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Falar sobre o oceano, para que ele nunca nos falte

Falar sobre o oceano, para que ele nunca nos falte

A segunda edição das Ocean Talks decorreu ontem no Museu do Mar em Cascais, alertando para o grande problema que aflige os nossos oceanos: o nosso próprio desconhecimento.

Como é que se explica um oceano? Como mobilizamos um povo que diz amar o mar, mas que não conhece além do que se passa na zona da rebentação das ondas numa praia? A resposta pode passar por um exercício muito simples: fechar os olhos, e imaginar a nossa vida sem oceanos. Este exercício de reflexão pode ser assustador, mas é cada vez mais necessário e é com base nessa necessidade que a Fundação Galp, em parceria com a Câmara Municipal de Cascais, o CEIIA e a plataforma das Nações Unidas para o desenvolvimento económico sustentável nos oceanos, organizou mais uma edição das Ocean Talks. Com o Museu do Mar em Cascais a servir de "embarcação" natural para navegar nesta temática, de discussão cada vez mais urgente, foram chamados a refletir especialistas da área das ciências, de órgãos autárquicos, do meio empresarial e da sociedade civil.

Joana Garoupa deu início a esta sessão alertando para o quanto ainda está por descobrir sobre o meio oceânico, com o qual temos uma ligação profunda, não só emocionalmente, mas comercialmente e, acima de tudo, biologicamente.

"O motivo para promovermos este evento"- sublinhou a representante da Fundação Galp - "é tentar perceber o máximo sobre o legado dos oceanos, que compõem 70% da superfície do planeta, mas dos quais desconhecemos cerca de 90%."

Esta necessidade de conhecimento foi reforçada por Joana Balsemão, vereadora do ambiente na Câmara Municipal de Cascais, que salientou que a exploração de recursos e potencial económico associado aos oceanos deve estar sempre associada a um equilíbrio ambiental, devendo a gestão dos mares e das zonas costeiras ser encarada de forma holística. Ou seja, devem ser sempre pesados os interesses das populações, os interesses comerciais e os interesses ambientais. Mas em caso de conflito de interesses, deve sempre pesar mais a proteção dos ecossistemas marinhos.

O papel das ciências
Quando se fala de alterações climáticas a voz dos cientistas muitas vezes fica por ouvir por entre as informações contraditórias e o discurso político. Nesta Ocean Talk fez-se ouvir, mas acima de tudo foi complementada por uma visão mais filosófica. Do lado científico, Nuno Lourenço do CEIIA e Rui Rosa da Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa falaram sobre os dados - frequentemente preocupantes - que resultam das suas respetivas investigações. Nuno Lourenço alerta para as questões práticas associadas ao estudo dos oceanos: "É fundamental que as pessoas possam estar no mar sem estarem, para que se resolva a questão da literacia dos oceanos", refere. Este processo passa por criar soluções com base em sistemas de Inteligência Artificial, que virtualizem o acesso aos mares e oceanos, permitindo à sociedade civil ou aos decisores políticos agirem com base nos dados que são produzidos pela comunidade científica.

E quando se fala de comunidade científica, Rui Rosa advoga que os estudos que estão a ser produzidos não estão necessariamente a ser divulgados com a prioridade certa. Nomeadamente no que diz respeito à hipoxia. Este professor e investigador que já estuda as alterações climáticas há mais de 15 anos, alerta para a queda dos níveis de oxigenação dos oceanos, um fenómeno que se está a expandir vertical e horizontalmente. Quando a maioria dos estudos científicos se foca nos fenómenos de bleaching e da acidificação dos oceanos - célebres pelas imagens de vastas regiões da Grande Barreira de Coral que estão mortas - Rui Rosa alerta para a falta de oxigénio nos oceanos, o que está a obrigar a fauna marinha a alterar profundamente os seus hábitos para sobreviver, o que terá efeitos negativos para a humanidade, a médio ou até mesmo curto prazo.

As emoções como ferramenta de mudança
Esta Ocean Talk ficou desde logo marcada pela diferença, ao receber também como oradora uma especialista que não faz parte da comunidade científica. Patrícia Furtado de Mendonça, trouxe para este debate um olhar sensível para a questão ambiental, relembrando quase de forma poética que os humanos são, em si mesmos, pequenos oceanos. A forma como os órgãos humanos mimetizam os organismos oceânicos, nomeadamente os rins com a sua ação filtrante tal como o plâncton, ou as sinapses cerebrais que fazem lembrar as redes complexas das medusas, fazem lembrar o passado biológico dos humanos, num período em a sua vida era em plena água e que ainda hoje é testemunhada na gravidez humana, em que os fetos humanos vivem num "oceano" umbilical. Mas a CEO da Acqua Mater lembrou também que os oceanos estão hoje também dentro de nós, no microplástico que acabamos por ingerir através do peixe que nós próprios envenenamos, numa cadeia circular que tem vindo a agudizar-se de forma negativa.

A solução? Voltar ao mar. Sensibilizar crianças e adultos para este organismo vivo, ao qual devemos empatia e proteção. E manter a conversa acesa.

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