um resíduo, ao contrário das descartáveis que têm apenas uma utilização) não tem hipótese, pois essa oferta não está disponível nos supermercados. Os cidadãos devem ter o direito de optar por embalagens reutilizáveis e para que tal possa acontecer tem que haver legislação que garanta que em cada loja onde são vendidas bebidas em tara perdida haja o mesmo tipo de oferta em tara retornável", explicou Susana Fonseca.

"A entrada em vigor em Portugal de um sistema de depósito de bebidas em janeiro de 2022, que implicará que todas as embalagens descartáveis de água, refrigerantes e cervejas em plástico, vidro e metal tenham que pagar uma tara, que só é devolvida ao cliente quando este entrega a embalagem vazia de volta, tornará muito mais fácil a utilização de embalagens reutilizáveis. Em suma, quer eu compre uma bebida numa embalagem descartável ou opte antes por uma embalagem reutilizável, o circuito que terei que fazer será o mesmo. Se nos for reconhecido o direito de optar pela embalagem reutilizável estaremos a dar um enorme contributo para que as empresas de bebidas disponibilizem soluções mais ecológicas. Como podemos depreender das declarações da Coca-Cola, não o será por iniciativa das empresas, mas sim por enquadramento legal, visto que para as empresas a manutenção do estado atual das coisas é muito mais confortável, principalmente se conseguirem colocar a culpa nos cidadãos, como na maioria das vezes fazem, ao invés de assumirem as suas responsabilidades".

"Perante os argumentos usados por marcas como esta para continuar a usar plástico, nada melhor do que os consumidores darem a conhecer às marcas que querem, de facto, alternativas que hoje não existem no mercado e que demonstrem a sua indignação com esta estratégia das grandes empresas de culparem os consumidores por decisões que resultam diretamente de decisões daquelas e não dos cidadãos. Já é tempo das empresas assumirem o seu papel e alterarem o que tiverem que alterar nos modelos de negócio para providenciar soluções mais sustentáveis aos clientes e assumirem a responsabilidade enquanto grandes poluidores e instigadores de indústrias, também elas, muito poluidoras".

"Não é possível aferir a veracidade dessas alegações, visto que as alternativas reutilizáveis não são uma realidade. Quando estivermos em igualdade de circunstâncias entre descartável e reutilizável, com a entrada em funcionamento do Sistema de Depósito de Embalagens, e com os incentivos certos no mercado, aí sim poderemos aferir as preferências. No momento atual, os malefícios das embalagens descartáveis são bem reconhecidos pela população e são exigidas mudanças. As pessoas querem ver soluções implementadas pelas grandes marcas que lhes permitam ser mais sustentáveis. É obrigação das marcas e dos nossos representantes políticos responderem a este sentimento criando as condições necessárias para esta transição".

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