Portugal Mobi Summit

Veículos elétricos são parte da solução, mas é preciso mudar a mente das pessoas

Veículos elétricos são parte da solução, mas é preciso mudar a mente das pessoas

O primeiro debate do segundo dia da quarta edição do Portugal Mobi Summit tinha com objetivo responder à seguinte questão: as políticas da União Europeia estão a mudar a paisagem dos consumidores e da indústria? A moderação do debate esteve a cargo de Miguel Eiras Antunes, líder global de Smart Cities e Transformação Urbana da Deloitte, que, lembrou que precisamos de atuar contra as alterações climáticas e que, por isso, a União Europeia estabeleceu metas ambiciosas para 2030 e 2050 em termos ambientais. Uma delas é reduzir em 90% o valor das emissões até 2050.

Um dos participantes deste debate foi Matthew Baldwin, vice-diretor-geral da DG Move da Comissão Europeia, e foi questionado sobre como é que avalia os sucessos das medidas tomadas por Bruxelas e como estas estão a mudar a mobilidade na Europa. "Se temos uma pessoa com um grande SUV a gasóleo que conduz de manhã por Lisboa sozinho no seu carro, essa pessoa não é uma má pessoa. É uma pessoa que respondeu aos incentivos que lhe foram dados", começou por exemplificar.

"Se as pessoas forem incentivadas a conduzir menos, as pessoas vão conduzir menos", prosseguiu este responsável europeu. "Não é uma questão de banir as coisas, é uma questão de mostrar os custos e os benefícios. Os benefícios em termos de saúde, por exemplo", sublinhou Baldwin, chamando a atenção para o facto de "estarmos numa crise existencial em termos de alterações climáticas".

Para Matthew Baldwin, os veículos elétricos são parte da solução, mas questiona-se se será suficiente pôr toda a gente a deslocar-se em veículos elétricos. E a resposta é não. "Temos de investir na produção de baterias, temos de garantir que as baterias são sustentáveis, não nos podemos esquecer também do hidrogénio e temos de garantir que as infraestruturas respondem às necessidades", justificou, reforçando ainda que "os veículos elétricos são parte da solução, pois podemos ter só veículos elétricos nas estradas, mas se as estradas continuarem cheias de carros, vamos continuar a ter um problema".

"É um problema complexo, podemos regulamentar, mas temos de mudar as mentes das pessoas", concluiu.

A questão dos transportes públicos foi abordada por Robin Loos, sustainable transport officer da BEUC - Organização Europeia de Consumidores, que começou por concordar com Matthew Baldwin, dizendo que "mudar a mentalidade das pessoas é a solução". "Os consumidores querem mudar e respondem à oferta da mobilidade que lhes é apresentada. Os consumidores querem transportes públicos confiáveis, querem que as viagens sejam rápidas, querem títulos de transporte que sirvam para vários meios e, por último, querem conforto".

"Temos de tornar os transportes públicos convenientes para os consumidores", reforçou Loos, dizendo que "a regulação é a chave para conseguir isto tudo", dando, por exemplo, mais direitos aos consumidores. "Se dermos ao consumidor o que ele quer, ele vai usá-lo", disse ainda este responsável da BEUC.

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Na opinião de Miguel Fonseca, CEO da Kinto Mobility e SVP Connected Technologies da Toyota Motor Europe, um dos problemas é o facto de "a tecnologia ainda não estar adaptada para responder às necessidades".

E como será a coexistência entre veículos a combustão e veículos elétricos? Para Nuno Castel-Branco, CEO do Standvirtual/OLX, atualmente em Portugal em tudo o que são meios de comunicação- internet, televisão, etc. - só se fala em veículos elétricos. "Mas na realidade apenas 2% do parque automóvel em Portugal é de veículos elétricos, os restantes 98% são de combustão".

"Vai ser uma mudança lenta em Portugal. Até porque vai demorar uns quatro anos até os veículos elétricos chegaram ao mercado dos usados, pois a maioria dos veículos elétricos em Portugal são comprados por empresas", referiu Nuno Castel-Branco.

Os efeitos da pandemia na mobilidade

A pandemia e os seus efeitos na mobilidade também foi discutida neste debate, com a primeira questão a ser dirigida a Matthew Baldwin, da Comissão Europeia, e sobre se a covid-19 mudou os planos das autoridades. "Ainda é muito cedo para dizer. Não sabemos quais serão os efeitos a longo prazo da covid-19 em termos de trabalho e mobilidade", começou por dizer este responsável da DG Move.

"Mas estamos mais conscientes dos espaços nas nossas cidades, estamos a tirar estacionamento das cidades para as pessoas poderem andar", exemplificou Baldwin. "Ao mesmo tempo, estamos a ver os carros a voltarem em força às estradas, o que é mau para a saúde, é mau para o clima, é mau para os transportes públicos".

Com a pandemia veio o teletrabalho e a questão é se esta nova forma de trabalhar vai ter impacto na forma como nos movemos. "No verão de 2020, quando achávamos que iriamos voltar à normalidade, fizemos uma sondagem em vários estados-membros e perguntámos quais eram os seus hábitos de mobilidade", revelou Robin Loos. "E a resposta foi que as pessoas iriam usar mais o carro, mais a bicicleta e menos os transportes públicos".

Este responsável da Organização Europeia dos Consumidores referiu que existem cidades que estão a dar mais espaço às bicicletas, o que, na sua opinião, "pode ser uma boa notícia para o futuro". "Mas o transporte público terá que se reinventar. Tem de ser atrativo, tem de haver investimento nos transportes públicos e não pode demorar".

Loos sublinhou que é imperativo promover-se alternativas ao uso do automóvel, chamando a atenção para o facto de que "a compra de carros usados tem subido nos últimos anos. E as pessoas têm de conseguir encontrar veículos elétricos no mercado dos usados".

Miguel Fonseca partilha em parte destas ideias, dizendo que a covid "está a levar a um aumento da procura de automóveis usados". "As pessoas estão a fugir dos transportes públicos, mas achamos que será uma coisa passageira. O que acho que não é passageiro é a questão do teletrabalho". Um facto que, na opinião do CEO da Kinto, levará a mudanças de mobilidade e onde as pessoas irão morar, pois acredita que as pessoas irão sair do centro da cidade, o que irá aliviar o trânsito nestas áreas.

Voltando à questão do mercado dos usados de veículos de combustão e de veículos elétricos, Nuno Castel-Branco, do Standvirtual, acredita que "o desafio é muito maior em Portugal do que no resto da Europa". Motivo: a grande carga fiscal que envolve comprar um automóvel no nosso país. O que leva a que, por exemplo. não exportemos tantos carros, ao contrário do que acontece na Alemanha, país onde muitos europeus vão comprar automóveis. "Vai demorar muito mais em Portugal a renovarmos o nosso parque automóvel", prosseguiu Castel-Branco, recordando o que já tinha dito sobre o facto de os veículos elétricos em Portugal serem maioritariamente comprados por empresas, o que levará cerca de quatro anos a que estes automóveis cheguem ao mercado de usados.

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