Vinho

Amigos do vinho

Todas as regiões demarcadas têm a sua capital oficiosa. E se há cidade na qual o Dão está cada vez mais presente é Viseu, onde os seus vinhos encontram um número crescente de moradas que lhes prestam a devida homenagem - sejam restaurantes, winebars ou garrafeiras. Aqui vive-se o orgulho do vinho.

Como tema de conversa, há muito por onde desfiar os vinhos do Dão. Muitos produtores, muitas histórias, muitos anos de estrada, ou não se tratasse da segunda região demarcada mais antiga do país, instituída em 1906. Do tanto que há para dizer, só não vale a pena perder tempo a dar a notícia de que na região se produzem grandes vinhos, um exercício tão desnecessário como a exaltação genérica da riqueza gastronómica deste território. Os dois assuntos, contudo, andam de mãos dadas desde sabe-se lá quando - e da parceria não se vislumbra senão um futuro feliz e frutífero.
É certo que as regiões demarcadas não têm capitais oficiais. Porém, em todas elas parece haver uma cidade-chave, que não só lhe serve de apoio logístico e administrativo, como também faz as vezes de montra daquilo que a região produz. Évora para o Alentejo, Coimbra para a Bairrada, o próprio Porto para o Douro e os verdes, ou Lisboa para o Tejo e para a região com que partilha o nome. E, a haver uma capital oficiosa do Dão, o título pertencerá certamente a Viseu. Pelo Solar do Dão. Por não lhe faltarem produtores nas imediações, de insígnias sonantes como Quinta de Lemos, Falorcaou Udaca. E, acima de tudo, por serem cada vez mais as moradas onde se presta reverência ao vinho do Dão, juntando-lhe as únicas du­as coisas que lhe fazem falta: mesa e convívio.

Se há coisa de que Viseu não se pode quei­xar é de falta de bons restaurantes. Não apenas bons, mas recomendáveis, daqueles que fa­zem valer um desvio. E que tratam o vinho co­mo ele merece: o Muralha da Sé, por exemplo, ou o Franguito Algarvio, o decano Santa Lu­zia, a Casa Arouquesa, dona de uma das cartas mais impressionantes do país. Em anos recen­tes, vieram restaurantes de âmbito mais infor­mal, apontados a um público mais jovem, mas sem facilitar em matéria de pratos ou de co­pos. O Maria Xica foi talvez o pioneiro, mas ou­tros se seguiram, sem necessidade de copiar fórmulas ou seguir por caminhos já trilhados.

Luís Almeida chegou a Viseu em 2015. Ou melhor, regressou - afinal foi em Santar, no Paço dos Cunhas, que o chef de Coimbra ga­nhou os galões. Há coisa de um ano, ao ver em velocidade de cruzeiro as duas casas que tem na sua cidade, expandiu a marca Dux. Pegou na sua cozinha petisqueira criativa e adaptou--a ao gosto e ao produto local, sem deixar pa­ra trás os vinhos. «Temos os vinhos no san­gue», diz, no momento das apresentações. No DUX PALACE, uma das suas preocupações é ter representados todos os produtores do Dão, não em simultâneo mas pelo menos ao longo do ano, à medida que as cartas vão sendo renovadas. O vinho está presente na decoração - há peças de cortiça, caixas de madeira, garrafas expos­tas por todo o espaço -, mas não se esgota aí.

Há cuidado na escolha dos copos, têm sempre um produtor do mês em destaque, ocasionalmente decorrem jantares vínicos. E todo o pessoal de sala tem formação dentro do assunto vínico, da­da em parte pelo escansão Luís Moura, também ele sócio, bem como através do contacto dire­to com os produtores e visitas de estudo regu­lares a quintas. Portanto, à mesa, basta ir com abertura de espírito e recetividade às sugestões de quem conhece bem a carta. Quem estiver disposto ao desafio pode inclusive entregar-se às mãos do chef, que não terá más surpresas. A cozinha de Luís Almeida, embora feita com rasgo de criatividade e apre­sentação vistosa, nunca alivia em matéria de rigor. Servem de exem­plo petiscos de cartilha como cho­co frito ou gambas salteadas com alho, feitos com exem­plar precisão. E a carta, de longa que é, pede vários regressos sem risco de aborrecimento.

A par do Dux, outra morada que se ouve de boca em boca quando o as­sunto é de vinhos e petiscos. A TAS­QUINHA DA SÉ abriu em outubro de 2014 e em menos de dois anos já ga­nhou um considerável clube de fãs, pelos petiscos de receituário caseiro de Isilda Costa e pelo tratamento víni­co que lhes dá o seu genro Arthur Fer­reira, a face mais visível desta socie­dade. O espaço é diminuto, pelo que não é raro estar cheio e pedir espe­ra - de copo na mão, claro, nos bancos ou à beira do balcão estrategica­mente postos à porta. No tempo que leva de porta aberta, Arthur nota um crescimento, quer de interesse quer de conhecimento, do público local pe­los vinhos, em particular os da região. A carta, com perto de duzentas refe­rências, está desenhada em função das novidades, tanto que uma vez ao ano fazem um stock-off para aliviar es­paço na garrafeira, com preços espe­ciais e a copo. Além disso, são presença comum as sugestões da semana ou do mês, e lanches com petiscos e a presença de produtores, aqui­lo a que Arthur chama «brincadeiras vínicas». O vinho, esse é assunto sério, tanto que, às sex­tas e aos sábados, a Tasquinha está aberta até às 02h00, acabando por se tornar também uma espécie de winebar, com uma carta a copo em vias de crescer.

Em matéria de winebars, também se co­meça a perceber alguma movimentação. Ali mesmo no centro histórico, ao dobrar da es­quina, está o PALATO WINE HOUSE. A carta de vinhos é extensa, com uma grande gama de preços e a garrafeira à vista mal se entra, a fazer de divisória, dando à sala recato e mote. Na parede de granito, um qua­dro lista os vinhos a copo, uma dezena de referências regio­nais, a preços que os­cilam entre os três e os quatro euros.
Em finais de 2014, a cidade ganhou outro poiso para quem gosta de juntar vinho e vida noturna. O SYRAH WINE & GIN, o nome não deixa segredo, tem dois pontos fortes. Fortíssimos, aliás: referências de gin são perto de oitenta, e a lista de vinhos anda pelas noventa. Mas há também duas dúzias de whiskies, uma dúzia de runs e de vodkas, bem como uma lista de petiscos, bifes e francesinhas.

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O espaço é are­jado, convidativo, revestido do chão ao teto de placas de aparite que lhe dão ambiente rústico chique. O sítio foi recentemente remodelado, e a carta seguirá o mesmo caminho, para al­bergar mais algumas referências do Dão, que ocupam já um quarto do espaço, nomeada­mente monocastas touriga nacional e syrah. O motivo é simples: «O interesse está a cres­cer, as pessoas da região estão mais atentas ao que aqui se vai fazendo», explica o dono, José António Sousa. «Orgulho é a palavra certa, as pessoas defendem aquilo que é da terra.» Sobre se o vinho se está a tornar inequivoca­mente uma bebida da noite, José António, que tem longa experiência no ramo dos bares, não guarda dúvidas. «E o público feminino é quem adere mais», acrescenta. «No início pendiam mais para o Douro, mas com a evolução, do vi­nho e da imagem, procuram cada vez mais o Dão.» Aliás, a própria carta tem toque feminino, já que é sempre a mulheres que pede opi­nião sobre os vinhos que vai juntando à lista. «Elas têm bom palato, têm um sentido fantás­tico», justifica. A primeira escolha, essa vem de um fornecedor, e José António não faz ce­rimónia de revelar quem é. E não é o único.

Aliás, fazendo a pergunta, vários caminhos vão dar à CAVE LUSA PREMIUM, por­ventura a maior garrafeira da cidade. Ao todo, comporta três mil referências, entre vinhos e espirituosas. O seu negócio principal, onde comercializam as gamas mais conhecidas do grande público, é como distribuidor e cash & carry. Porém, há coisa de dois anos, guarda­ram um cantinho deste armazém à beira da estrada de Nelas para fazer uma garrafeira dedicada ao patamar premium. No espaço, com um piso dedicado ao vinho e um meza­nino para os destilados, o protagonismo, co­mo seria de esperar, é do Dão. E um dos pon­tos fortes é o serviço de aconselhamento, no­meadamente para o cliente que pretende ser surpreendido. Um público que, admite Nu­no Madeira, um dos «amantes da matéria» que ali trabalham, é composto por clientes cada vez mais conhecedores. Daí que inicia­tivas como as provas que acontecem a cada 15 dias ou as visitas mensais a quintas estejam repetidamente esgotadas

Por último, ou antes de tudo mais, não há como deixar em branco o SOLAR DO VINHO DO DÃO. Além de funcionar como sede da Co­missão Vitivinícola, o antigo paço episcopal é também o centro de acolhimento de visitantes da Rota do Vinho do Dão. Quer isto dizer, como se adivinha, que desempenha o papel de posto de informação turística. Mas é, em simultâneo, uma pequena e bem apetrechada garrafeira com os vinhos das quintas que in­tegram a rota e oito referências em destaque para prova gratuita. Ao balcão, além de folhe­tos e informação sobre vinhos e quintas, há também o cuidado de saber informar o visi­tante sobre as moradas onde é dado ao vinho o tratamento que este merece. O que faz do Solar um ótimo ponto de partida para provar o Dão a copo. Como em tudo - e o assunto dos vinhos, complexo como é, não constitui exceção -, im­porta saber por onde começar.

EVASÕES RECOMENDA

COMER

DUX PALACE
Rua Paulo Emílio, 12
Tel.: 963004817
Web: duxrestaurante.com
Das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00; sexta e sábado, até às 00h00. Não encerra.
Preço médio: 25 euros

TASQUINHA DA SÉ
Rua Augusto Hilário, 60
Tel.: 232436138
Web: facebotasquinhadase
Das 12h00 às 16h00 e das 18h00 às 23h00; sexta, até às 02h00; sábado, das 12h00 às 02h00. Encerra ao domingo.
Preço médio: 15 euros

BEBER


PALATO WINE HOUSE
Praça D. Duarte, 1
Tel.: 232435081
Web: facebook.com/palatowinehouseviseu
Vinho a copo a partir de 3 euros

SYRAH WINE & GIN
Quinta da Saudade, lote 228, loja R
Tel.: 232395194
Web: facebook.com/syrah.viseu
Das 12h00 às 02h00; sábado, a partir das 15h00. Encerra ao domingo.
Vinho a copo a partir de 2 euros

COMPRAR

CAVE LUSA PREMIUM
Das 17h00 às 02h00; de quinta a sábado, até às 04h00. Encerra ao domingo
Sítio da Manhosa, pav. 2,Ranhados
Tel.: 232458440
Web:cavelusa.pt
Das 09h00 às 19h00; sábado, das 09h30 às 18h30. Encerra ao domingo.

SOLAR DO VINHO DO DÃO
Rua Aristides Sousa Mendes, Parque do Fontelo
Tel.: 232410060
Web: cvrdao.pt
Das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 19h00. Encerra ao domingo.


OUTROS RESTAURANTES AMIGOS DO VINHO

MURALHA DA SÉ
Adro da Sé
Tel.: 232437777
Web: muralhadase.pt
Encerra domingo ao jantar e à segunda.

O FRANGUITO ALGARVIO
Rua D. José da Cruz Moreira Pinto, lote 7
Tel.: 232468018
Web: Facebook: Franguito Algarvio
Não encerra.

SANTA LUZIA
EN2. Tel.: 232459325
Web: restaurante-santaluzia.pt
Encerra à segunda.

CASA AROUQUESA
Empreendimento Bellavista, Repeses
Tel.: 232416174
Web: casaarouquesa.pt
Encerra ao domingo.

MARIA XICA
Rua Chão do Mestre, 23. Tel.: 232435391
Web: facebook.com/maria.xica.viseu
Encerra à segunda.

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