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Viagem por 40 anos de rock encerrou JN North Festival

Viagem por 40 anos de rock encerrou JN North Festival

Quando os Waterboys e os Jesus and Mary Chain nasceram, Portugal ainda não estava na Comunidade Económica Europeia, o primeiro telemóvel tinha acabado de aparecer e a televisão a cores também. Desde então passaram quase 40 anos e a década de 80, para tantos nostálgica e em que tudo era possível, ficou para trás. Este sábado, no JN North Festival, voltou.

Primeiro, Waterboys. Donos de uma grande forma, conseguiram pôr os cerca de 15 mil festivaleiros da Alfândega a viajar no tempo. Foi uma viagem alucinante, fulgurante, repleta de ritmo e melodias de outrora, ora em balada, ora em country, ora em hard rock, com o vocalista Mike Scott todo de ganga e chapéu de cowboy a brilhar do alto dos seus 63 anos.

"Rosalind", do álbum Modern Blues (2014) foi o primeiro grande momento do concerto. Aos primeiros acordes logo se percebeu que a maioria dos melómanos eram fervorosos fãs do conjunto. "That was the river", belíssimo poema de 1994 do disco The Secret Life of Waterboys, editado em 1991, foi outro dos temas que levou o público ao rubro.

O melhor, no entanto, estava prestes a acontecer. Logo que os primeiros acordes de "Fisherman"s Blues" começaram a tocar, centenas de pessoas começaram aos saltos, antes de pegarem nos telemóveis para filmar a performance. O tema, recorde-se, mudou o estilo da banda em 1988, adicionando elementos da música tradicional irlandesa e folk, tornando-se num dos êxitos mais badalados das rádios.

Antes do encore, ainda se ouviu a fantástica "Long Strange Golden Road", do Modern Blues (2014), com dez minutos inteiros de muito rock e um solo de guitarra ao alcance de poucos. O regresso, magistral, não lhe ficou atrás e encerrou o concerto com o tema mais conhecido de todos, "The Whole of the Moon". Foi o ponto alto do concerto e quiçá do festival. A imagem deixada pelos Waterboys mostra porque é que têm tantos fãs em Portugal e porque é que o terceiro dia do JN North Festival foi o que vendeu mais bilhetes. Chapeau!

Incompreendidos desde 1984

Com tal final, quem ficou a perder foi o quinteto escocês Jesus and Mary Chain. Há quem diga que faltou alma, outros que o som estava baixo, há ainda os que não contavam com a indiferença do conjunto face ao público. A verdade é que tudo era expectável face ao contraste de estilos. Se a viagem de Waterboys foi melódica, frequentemente rápida e muitas vezes emocional, a travessia de Jesus and Mary Chain pelas décadas de ouro do rock é lenta e feita por caminhos de sombra e escuridão.

São, também, pioneiros do shoegaze, o estado de estar em palco com total indiferença perante o público e onde o caos nas distorções sobrepostas é capaz de confundir quem prefere o som mais limpo de Waterboys. Foram, aliás, muito criticados na década de 80 pela falta de interação com os fãs. A história parece repetir-se.

O concerto de Jesus and Mary Chain começou com "Amputation", do álbum Damage and Joy (2017), o último editado. Destacaram-se ainda "I love rock and roll", do disco Munki (1998) e a enorme "April Skies", do soberbo Darklands (1987). O tema homónimo, "Darklands", outra das obras de arte dos Jesus and Mary Chain, foi o escolhido para a primeira despedida do palco. Voltaram para "Just Like Honey", celebrizada na cena final do filme "Lost in Translation", para depois saírem de palco sem qualquer despedida.

Os laivos negros das cordas em distorção que apimentavam uma boa parte dos temas dos escoceses acabaram por compensar na imagem final de um concerto que pecou por ser depois de Waterboys. Foi para convertidos.

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