Mãos que conservam
a tradição
Foto: Pedro Correia / Global Imagens
Texto: Marisa Silva Vídeo e edição: Ana Mota
Programação web: Tiago Coelho

 

 

Em tempos, foram mais de 70. Agora somam-se os edifícios em ruína e recordam-se as memórias de uma indústria que já foi a imagem de marca de Matosinhos.

 

Ao lado dos esqueletos, resistem quatro conserveiras: a Ramirez, em Lavra, a Portugal Norte e a Pinhais, no centro de Matosinhos, e a La Gondola, em Perafita. Em 2016, com as limitações à pesca da sardinha, reinventaram-se e apostaram em novos produtos. Umas conservaram o método artesanal, outras permitiram a entrada de máquinas. Foram salvas pelo mercado internacional, adepto da sardinha em lata portuguesa.

 

A exportação, sem exceção, absorve mais de 50% da produção. Quem por lá trabalha relembra, com saudade, capítulos dos quatro livros que continuam, com mais ou menos esforço, a escrever história.

Foto: Ivo Martins / Global Imagens
Ramirez
Uma fábrica de gerações
Foto: Arquivo Ramirez

1853
Nasce em Vila Real de Santo António, no Algarve, a primeira e mais antiga conserveira a laborar em Portugal. Criada por Sebástian Ramirez, a fábrica dedicava-se à salga do peixe. De Vila Real passou por Olhão, Albufeira, Setúbal e Peniche, até se instalar, em 1940, em Leça da Palmeira.

 

Atualmente, 55% da produção é destinada ao mercado internacional.



1973
Pelo colo de Idalina Araújo já passaram centenas de crianças. Aos 19 anos tornou-se coordenadora da creche da Ramirez. Além das duas filhas, dos quatro netos e do sobrinho, criou Manuel Ramirez, a 5ª geração da família. Uns sairam da creche e ficaram a trabalhar na fábrica. Outros procuraram um futuro melhor.



1985
Helena Pala estreou-se na conserveira quando o método era ainda artesanal.

Com a robotização da cravação, do embalamento e da extração das entranhas, trabalhar o peixe tornou-se mais fácil. Ainda assim, depois de cozido, há que aparar, tirar a pele e colocar na lata. De meia em meia hora, 30 embalagens têm de estar prontas para seguir.



Com 14 anos, Rosária Pala seguiu as pisadas da irmã. As dificuldades económicas de um agregado familiar numeroso levara-na à indústria. Começou por trabalhar na praia, a encher os camiões com o peixe que chegava do mar. O trabalho, confessa, era duro.



1990
A filha de Helena Pala, Ana João Santos, entra para a creche, onde permanece até aos seis anos. “Foi a tia Lina que me criou”, diz, com orgulho. As memórias são muitas. Desde brincadeiras na sala, às tentativas de fuga para ir ao encontro das mulheres que estavam na fábrica.


2011
O sonho passava por ser cabeleireira, mas o destino trocou-lhe as voltas. Aos 21 anos, Ana João Santos voltou à Ramirez. Desta vez, para trabalhar. Os 200 euros euros que dava pelo infantário de cada um dos dois filhos, “fazia-lhe diferença” e as dificuldades financeiras da loja de congelados onde estava empregada levaram-na a juntar-se à mãe e à tia na linha de produção.



2015
A conserveira é novamente deslocalizada e passa a estar sediada na freguesia de Lavra, em Matosinhos. Com o investimento de 18 milhões, a mais antiga empresa do setor passa a ser simultaneamente a fábrica mais moderna a laborar.

2016
No desemprego, Daniel Santos, marido de Ana João, juntou-se à esposa, à tia e à sogra na Ramirez. É responsável por congelar o peixe e por descarregar e carregar as carrinhas.

Foto: Pedro Correia / Global Imagens
Pinhais
De Matosinhos para a Áustria
Foto: Arquivo Ramirez



1920
A primeira fábrica Pinhais nasce na Avenida Serpa Pinto, dedicada à conserva da sardinha, do carapau e da cavala. Seis anos depois, a conserveira muda de instalações e passa para a Avenida Menéres.

 

Atualmente, o mercado externo absorve 90% da produção. Em Portugal, as latas são apenas comercializadas em lojas gourmet.



1969
Na idade da reforma, Laurinda Silva olha para trás com saudade. Entrou na Pinhais há 49 anos. Era a “menina das redes” e prestava auxílio às “mulheres mais velhas” que trabalhavam a matéria-prima. A mãe também por lá passou, até adoecer e morrer com tuberculose. Desses tempos guarda a memória “de um patrão bom” que, todos os meses, “dava 20 escudos aos empregados que já não conseguiam trabalhar”.


2016
As limitações à pesca da sardinha e a quebras nas vendas, levaram a Pinhais a atravessar, no final de 2016, um período de aperto financeiro, marcado por protestos laborais, devido a três meses de salários em atraso. A crise foi ultrapassada com uma nova gerência. Um cliente austríaco comprou a conserveira, mantendo os métodos artesanais na produção e embalamento do peixe.


2017
Mónica Heitor concluiu o nono ano e um curso como assistente administrativa. O desemprego conduziu-a à fábrica, mas o sonho mantém-se. No futuro gostava de trabalhar num escritório ou ser maquilhadora profissional.
Foto: André Rolo / Global Imagens
La Gondola
Sardinhas que são como o vinho do Porto


1940
Fundada por italianos em Matosinhos, a La Gondola mudou duas vezes de instalações. A primeira nos anos 80 e a última na década de 90, onde permanece até aos dias de hoje. Dez anos mais tarde, Fausto Cântara entra na fábrica como gerente e é-lhe dada a oportunidade de adquirir a La Gondola. Em 1980, a empresa passou do pai para o filho, Paulo Dias.


1980
Aos 73 anos, Maria Cidália Pinho continua a picar o ponto na La Gondola. A reforma não a parou. Aprendeu a trabalhar o peixe na Algarve Exportador, quando “ainda era uma menina”. Fê-lo para ajudar a mãe a criar os oito irmãos. Aos 24, trocou a conserveira por um posto no centro de tratamento do leite. Anos mais tarde entrou na La Gondola. Ali, garante, o trabalho dá-lhe vida.


1994
Aos 15 anos, Zulmira Freitas preferiu as conservas à confecção têxtil. Passou por três conserveiras e assistiu ao declínio de duas: a “Rainha do Sado” e a “Maria Elisabete”. Além de décadas de experiência, traz consigo as memórias do antigamente, quando se amanhava o peixe pela noite dentro e os ordenados compensavam o esforço.
Foto: André Rolo / Global Imagens
Portugal Norte
História escreve-se com sotaque brasileiro
Foto: Arquivo Portugal Norte



1912
A família Nero instala em Sesimbra a primeira fábrica da Portugal Norte, na altura conhecida como "Nero & Companhia, Lda". Anos mais tarde, a conserveira acaba por ser deslocalizada para Matosinhos, onde o peixe abundava. Cerca de 70% da produção é destinada à exportação.


1960
Rodrigo Faustino Souza foi o último a passar pela creche da fábrica. A falta de crianças ditou o seu encerramento em 1997. Da infância guarda memórias das brincadeiras nos corredores e do tempo passado a observar as mulheres enquanto amanhavam o peixe. Há um ano, juntou-se aos pais na direção da empresa.
Foto: Arquivo Portugal Norte


1969
A mesma carrinha que ia buscar o peixe e entregar mercadorias, servia de transporte para as mulheres na Portugal Norte. E Rosa Maria Rego deslocava-se nela. Agora têm um autocarro que passa às 7 horas, em Vila Chã, onde vive. Há 48 anos que o dia começa cedo e a rotina é sempre a mesma. Ao todo são quatro. Por vezes, aproveitam para descansar.


1971
As mãos calejadas são a consequência de 46 anos a trabalhar o peixe. Tempos que, para Fernanda Almeida, deixaram saudade. Com 60 anos, já não trabalha a matéria-prima. Passa o dia em pé, a manusear a máquina que grava o tampo na lata.


1989
Depois de um período de crise que quase ditou o fecho da fábrica, a história da Portugal Norte recomeçou a escrever-se com sotaque brasileiro. Natural de Matosinhos António Faustino, emigrou para o Brasil muito jovem. Com o bichinho da pesca no sangue, regressou a Portugal e investiu no negócio das conservas que, atualmente, é gerido pela filha, Marilúcia Faustino Souza.