Pandemia

Um ano em casa: testemunhos de quem se rendeu (ou não) ao teletrabalho

Um ano em casa: testemunhos de quem se rendeu (ou não) ao teletrabalho

O trabalho entrou há um ano em casa de centenas de milhares de pessoas no país. Trouxe despesas e necessidades que até então não existiam no lar. Prolongou muitos horários. E ainda não foi embora. Há quem prefira assim e há quem esteja exausto.

Isabel, nome fictício, teve de lutar para ir para casa em março de 2020. E isso só foi possível devido à paralisação dos trabalhadores do call center onde trabalha, renitente em ter empregados longe da vista. "Foi-nos dito que os nossos trabalhos não eram passíveis de ser feitos à distância. Mas, assim que nos começámos a mexer, as condições surgiram", recorda. Um ano depois, mantém-se em casa, que "passou a ser tudo". Preocupa-se com a saúde mental, com a falta de compensação para os gastos que cresceram e com a pressão que sente. "Há, desde que passámos a teletrabalho, uma pressão muito grande nas métricas do atendimento, do tempo entre a chamada entrar e atendermos. No nosso caso, é menos de dez segundos, um toque e meio". Há colegas em situação pior: para esses, estar online, no trabalho, é ter auriculares colocados, que impedem que se afastem do computador. Por exemplo, para ajudar um filho. Não acontece com Isabel, até ver: "Cada vez que saímos da métrica, dizem-nos, "cuidado que podemos pôr aqueles auriculares com que vocês não se podem mexer"".

Maria João é secretária executiva numa grande empresa de serviços. Entrou em teletrabalho em março e assim ficou, com idas semanais à empresa quando é preciso. Em casa, são cinco, com o marido e três filhos: 12, 17 e 25 anos. Tem sido difícil ter computadores suficientes. "A minha filha do meio passou o dia em casa dos avós a trabalhar no computador porque, dos dois portáteis que tínhamos, um avariou e o outro também não quer colaborar", contava na última semana. Já Maria João tem o equipamento da empresa. Mas não tem compensação para o aumento de custos do último ano. "As contas da luz nunca foram menos que três dígitos. A fatura das comunicações passou também aos três dígitos. Andamos nos 120, 130 euros por mês. Na água, no gás, houve também consumo maior. Consumimos muito mais a todos os níveis, incluindo comida". Lá em casa, as despesas subiram 30%, diz.

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Em fevereiro, C.J. Rhodes mudou de hemisfério, continente e país, mas continuou em teletrabalho. Agora, em Portugal, destino de vida escolhido com a companheira após uma viagem a Lisboa. À chegada, só teve tempo de encontrar uma casa para o confinamento de abril. Foi o mais difícil: " Estar à porta de novas aventuras e ter de esperar para ver o que acontece". Se a vida pessoal travou, o trabalho prosseguiu. O designer tem os clientes na Austrália, país de onde é natural. "A única diferença é o fuso horário. Sinto-me com bastante sorte. A Austrália teve também sorte, as empresas para as quais trabalho não tiveram pausas". O embate de um nómada digital com os serviços públicos portugueses não é sempre fácil: "Há um real abismo entre os serviços online e a ajuda que podemos obter indo presencialmente aos sítios. São universos que não dialogam".

A pandemia chegou e António, outro nome fictício, entrou de férias por recomendação da empresa. Não tinha, inicialmente, computador para trabalhar em casa. "Estive em casa desde 18 de março. Só disponibilizaram o computador em abril", conta. A prestar assistência técnica a clientes numa operadora de telecomunicações, queixa-se do reduzido número de funcionários para a tarefa, com consequências. "No máximo, havia 21 pessoas. No mínimo, cinco ou seis, nove. Era muito pouco e as chamadas são constantes. Não temos intervalo. Tive de reduzir o meu horário porque estava estafado. Fazia oito horas e tive de passar para cinco". Agora, entra às 13 e sai às 18 horas. É acompanhado por um médico. Mas nem sempre é fácil. "Em fevereiro, tive duas semanas de baixa. Voltei ao trabalho, mas houve um dia em que não consegui sequer ter vitalidade para me ligar".

Gonçalo chegou a Portugal em dezembro e ainda não conseguiu voltar a casa, em Berlim, onde é criativo numa agência de publicidade. Primeiro, o confinamento lá. Agora, o confinamento cá. Espera ter voo no final do mês, enquanto continua a trabalhar, em casa da mãe. "Vinha passar o Natal e voltei uns anos atrás". Em Berlim, já estava em teletrabalho. "De início, foi péssimo. Acordava, trabalhava imenso e só parava à hora de jantar. Estava a sentir-me estoirado". Agora, prefere "mil vezes trabalhar assim". "Ainda existe muito a cultura de que para se ser produtivo tem de se estar lá. Não faz sentido". Mesmo nas profissões criativas. "Trabalho com uma dupla, cada um na sua casa. Discutimos, tratamos das coisas e fazemos. Vem desmistificar a ideia de que a criatividade tem de ser numa sala, todos juntos a discutir. Não, não tem", diz.

A interpretação do Governo sobre o teletrabalho é a de que cabe às empresas suportar gastos com comunicações. Mas, debalde. "Tem havido várias pessoas a fazer o pedido, com a carta toda certinha que o sindicato disponibiliza. A empresa diz que não precisa de comparticipar porque já paga subsídio de alimentação. Recusam-se a dar qualquer extra", conta Ana. Está em teletrabalho desde março. "Sinto-me protegida porque não sou obrigada a expor-me todos os dias nos transportes públicos. Mas, do ponto de vista pessoal, sou divorciada, vivo sozinha, e é solitário".

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