Descobrir Mentes

Cresce o abandono precoce do emprego para cuidar de doentes

Cresce o abandono precoce do emprego para cuidar de doentes

Fenómeno afeta sobretudo as mulheres. Custos diretos e indiretos elevados resultam da falta de verbas para aplicar planos de saúde mental.

O número de mulheres que têm abandonado precocemente os empregos para poderem cuidar de familiares que sofrem de depressão tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos em Portugal. A constatação, feita por Luís Câmara Pestana, psiquiatra no Hospital de Santa Maria (Lisboa), serve para exemplificar os elevados custos diretos e indiretos causados pelas doenças mentais no nosso País. As aposentações pelos mesmos motivos afetam também os homens, mas em número mais reduzido.

"Doença, subsídios, diminuição da produtividade das pessoas que não procuram médicos, pessoas com depressões não tratadas, familiares obrigados a meter baixa para tratar dos doentes, tudo forma um conjunto de circunstâncias com custos elevados para o sistema", aponta o especialista. Teresa Maia, coordenadora geral de saúde mental na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) concorda: "A falta de respostas a montante e a jusante faz com que sejam os cuidadores, sobretudo as mulheres, a tratar dos doentes depressivos, o que, naturalmente, tem um grande impacto social, desde logo na produtividade de quem cuida".

Os dois psiquiatras convergem na análise das causas deste fenómeno. "O problema não está na inexistência de planos para a saúde mental, está na falta de execução desses mesmos planos por falta de verbas. Não tem havido respostas suficientes e adequadas por falha nas opções políticas", assinala Teresa Maia. "Os doentes mentais não rendem votos", atira Luís Pestana, para acrescentar: "Ao longo das últimas décadas, tem sido muito difícil integrar a Psiquiatra na Medicina, dentro dos hospitais.".

Mais recursos humanos

Há mais pontos de encontro na avaliação dos dois especialistas. "É fundamental recrutar mais recursos humanos para os serviços locais de saúde mental, como é decisivo aumentar as vagas para internamentos e melhorar a resposta dos cuidados de saúde primários, de modo a tratar atempadamente os casos de ansiedade e depressão", aponta a responsável da ARSLVT. Na verdade, diz Luís Pestana, "o maior custo com os doentes mentais provém dos recursos humanos, ou da falta deles. Se as pessoas não forem acompanhadas a tempo, serão grandes consumidores de recursos a longo prazo".

Luís Oliveira, neuropsicólogo e vice-presidente da Associação de Apoio a Doentes Depressivos e Bipolares, junta mais um número para dar conta da dimensão do problema. "No último ano, o nosso site teve mais de um milhão de visitas e o número de associados cresceu 40%. A pandemia explica estes dados, mas também fica claro que há ainda um biombo a esconder o problema da doença mental".

Apesar de tudo, os três especialistas olham para o futuro com otimismo. Os 85 milhões de euros disponíveis no Plano de Recuperação e Resiliência para a saúde mental devem servir, na opinião de Luís Pestana, para "recuperar serviços que estão deteriorados e criar mais equipas e mais estruturas de proximidade", porque "não é possível termos hospitais de Lisboa a receber doentes do Algarve".

"É fundamental que não haja uma regressão", pede, por seu turno, Luís Oliveira. "Afinal, estamos a falar de direitos humanos básicos, da necessidade de garantir, como diz a Organização Mundial de Saúde, um estado de bem-estar físico, mental e social completo, e não meramente a ausência de doença.".

O projecto Descobrir Mentes é uma parceria Jornal de Notícias, TSF e Janssen.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG