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Pandemia gerou uma "constelação catastrófica" de eventos no Algarve

Pandemia gerou uma "constelação catastrófica" de eventos no Algarve

Adolescentes, crianças e mães ficaram mais expostos a doenças mentais. Unidade inaugurada em Loulé ajuda os mais novos.

O pedopsiquiatra Pedro Dias vê nas consequências da pandemia para a saúde mental uma "constelação catastrófica de efeitos", cuja amplitude só será visível "daqui a 5 ou 10 anos". No debate ontem realizado na Rádio Gilão (Algarve), no âmbito de uma parceria entre o JN, a TSF e a farmacêutica Janssen, o especialista alinhou, contudo, alguns dos "impactos devastadores" já rastreados na região algarvia: sérias "alterações comportamentais" entre os mais pequenos, que, além de terem ficado "privados das suas rotinas, foram confrontados com a morte todos os dias"; o "esgotamento das mães e das mulheres cuidadoras; o "aumento das adições dos adolescentes, que passaram os dias agarrados às televisões e às redes sociais"; e, claro, "a subida da frequência e gravidade" dos casos de saúde mental.

"A pandemia veio surpreender-nos a todos", apontou, por seu turno, Maria do Carmo, diretora do serviço de psiquiatria o Hospital de Portimão. "A grande exigência emocional que a luta contra a COVID-19 exigiu de todos aumentou os estados de ansiedade e de depressão na população em geral", refere a psiquiatra, para apontar de seguida uma "especificidade" do Algarve: "Por estar muito dependente do turismo, a região debate-se com problemas de desemprego e dificuldades económicas que são uma alavanca considerável" para os problemas de saúde mental.

Enquanto diretora técnica da unidade sócio-ocupacional para adolescentes do Algarve (ASMAL), Elizabete Noronha viu-se obrigada a "adaptar" as respostas às circunstâncias. "Procurámos ajudar, na medida do possível, aqueles que mais precisavam, sobretudo as pessoas com problemas de saúde mental", aponta a psicóloga clínica. "Mantivemos os apoios, para combater, desde logo, o isolamento dos doentes", mas também para minorar "os problemas das famílias que perderam empregos e rendimentos".

"Olhar mais atento"

As dificuldades sentidas no Algarve para dar combate aos problemas de saúde mental reclamam, na opinião de Maria do Carmo, "um olhar político mais atento" que possa redundar no "aumento dos recursos humanos e físicos". "Até ao ano passado, os orçamentos do Estado guardavam menos de 2% do investimento para a saúde mental. As coisas melhoraram um bocadinho, mas é fundamental apostar no aumento da literacia, na criação de mais equipas comunitárias. Temos 10 na região, mas passam pouco tempo no terreno e não são, como deviam, verdadeiramente interdisciplinares, porque faltam psicólogos e assistentes sociais para as complementar."

As queixas de Pedro Dias, a trabalhar no Hospital de Portimão, são ainda mais acutilantes. "Há, para todo o Algarve, apenas um pedopsiquiatra, que sou eu. E não existe qualquer psicólogo! Quando temos casos mais graves, têm que ser drenados para Lisboa. Há uma gravíssima falta de recursos humanos e é fundamental instalar, com toda a urgência, uma resposta consistente no terreno."

Há, no meio das carências, uma nota positiva que merece destaque. "Criámos em Loulé, no ano passado, uma unidade sócio-ocupacional para adolescentes", regozija-se Elizabete Noronha. "Trata-se de um projeto pioneiro na região. Só há uma unidade semelhante em Barcelos", assinala a diretora técnica da ASMAL. Tendo em conta que a depressão afeta 31% dos jovens e adolescentes em Portugal que, a seguir ao Alentejo, o Algarve é a região do país com os mais elevados índices de suicídio trata-se, como sublinha a psicóloga, de "uma excelente notícia".

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