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FamiliarMente assume defesa dos direitos de doentes mentais

FamiliarMente assume defesa dos direitos de doentes mentais

"Passámos a ser ouvidos", diz presidente da Federação. Mais de metade dos pacientes ainda sem acesso aos cuidados de saúde

Ana, 50 anos, sofre de debilidade mental moderada e psicose. Fernanda Lobo, a mãe, leva outros tantos anos a "viver, todos os dias, com o coração nas mãos". A ajuda familiar, tantas vezes decisivas nestas situações, foi sempre escassa: "Todos achavam que os problemas da minha filha resultavam do excesso de mimo que lhe dava", diz a mãe. A perda do progenitor agravou os desequilíbrios, uma vez que "para a Ana, a morte do pai foi uma espécie de boom, acrescenta. Assim, encontrar uma instituição que acolhesse Ana foi tarefa complicada: "Tive sempre a impressão de que a Ana saía dos hospitais psiquiátricos pior do que quando entrava". Hoje, a tormenta acalmou. Nas Irmãs Hospitaleiras, que estão em Portugal há mais de um século, Ana encontrou poiso seguro. "A Ana gosta de estar lá - e sei que é muito bem tratada", diz Fernanda. Que nem por isso deixa de sentir o mesmo "aperto no coração". Todos os dias.

Foi para ajudar famílias como a de Fernanda Lobo que surgiu, em 2015, a FamiliarMente (Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Menta). A necessidade de "falar a uma só voz", para dessa forma "defender os direitos e legítimos interesses, enquanto familiares e cuidadores informais, de pessoas como doença mental" impôs-se, lembra Joaquina Castelão, presidente da instituição. Há, em Portugal, 14 associações formalmente constituídas, a que acrescem "muitos grupos informais de famílias, de Norte a Sul do País", assinala a responsável.

Há meio século, Fernanda não teve a mesma sorte. A falta de apoio obrigou-a a trilhar o caminho das pedras: "Tudo o que sei, aprendi por mim própria", frisa a mãe de Ana. Joaquina Castelão, que acompanha há 30 anos uma irmã com esquizofrenia, lembra que "não há uma receita igual para todos, nem as famílias são todas iguais". No seu caso, a ajuda maior "foi ter um bom suporte familiar". "Mas não foi através do Serviço Nacional de Saúde que encontrei respostas. Tive que andar de especialidade em especialidade médica", recorda.

O balanço dos seis anos de atividade da FamiliarMente é positivo: "Passámos a ser ouvidos", atira a presidente da instituição. E essa circunstância faz toda a diferença, quando permanece um longo rol de problemas por resolver, no campo da saúde mental. "Uma verdadeira reforma nesta área, que já devia ter sido feita há anos, implica, desde logo, a criação de estruturas que possam acolher condignamente as pessoas que hoje estão nos chamados hospitais psiquiátricos", clama Joaquina Castelão.

A isso haverá que juntar outra prioridade: alargar as equipas comunitárias de saúde mental. Compostas por profissionais de várias áreas (enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, entre outros), são estas equipas que respondem, no terreno, aos problemas de quem mais precisa. O Plano de Recuperação e Resiliência prevê a criação de 40, mas Joaquina prefere esperar para ver.

Igualmente relevante é "corrigir os modelos de intervenção definidos no Plano Nacional de Saúde Mental. É preciso testar os modelos e proceder à avaliação de impacto, para corrigir o que for necessário", diz a presidente da FamiliarMente, para concluir: "E, claro, fazer da família parte ativa do processo e aumentar o acesso aos cuidados de saúde, porque cerca de 60% das pessoas que sofrem com a doença não o têm", conclui Joaquina Castelão.

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