Roteiro

A praia temperamental

É certo e sabido que Santa Cruz não possui o melhor clima do mundo, mas tem uma beleza e personalidade que compensam um ou outro dia menos solarengo. Um pequeno e nem sempre bem afamado paraíso, a menos de uma hora de Lisboa.

Em 1876, Ramalho Ortigão, autor do livro As praias de Portugal - Guia do banhista e do viajante, ainda hoje uma referência na lite­ratura de viagens, remeteu Santa Cruz para um capítulo intitulado «As praias obscuras». Desse rol faziam tam­bém parte as praias de Assenta, também na região Oeste, São Martinho do Porto, São Pe­dro de Moel, Costa Nova, Apúlia e Vila Praia de Âncora. Muito se passou desde então. San­ta Cruz teve altos e baixos, em 2012 foi consi­derada a 16ª melhor praia do mundo pela Con­dé Nast Traveller, com a revista a atribuir-lhe «todo o encanto da costa portuguesa», mas se há algo que não muda é precisamente a falta de consenso em relação às suas caraterísticas.

Basta o nome vir à baila e logo surgem as referências ao seu microclima, uma estân­cia balnear temperamental que tantas ve­zes se deixa cobrir por um denso manto de nevoeiro, mesmo quando o Sol brilha no resto do país. Também há quem critique um certo des­cuido arquitetónico, sendo visí­veis alguns edifícios abandonados tão belos quanto decadentes. Se­rão algum dia transformados em hotéis de charme? Haverá procu­ra suficiente?
A população garante que é pre­cisamente este clima, esta densidade, aliada a uma natureza selvagem repleta de arribas, que lhe empresta uma melancolia e força si­lenciosa sem paralelo em Portugal. É preciso esperar, saber olhar, ter paciência. O tempo e paciência que Ramalho Ortigão não terá tido.

Se bem que na altura não houvesse luga­res como o Noah, a mais recente menina dos olhos desta pequena localidade do concelho de Torres Vedras. Inaugurado em 2015, é uma espécie de sala de estar debruçada sobre a areia, um espaço cosmopolita sem ser elitista, capaz de receber quem vai comer uma lagosta, uma tosta, beber uma caipirinha, fazer surf (têm uma escola) ou apenas alu­gar uma barraquinha. É verdade, aqui ainda há barracas de praia. Também organizam concertos, arraiais, exposições, ciclos de ci­nema e workshops. Todas as quin­tas-feiras à noite, por exemplo, entre julho e agosto, há música ao vivo. Até 15 de setem­bro haverá sessões de yoga todas as sema­nas. «Santa Cruz já precisava de um sítio as­sim», ouve-se amiúde.

Fica na praia da Física. Sim, porque fa­lar em Santa Cruz não é falar apenas numa praia, mas em várias. A praia do Guincho (fa­mosa pelo seu penedo com uma abertura on­de é possível passar quando a maré está bai­xa), a Formosa, Santa Helena, Pisão, Navio ou do Mirante, apenas para citar algumas. Ou ainda a praia da Mexilhoeira, mais sel­vagem e afastada.

É lá que fica o Areias do Seixo, um hotel de charme que em 2010 voltou a colocar Santa Cruz no mapa. Exagero, naturalmente. San­ta Cruz nunca saiu do mapa. Na altura causou um certo espanto a abertura de um hotel de charme com estas caraterísticas. Os preços não eram acessíveis - uma noite custa mais de 200 euros, já um menu de degustação no restaurante pode ficar pelos 75 - e muitos che­garam a duvidar de que pudesse sobreviver. Quem vai gastar tanto dinheiro num sítio on­de nunca se sabe se estará sol? A verdade é que meia dúzia de anos depois o hotel conti­nua a ser uma referência a nível internacio­nal. Tudo graças a uma localização privilegia­da, entre as dunas e os pinheiros, uma arqui­tetura e decoração cuidadas e uma filosofia com grandes preocupações ecológicas. Têm uma horta orgânica e um relógio ecológico que permite monitorizar os consumos de gás, água e energia.

Aqui e ali, faz lembrar o Noah. Não por acaso, a gestão é comum. Mas Santa Cruz não vive apenas destes dois espaços. É indesmentível que vieram ajudar a dar-lhe um novo fôlego. Há, contu­do, uma série de outros locais que merecem visita, bares onde perder umas horas é ganhar o dia. Como o Bronzear, na praia de Santa He­lena; o restaurante Boca Santa na incontorná­vel Esplanada Antero de Quental, uma varan­da com vista para o Atlântico; ou o Manel Bar, na porta ao lado, o primeiro pub da terra, inau­gurado em 1979. É preciso tocar à campainha, mas ninguém fica à porta.

Santa Cruz vai-se revelando e descobrin­do aos poucos, mais tarde ou mais cedo o Sol lá acaba por aparecer - são manifestamen­te exagerados os relatos sobre o seu péssimo clima - e, sem que nos apercebamos, estamos conquistados. Sobretudo quando o dia come­ça no mercado. Veem-se turistas, a comprar peixe na banca da dona Odete, pão caseiro na Lena ou um saco de legumes da horta Gracin­da, mas sobretudo nativos. Há vida, mesmo que muitas pessoas se queixem da falta de al­ma durante o resto do ano.

Para terminar, um segredo: o pão com chouriço da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa do Casal Cochim, a poucos qui­lómetros de distância, já no meio de uma pai­sagem tipicamente saloia, por entre os cam­pos, mas sempre com o mar no horizonte. Só sai ao domingo e tem fama de ser o melhor do mundo.

FICAR

AREIAS DO SEIXO. Praceta do Atlântico, Mexilhoeira, Povoa de Penafirme, A-dos-Cunhados. Tel.: 261936340. Quarto duplo a partir de 265 euros por noite (inclui pequeno-almoço).

ONDE COMER

NOAH. Avenida do Atlântico, Praia da Física, A-dos-Cunhados. Tel.: 261932355. Das 09h00 às 02h00. Não encerra. Preço médio: 15 euros.

BOCA SANTA. Esplanada Antero de Quental, 7. Tel.: 919324499. Das 11h00 às 00h00; sexta e sábado às 01h00. Não encerra. Preço médio: 20 euros.

BRONZEAR. Praia de Santa Helena. Tel.: 968777355. Das 10h00 às 01h00; sexta e sábado às 03h00. Não encerra. Preço médio: 15 euros.