Descobrir Mentes

Para a saúde mental, a "bazuca" é uma fisga?

Para a saúde mental, a "bazuca" é uma fisga?

Responsáveis com opiniões diferentes quanto ao efeito dos 85 mil milhões de euros previstos no Plano de Recuperação e Resiliência para diminuir os problemas suscitados pelas doenças do foro mental.

A dúvida é esta: são os 85 milhões de euros reservados no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) suficientes para resolver os problemas da saúde mental em Portugal? Ou a também designada "bazuca" não passará de uma "fisga", como lhe chamou o psiquiatra Miguel Bragança no debate "Descobrir Mentes", realizado no âmbito de uma parceria entre o JN, a TSF e a farmacêutica Janssen?

Reconhecendo que a saúde mental "não tem tido o lugar que todos gostaríamos que tivesse" no rol de preocupações de sucessivos governos, Jorge Bouça, coordenador de saúde mental na Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN), vê no PRR uma oportunidade única para ultrapassar o problema.

Para sustentar a esperança, o médico elenca o que é suposto fazer-se na região Norte: aumento da capacidade de internamento no Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga e no Centro hospitalar Tâmega e Sousa, criação de respostas residenciais para os doentes que não têm acesso aos cuidados continuados, previsão de 15 novos centros de responsabilidade integrados e equipas de saúde mental comunitárias.

No que concerne às equipas de saúde mental comunitárias, há muito reclamadas pelos profissionais do setor, o responsável da ARSN assinala a existência de "experiências-piloto a arrancar no País com equipas completas (médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, que se instalam num local e tratam de uma população até 1.200 habitantes)", sublinhando que a "bazuca" permitirá "expandir estas experiências a outros locais do País, o que é uma modernização imperativa na saúde mental em Portugal".

Miguel Bragança é bastante mais cético. "A "bazuca" é uma fisga, é pouquíssimo dinheiro para a saúde mental", assevera, notando que "não há sequer uma equipa de missão para monitorizar o que se pretende fazer". De resto, diz o psiquiatra, "para alterar muitas das coisas que estão mal na saúde mental é preciso, apenas, vontade política e centrar a atenção nos doentes, e não nas instituições e nos seus profissionais."

Jorge Pereira, enfermeiro no Hospital de Santo António (Porto) e especialista em enfermagem comunitária reclama a experiência do terreno para ir de encontro à opinião de Miguel Bragança. "É tudo difícil! Fala-se muito da "bazuca", mas temo que ela "expluda" antes de chegar aqui. Já ando há mais de 30 nas na psiquiatria. Falámos sempre de muita coisa que vai acontecer, mas a verdade é que as coisas não avançam".

O enfermeiro integra uma equipa local de saúde mental em Gondomar, que cobre uma população de 150 mil habitantes. Trabalha, sobretudo, com doentes mentais graves e, por isso, sabe o valor da proximidade com o doente. Sucede que "a falta de recursos humanos é tão grande que, basicamente, só asseguramos a administração da medicação". "Não temos muito mais recursos para poder fazer o resto, nomeadamente reabilitação, que é extremamente importante", acrescenta.

O problema da falta de recursos humanos e de investimento tenderá a agravar-se com a pandemia? Miguel Bragança diz que não, desde logo porque, "ao contrário do que se afirma, os poucos estudos disponíveis não mostram um aumento considerável de doença mental em nenhuma das valências: nem na urgência, nem nos internamentos, nem nas consultas externas. Não acredito que venha a existir uma pandemia de doença mental, nem por sombras", conclui o médico.

Paulo Ferreira

O projeto Descobrir Mentes é uma parceria Jornal de Notícias, TSF e Janssen.

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