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Na Beira Baixa, a culpa é da água

Na Beira Baixa, a culpa é da água
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Foi a água que rasgou, às vezes gota a gota, a imensidão de rochas que marcam a paisagem do território beirão. É a água que nos permite desfrutar de lugar mágicos, como o Poço de Fervença. Bendita água.

Há uma pergunta que nos persegue a toda a hora, quando percorremos o território da Beira Baixa: que mistério está, afinal, por detrás do aparente paradoxo que resulta na junção da infindável paleta de cores que a serra da Malcata nos oferece com a rudeza brutal dos rochedos que nos acompanham, Tejo abaixo, rumo às Portas de Almourão? O que explica a discrepância que nos interpela, quando comparamos a paisagem granítica do Parque do Barrocal, feita de rochas geradas nas profundezas da Terra, com o momento em que enfiamos os pés no refrescante Poço de Fervença?

No percurso pelo património natural dos seis municípios agrupados na Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa (Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Penamacor, Proença-a-Nova, Oleiros e Vila Velha de Ródão), o apelo do Interior ao nosso interior estremece-nos os sentidos, mas, em boa verdade, a explicação é terrena: a culpa, afinal, é da água.

Foi a água que, ao longo de milhões de anos, pacientemente erodiu as rochas: venceu o quartzito e cavou vales profundos; nos afloramentos mais resilientes, criou impressionantes quedas de água; nos meandros do Zêzere, o diálogo com a deposição de sedimentos originou percursos sinuosos. Foi a água que moldou a paisagem. Foi a água que permitiu a criação do primeiro Geoparque em Portugal. A culpa é, insistimos, da água.

As cobras pintadas

Há um lugar no território onde isso é particularmente evidente: Penha Garcia, em Idanha-a-Nova. As grandes convulsões tectónicas transformaram a areia depositada no fundo do mar em rocha, levantando-a na vertical (há 480 milhões de anos, o que é território português estava submerso no oceano). Hoje, o que ali se vê é de tradução difícil para linguagem corrente. A água que repousa na barragem do rio Pônsul como que prepara o olhar para o que se segue: os fraguedos são imponentes, a descida parece assustadora, mas os impecáveis moinhos guardados pelo senhor Domingos, a queda de água que sustenta a Zona de Lazer do Pêgo (uma espécie de oásis por entre os rochedos) e, sobretudo, os icnofósseis não permitem escapatória: seguimos pelos trilhos das rochas por onde passaram os burros carregados de trigo e centeio para fazer a farinha (chegaram a existir 24 moinhos no rio). E eis-nos perante as "cobras pintadas", como lhe chamavam os mais velhos: 36 formas de comportamento animal que remontam há cerca de 480 milhões de anos.

A companhia dos grifos

Uma vintena de grifos levanta voo, em jeito de boas-vindas, quando o barco de recreio "estaciona" já para lá das Portas de Ródão (Vila Velha de Ródão). O (aparente) macho alfa da maior colónia ibérica desta ave mítica permanece, atento e vigilante, lá no topo das rochas até à partida da embarcação.

Outra vez a água. Foi ela que rasgou uma imponente garganta na crista quartzítica da serra do Perdigão, poiso de 116 espécies de aves e terra rica em fauna. Galopim de Carvalho, emérito geólogo, diz serem as Portas "um dos mais importantes geomonumentos existentes em Portugal": o ímpar valor geológico, arqueológico (há 40 mil gravuras rupestres debaixo destas águas), biológico e, claro, paisagístico valeu às Portas o título de Monumento Nacional, em 2009. E, de facto, é perante um monumento que estamos.

Mais Portas...

Outras Portas se abrem: são as de Almourão. Aqui, o culpado é o rio Ocreza, cujas águas abriram imponentes escarpas de quartzito localizadas nos concelhos de Vila Velhão de Ródão e Proença-a-Nova. A beleza do local corta a respiração, sobretudo quando miramos o desfiladeiro com 400 imensos metros de profundidade. É altura de reconhecer que a Natureza nos ensina o valor da escala: aqui, sentimo-nos pequeninos.

O património natural é extenso: aves de rapina nidificam aqui; as lontras pescam e brincam nas águas; à face da estrada, a qualquer momento somos surpreendidos por um esquilo que estuga o passo; no ar, o melro-azul dá voltas e voltas; em terra, o texugo procura refeição.

... e mais pedra

Ainda a água. Em Castelo Branco, o Parque do Barrocal, inaugurado em 2020, está pejado de enormes rochas resultantes da dança constantes das placas tectónicas. A água foi limando e retocando o granito do Barrocal, que hoje ocupa uma área de 390 quilómetros quadrados. Na verdade, o Barrocal faz parte da cidade, uma vez que alguns dos monumentos mais antigos da capital de distrito foram construídos a partir dele.

No Parque, a paisagem fascina e a biodiversidade impressiona. Em alguns dos sete mirantes temáticos, o horizonte não se esgota sem nos mostrar Badajoz, do lado de lá da fronteira. As aves aproveitam os carvalhos, os sobreiros e as azinheiras para ensaiar cantos nupciais. Os passadiços levam-nos à descoberta do Túnel do Lagarto e do Observatório dos Abelharucos. Única exigência para de tudo tirar proveito: tempo.

Arco-íris em terra

Tempo é justamente o que estamos obrigados a ter, para desfrutar da incrível Serra da Malcata, em Penamacor. A exuberante paleta de cores que nos acompanha caminho fora é uma espécie de arco-íris em terra, com uma diferença: podemos tocar-lhe. Amarelos, roxos, brancos, verdes, rosas, castanhos, vermelhos e dourados de tonalidades várias: eis a composição de uma vegetação luxuriante.

A mochila é companhia obrigatória, porque sem binóculos, bússola e mantimentos ficaremos longe de tirar desta reserva natural o tanto que ela tem para oferecer. Já não vislumbraremos o lince ibérico, mas há, entre outros, o abutre-negro, a cegonha-preta, o rouxinol-do-mato, o corvo e a cegonha para nos fazerem companhia.

E há os cheiros: a esteva, a urze, a carqueja, a madressilva, a rosa-albardeira. E há, ao longo das principais linhas de água (ei-la, novamente), bosques com amieiros e freixos, salgueiros brancos e pretos.

Ir às praias

Se a meteorologia ajudar, não saia daqui sem conhecer as praias fluviais. A zona de lazer de Benquerença é um autêntico mimo: espaçosa e infraestruturada, carregada de árvores (logo, de sombras), com um gigante relvado e impecavelmente cuidada, intrinsecamente ligada à natureza que a rodeia. A água, essa, só pede mergulhos. O dia também se passa muito bem na zona de lazer de Meimoa, servida por uma ponte romano-filipina, e na zona de lazer de Meimão, dotada de uma piscina flutuante.

Por falar em praias fluviais. Em Proença-a-Nova, o percurso da Rota dos Recantos e Encantos (PR5) exige resistência: são 11 quilómetros de caminho, para quem quiser fazer todo o percurso. Mas o esforço tem elevada recompensa.

Partindo da praia fluvial de Alvito da Beira, segue-se um vale verdejante ao longo de antigas levadas que ligavam as povoações de Alvito, Lameiro da Mó e Cova do Alvito (hoje sem residentes fixos, mas muito bem preservada). O percurso atravessa por três vezes a ribeira, de onde salta à vista a vegetação. Com sorte, uma lontra há de cumprimentar o viajante.

Os vestígios de pequenas pontes que ligavam margens nos períodos de Inverno, quando o caudal era bastante superior, juntam-se à paisagem antes rica em olivais.

Encontraremos a aldeia da Cova do Alvito, que ganha vida aos fins-de-semana, graças à chegada de proprietários que aqui adquiriram algumas das casas da terra. Retemperadas as forças na fonte da aldeia, seguimos a marcha, já de volta à praia fluvial de Alvito da Beira.

Há alternativas: Aldeia Ruiva, Cerejeira, Fróia e Malhadal completam a rede de praias fluviais do concelho, valorizadas pela moldura natural e servidas por equipamentos construídos com a preocupação de preservar a identidade dos locais, recorrendo a materiais como o xisto e a madeira.

Mirar e molhar os pés

Subimos a exatos 660 metros de altitude, para nos voltarmos a extasiar com a paisagem beirã. No Miradouro do Cabeço Mosqueiro, em Oleiros, a Serra da Estrela ergue-se, altaneira, à nossa frente. O espaço, revitalizado e requalificado com a construção de muros de xisto e incorporação de vegetação típica da região, pede descanso para uma merenda retemperadora. Aconchegado o estômago, é erro sair dali sem voltar a pôr os olhos no horizonte.

Com a água começámos - e com ela finalizamos.

Chegar. Sentar. Ouvir. Cheirar. Admirar. Desfrutar. E só se for mesmo, mesmo caso para isso, pensar. Após uma caminhada com uma levada de água por companhia (na verdade, o rio parece querer entabular conversa durante o percurso, tantos são os sons que emite quando trava nas rochas que encontra e nas pistas em que segue mais ofegante), eis-nos no extraordinário Poço de Fervença (Oleiros), no sopé da Serra do Muradal. A cascata enche o poço, antes de seguir em frente. E é no poço que, pés dentro da água limpinha e fresquinha, nos sentimos na obrigação de dizer: "Obrigado, água".

Mais informação em beirabaixatour.pt

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