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Semana de quatro dias de trabalho é possível mas não gera consenso

Semana de quatro dias de trabalho é possível mas não gera consenso

Governo admite fazer experiências em diferentes setores, mas não as detalha. Parceiros sociais abertos a discutir. BE, PAN e Livre querem reduzir horas semanais.

Encontrar uma empresa com a semana de quatro dias de trabalho em Portugal é como descobrir uma agulha no palheiro. Reino Unido, Islândia e Espanha estão a testar. No debate do Orçamento do Estado de 2022, foi aprovada uma proposta do Livre que prevê um estudo e amplo debate sobre o tema. No seu programa, o Governo admite fazer experiências em diferentes setores, mas não as detalha. Empresas, partidos e parceiros sociais admitem o modelo, mas reconhecem serem necessárias adaptações de fundo.

Em agosto do ano passado, a empresa Doutor Finanças testou o modelo que consistia na redução de 40 horas para as 32 horas semanais. "Todas as pessoas gozaram de mais um dia de descanso semanal, sem haver qualquer impacto ao nível dos seus rendimentos", explica Irene Vieira Rua, diretora de Recursos Humanos da consultora.

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Cada equipa teve de se organizar para conceder mais um dia de folga, garantindo a "continuidade do trabalho" e a ajuda aos clientes. "Dependendo de cada situação, pensar numa semana de quatro dias de forma estática talvez não seja viável", diz Irene Vieira Rua. Mas a experiência teve benefícios: "aumento da motivação e do entusiasmo dos trabalhadores".

Em maio, a empresa voltou a testar as 32 horas semanais, com os trabalhadores a poderem escolher entre tirar a manhã de segunda ou a tarde de sexta-feira.

"Os ganhos de produtividade vêm de várias formas em diferentes setores. Os trabalhadores, ao estarem mais descansados, são mais inovadores e melhores a resolver problemas", refere Pedro Gomes, autor do livro "Sexta-feira é o novo sábado". O economista defende que a produtividade aumenta com a semana de quatro dias, reduzindo o absentismo, os erros na produção ou aumentando a "economia ao fim de semana", por haver mais tempo de lazer.

Entre 1 de janeiro de 2009 e 31 de dezembro de 2013, o modelo esteve em vigor para alguns funcionários da Câmara de Mafra. Porém, "os pressupostos que estiveram na base da sua implementação não se aplicam à realidade atual", diz fonte do município. No restaurante FOGO, do chef Alexandre Silva, em Lisboa, há três folgas semanais. Para "garantir que as equipas têm uma vida pessoal com maior qualidade e para as manter mais motivadas durante os dias laborais", explicam ao JN. Não adiantaram mais pormenores sobre o modelo.

Pedro Gomes diz que a semana de quatro dias de trabalho pode ser bem-sucedida em Portugal, se for "discutida em Concertação Social", já que "as empresas têm dificuldade em fazê-lo sozinhas". É preciso um "desígnio nacional", aponta.

"Mudança estrutural"

Para Isabel Camarinha, secretária-geral da CGTP, a ideia é viável com a "redução horária do trabalho e sem perda de retribuição". O economista revela que há empresas a praticar o modelo de várias formas, com o ajustamento do salário ou das horas de trabalho.

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal, admite que o tema seja discutido, mas não já. "As empresas estão a lutar pela sua sobrevivência", diz, lembrando os efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia. "Terá de haver uma mudança estrutural na sociedade", opina.

Pelo lado dos partidos, José Soeiro, deputado do BE, diz que há "indefinição no programa do Governo". Para o bloquista, o debate deve ser acompanhado da redução do horário de trabalho, nomeadamente as 35 horas no setor privado. O Ministério do Trabalho não respondeu às perguntas do JN, em tempo útil, sobre a aplicação do modelo durante a legislatura.

O Livre defende a "redução gradual e até 2030 do horário laboral para as 30 horas semanais, podendo estas ser agrupadas em quatro dias". O PAN pretende "a reposição dos 25 dias de férias e o horário de trabalho de 35 horas". Já a Iniciativa Liberal opõe-se a "qualquer experimentalismo por decreto, imposto de cima para baixo". O PCP diz que no "momento apropriado" se pronunciará. PS, PSD e Chega não responderam aos pedidos do JN sobre o tema.

"Salário emocional"

É um conceito usado para caracterizar os benefícios usados pelas empresas para captar talento e aumentar a satisfação e o bem-estar no trabalho, como horário flexível, incentivos à formação ou seguros de saúde.

"Grande demissão"

Foi um fenómeno verificado na América, durante a pandemia, que se define por demissões voluntárias em massa por parte dos trabalhadores. A falta de equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho é uma das razões.

"Licença sabática"

É um período de interrupção da atividade para o trabalhador cumprir um objetivo pessoal ou ter formação, sem perder o vínculo laboral.

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