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Criação de 40 equipas comunitárias "será um enorme avanço"

Criação de 40 equipas comunitárias "será um enorme avanço"

Verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ajudarão a criar novas estruturas de proximidade, consideradas fundamentais para o sucesso das políticas de saúde mental.

Há uma premissa base para o sucesso de qualquer política dirigida à saúde mental: sem equipas comunitárias, o trabalho nunca ficará completo. Na verdade, "as equipas comunitárias são a base dos serviços locais de saúde mental, porque são elas que garantem a prestação de cuidados em continuidade e em proximidade", frisa Miguel Xavier, psiquiatra e coordenador do Plano Nacional de Saúde Mental (PNSM). "As equipas comunitárias existem em todos os países com boas reformas de saúde mental", assinala o especialista, para acrescentar: "O contexto de uma consulta em hospital é muito diferente do contexto de uma consulta feita no âmbito da comunidade".

Sofia Couto, presidente do GIRA (Grupo Intervenção e Reabilitação Ativa), instituição fundada em 1995 por familiares e amigos de pessoas com doença mental, vê nas equipas comunitárias um "complemento relevante para o tratamento dos doentes", sobretudo para os que "estão mais distantes, ou não conseguem dirigir-se ao hospital". "O trabalho multidisciplinar destas equipas é sobretudo relevante nas situações pós-alta médica, no sentido de poderem ajudar o doente a encontrar, quando isso é possível, um novo sentido para vida", refere Sofia Couto. Hoje, com as novas soluções terapêuticas é, felizmente, cada vez mais frequente conseguirem-se criar novos e melhores futuros a muitos destes doentes, seja, por exemplo, nos casos da esquizofrenia ou da depressão. E acrescenta: "Além disso, o facto de a abordagem ser multidisciplinar elimina as dúvidas que muitas vezes surgem quando o doente anda de médico em médico, ouvindo uma coisa e a seguir outra que parece contrariar a anterior".

66 equipas no terreno
Atualmente, há em Portugal 66 equipas no terreno (59 para adultos e sete para crianças). Problema: "São raras as que estão completas", diz Miguel Xavier. Isto é: a crónica falta de técnicos (psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, entre outros) impede uma resposta adequada e continuada aos problemas encontrados no terreno. É uma questão de falta de verbas? "Não só", responde o coordenador do PNSM. "Uma equipa multidisciplinar completa custa cerca de 200 mil euros por ano, o que não é muito. O ponto é que, para além da falta de financiamento, temos um grande défice de técnicos. É preciso que os hospitais contratem mais técnicos, mas não tem havido incentivos para isso".

A presidente do GIRA concorda, lembrando o trabalho que as equipas fazem no seio familiar. "Às vezes são uma lufada de ar fresco. Convém não esquecer que as famílias precisam de suporte, para evitar situações que às vezes chegam ao conflito. A experiência que tenho é prova de que a ajuda das equipas comunitárias é decisiva", diz Sofia Couto.

A expetativa é que o problema comece a resolver-se de vez com a ajuda das verbas previstas para a saúde mental no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). "O objetivo é ter no terreno, em 2025/26, 40 equipas comunitárias completas. Dez já estão orçamentadas pelo Governo, o PRR permitirá orçamentar mais 20, e Governo terá que conseguir verbas para as restantes dez", concretiza Miguel Xavier. "Com 40 equipas criadas, teremos um grande avanço nesta matéria".

E quando as verbas do PRR acabarem? "As equipas terão que ser internalizadas no Serviço Nacional de Saúde", responde o psiquiatra. "Outra coisa nem me passa pela cabeça. Não faria o mínimo de sentido" perder esta oportunidade. Uma coisa é certa: as equipas a criar "serão colocadas nos sítios onde são mais precisas, fora de Lisboa, Porto e Coimbra".

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