“O caminho
é a vida”
Têm bolhas nos pés. Muitos quilos às costas. Os olhos atentos à procura de cada seta amarela que lhes aparece na esquina. São peregrinos, a caminho de Santiago de Compostela. Se é difícil? Todos dizem que sim. O sorriso no rosto deixa adivinhar que acreditam que vale a pena. Seguimos a viagem, pelos pés de quem caminha.
Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens
Etapa 1 | Porto
O trilho
das areias
Passam cada vez mais peregrinos pela beira-mar. Uma alternativa ao caminho original. Aproveitam a brisa e uma pausa para mergulhar. Vemos as mochilas de um casal holandês, Herman Bolten e Cecilia Vyn, junto à praia da Memória, em Leça da Palmeira, Matosinhos. Ele é ator. Ela já se reformou. Não são religiosos e decidiram seguir caminho junto ao Atlântico para encontrar tempo a dois e “abrandar na vida”.

15 minutos a pé mais à frente, a mochila em passo apressado é agora a de Peggy Robler. Uma jovem alemã, de 19 anos. Vive em Jena. Soube do caminho português por causa de um artigo na internet e decidiu trocar as férias na praia, a olhar para quem passa, por uma viagem a solo que deixou os amigos a dizerem que “estava louca”. Vai caminhar 12 dias.
Muitos dos que fazem a primeira etapa junto ao mar acabam por passar a noite no Albergue S.Tiago de Labruge. Aqui cada peregrino deixa o dinheiro que quiser, como donativo. André Araújo, presidente da junta, diz que a recuperação da escola primária, que estava a degradar-se, não poderia ser mais justificada: “até ao próximo ano, do Jubileu, estima-se que 40 mil pessoas façam o caminho pela beira-mar”.

André entregou uma das chaves do Albergue à vizinha cabeleireira. Betty (como chamam os amigos a Elisabete Santos) nasceu na África do Sul. Entre um penteado e outro lá vai abrir a porta a quem chega. Usa o inglês e a energia para dar as boas-vindas a quem só quer um banho e uma cama. É o caso de Paul Eyles, um inglês com quase 70 anos que trocou a travessia dos Pirinéus pelo Caminho Português de Santiago. Tudo por causa de uma greve dos controladores aéreos franceses que o colocaram na rota do Atlântico em direção à Galiza. Começou o caminho em Lisboa.
Foto: Rui Oliveira / Global Imagens
Etapa 2 | Pedra Furada
Um caminho de significados
Vanda Saggiocoto, uma enfermeira italiana de 56 anos, está a falar ao telemóvel com a filha, que estuda no Mónaco. Decidiu caminhar durante 20 dias. Sozinha? “Estar sozinha é uma ideia”. Diz-nos que encontra significado nas pequenas coisas, “não nas grandes”. Parou para tirar algumas fotografias junto à Pedra Furada, em Barcelos. Reza a lenda que a dita pedra serviu de tampa à sepultura de Santa Leocádia, que foi enterrada vida. Serve agora de cenário à passagem de Vanda que regressa ao caminho para encontrar “os mesmos altos e baixos que existem na vida”.

É junto a esse tesouro histórico que nos cruzamos com dois amigos de São João da Madeira. Sílvio e Ricardo adoram o BTT e fazem o caminho de Santiago em bicicleta para descobrir as riquezas de um país que muitas vezes escapam a quem nele vive.
Foto: Rui Ferreira / Global Imagens
Etapa 3 | Serra da Labruja
Do alto
da montanha
Chegam ofegantes ao cimo da Serra da Labruja, entre Ponte de Lima e Rubiães. Estes são para muitos dos peregrinos os quilómetros mais difíceis de todo o percurso. A montanha íngreme, cheia de pedregulhos, obriga quem vai de bicicleta a descer dela e aos menos preparados a parar por diversas vezes. Uma subida desafiante até ao cume.

Sentadas num pedregulho, no topo da serra, duas italianas descansam. Francesca Gennari e Laura Lipparoni têm 38 anos e são amigas. No Natal, Laura ofereceu uma mochila a Francesca e disse-lhe “Vamos! Eu vou contigo”. Estão no quarto e “difícil” dia, de 12 que vão passar juntas a caminhar. Ficam a descansar enquanto apontam para a cidade de Ponte de Lima que fica lá em baixo, junto ao rio. Enquanto ganham coragem para recomeçar veem chegar dois espanhóis com quem já se tinham cruzado. Nas t-shirts suadas que vestem os homens têm escrito: “Andar Cansa”. Carregaram as bicicletas serra acima, à força de braços. Miguel Gran e Paco Martin trabalham na Ford, em Valência, Espanha.

Juntam-se à conversa com Maaike Noorman, uma jovem estudante holandesa de 21 anos, que ouviu nos albergues as palavras certas para ter coragem para seguir em frente. Tinha “problemas em casa” e decidiu sair sozinha à aventura para voltar a “cuidar do corpo”. Confessa-nos que sentiu medo na primeira etapa e que se surpreendeu com a capacidade de superação, que até então desconhecia ter.
Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens
Etapa 4 | Padrón
Falta pouco. Vamos passear
Peregrinos ou simples caminhantes. Com devoção religiosa ou provocação física. Esperamos junto à ponte do rio Sar e eis que os vemos! O passo é de quem está a conhecer a cidade de Padrón. A longa mochila às costas parece nada pesar enquanto esticam o braço para tirar mais uma fotografia. Já passaram a fronteira. Esta é para quase todos a última noite antes de se apresentarem junto à Catedral de Santiago. A penúltima etapa, “sem cumprir tempos”. Passeiam-se apenas. Os caminhos de Santiago não são para bater recordes. Fazem-se ao ritmo melancólico das paisagens por onde se atravessam.

Num banco de jardim, junto ao Paseo del Espolon, em Padrón, Galiza, estão sentados mãe e filho. Norte-americanos, de Rhode Island. Viajaram até ao Porto para daí iniciarem o Caminho Português até Compostela. Atravessaram um Oceano. São judeus. E sim, são peregrinos. A mãe, Carol, é médica, o filho Sam, estuda ainda. Não se lembravam de ter tanto tempo para passar um com o outro.

O banco onde recuperam o fôlego fica a poucos metros de distância de Patrick McLoughlin. Um irlandês que disse à família que ia passar férias de Verão. Vive em Limerick e está pela primeira vez na vida a descobrir a beleza, o património e a cultura da Península Ibérica. Patrick guarda religiosamente dezenas de fotografias que quer mostrar à família e aos amigos.
Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens
Etapa 5 | Santiago
A chegada é importante... mas o caminho!
Erguem os braços e, sinal da evolução dos tempos, sacam dos telemóveis, fotografam e gravam os últimos passos da peregrinação. Confundem-se com os milhares de turistas que se sentam na Praça do Obradoiro, (só as mochilas e a cara queimada pelo sol os denuncia) a apreciar a vista de uma Catedral que tem parte da fachada coberta de andaimes. Suados, com botas cheias de pó e um alívio que espelha a emoção e o orgulho por terem conseguido chegar ao destino.

O ponto final, a meta, deixa uma sensação de “felicidade”.

Na altura de fazer o balanço da longa jornada destacam o percurso. Esses longos quilómetros em que partilharam a água, as lágrimas e os mapas. Afinal, Santiago é para os peregrinos que encontramos apenas um ponto na rota, o último troço de “tantos caminhos que ainda estamos a preparar, talvez para o ano”.

Mostram triunfalmente as cadernetas, onde receberam o último carimbo da passagem. Uma espécie de consagração sagrada em formato de livrete, de quem já só quer vestir roupa lavada e sentar-se numa esplanada. Se voltavam a fazê-lo? Não hesitam e dizem-nos que sim.
Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens
Reportagem: Joana Almeida Silva e Carlos Oliveira
Texto: Joana Almeida Silva
Vídeo e edição: Carlos Oliveira
Design e programação: Tiago Coelho