Quintas do Dão
Vinhos de Viseu
Vinhos do Dão
Começou em Viseu a Festa das Vindimas, na qual todos são convidados a visitar as quintas onde se produzem os vinhos do Dão. Sem a majestade do Douro nem a extensão do Alentejo, o Dão é um tesouro por descobrir.
Quinta da Pedra Cancela
O vinho que também faz ciência

A adega de João Paulo Gouveia, onde as uvas da Quinta do Vale do Dão se transformam nos vinhos Pedra Cancela é uma pequena universidade. Entre as cubas no piso térreo e no laboratório, no piso superior, circulam jovens investigadores em ciências agrónomas ou alimentares. São do Porto, de Lisboa, ali de Viseu, e um deles é brasileiro de Florianópolis. No frigorífico do laboratório, há sacos com uvas e mosto congelado para experiências. Nas bancadas, há microscópios e balões de vidro com líquidos verdes e castanhos.

João Paulo, agrónomo e professor de Viticultura no Instituto Politécnico de Viseu, adora que nas suas vinhas e na sua adega se faça, ao mesmo tempo, vinho e ciência. Explica a vinificação com um prazer caloroso, usando expressões como sobrenadante, óptimo de maturação. O seu lagar com pisador automático é um robô que ele mesmo ajudou a inventar. “Foi uma solução de engenharia para a enologia e nós participamos no protótipo, este foi provavelmente o primeiro lagar com esta tecnologia em Portugal”, refere.

No laboratório, um aparelho chamado espectrofotómetro permite medir os parâmetros de qualidade de amostras do vinho. Não há como imaginar tal sofisticação quando se chega ao edifício da adega, uma banal construção de tectos altos e porta ampla de correr, sem mais ambição arquitectónica do que a funcionalidade. Depois de conhecer João Paulo, que trocou no ano passado o ensino pelo lugar de vereador na Câmara de Viseu, percebe-se que o desdém pela forma está diluído na extrema paixão pelo conteúdo.

O enólogo gosta de explicar tudo, desde as rotinas de limpeza do impecável chão cor de vinho até àquilo que o nosso paladar deve procurar no mosto. Numa das cubas, o mosto branco das castas encruzado e malvasia começou a sua decantação e está um fresco e doce sumo de uva. Para João Paulo, está muito mais do que isso, demora-se a saborear o líquido e termina satisfeito. “O mosto tem que ser fino, fino, fino, não pode ter um resquício de nada”, avalia, antecipando um vinho elegante.

O passeio pelas vinhas é como circular num jardim ordenado, com vista para colinas e outras quintas. Num dos campos, está o grande penedo que deu nome à quinta, a pedra que separava as freguesias de Silgueiros e Oliveira de Barreiros – a Pedra Cancela. Embora criado numa família de viticultores, só produziu o primeiro vinho próprio com o pai, há 15 anos, quando se formou. Renovou as vinhas, introduziu tecnologias na produção, construiu a nova adega da raíz. Nunca deixa de ser professor: enquanto prova as uvas, explica como se analisa um cacho, como se monda, como se avalia a qualidade de uma película e ou se determina o grau de maturação da graínha. Uma aula cheia de sabor.


A saber

A quinta tem 14 hectares, sendo 10 deles de vinha. Tem 5 hectares de vinha em produção sustentável, que dão origem ao vinho Pedra Cancela eco-friendly. Produz brancos e tintos Quinta de Pedra Cancela, em várias gamas, sendo que os vinhos premium também são engarrafados em garrafas de 1,5 litros. O vinho topo de gama é o Pedra Cancela Signatura, lançado apenas em anos de colheita primot, com edição limitada.


“Vamos buscar a cada casta o que ela tem de melhor e nas devidas proporções” João Paulo Gouveia

Quinta de Reis
Vinho na melhor companhia

Não é preciso gostar de vinho para valer a pena fazer uma visita à Quinta de Reis, embora conhecer a história bonita do lugar dê vontade de brindar a ele. Mesmo assim, basta gostar de conversar – o proprietário, um médico de 70 anos que se tornou enólogo depois de se reformar, é um conversador tranquilo e amável. O Doutor Reis, assim toda a gente o conhece, vai contando episódios do passado enquanto mostra as vinhas, as oliveiras, o carvalho altíssimo que ali em Silgueiros chamam de “Carvalha” (porque se crê que quando são grandes, os carvalhos se tornam fêmeas), a charmosa casa restaurada que está prestes a iniciar-se no turismo rural, a adega que renovou e o velhíssimo alambique que vai restaurar.

“Comprei a quinta em 2003, estava abandonada e refi-la como gostaria que ficasse. É o meu paraíso hoje”, refere o médico obstetra, que chegou a ser diretor do Hospital de Viseu e, depois de reformado, “quis continuar a fazer nascer alguma coisa”.

A casa que pertenceu aos tios recebeu obras, mas mantém os mais belos vestígios do seu passado. Uma das entradas ainda se chama “a porta da escola”, porque parte da moradia foi construída para servir de sala de aula às meninas da aldeia, sendo a professora delas, durante quase 30 anos, a tia de Jorge Reis. Serviu ainda de abrigo a reuniões de conspiradores do regime. “O meu tio era um conhecido republicano, democrata, e faziam-se reuniões secretas, no tempo da ditadura. Toda a gente na aldeia se lembra que o meu tio hasteava a bandeira nacional todos os 5 de outubro na varanda da casa”, conta Jorge Reis.

Em homenagem ao tio Armando Ferreira de Almeida Reis, criou o vinho Homem Bom, feito com as uvas de uma pequena vinha de merlot que ele muito estimava. Nos outros cerca de sete hectares da propriedade, há mais 4,5 hectares de vinha onde marcam predominante presença as castas do Dão Touriga Nacional e o Encruzado. Na gama Quinta de Reis, há um vinho que brilha acima dos colheita, reserva e o monocasta Touriga Nacional – um wine note (uma espécie de “vintage”). Jorge Reis dedica-se também ao olival, cujo azeite de oliveira galega com cheirinho a maçãs dá toda uma conversa. Pergunte-lhe por ele.


A saber

Os vinhos Quinta de Reis absorvem a produção de uma propriedade não contínua, à moda do Dão, de um total de 15 hectares. Faz vinhos com predominância das castas da região, enruzado e touriga nacional, alguns monocasta. Na quinta, as vinhas mais antigas têm 30 anos. Em anos de colheita primor, sai um Quinta de Reis Wine Note. Fez um em 2008 e outro em 2011.


“A ligaçao à terra não se pode explicar, porque se nasceu nisso” Jorge Reis

Quinta da Vinha Paz
Entre as vinhas e o mar

A família Canto Moniz vive entre o perfume do lagar e a maresia, criada entre o Porto e Viseu, há várias gerações. O movimento pendular entre a praia e as vinhas promete continuar – Henrique, 40 anos, representa a quinta geração da família a fazer vinho e é professor de surf, com um passado de campeão e presença na selecção nacional. Anda a trabalhar num projecto de turismo que assenta precisamente nessa ligação e, enquanto isso, vai levando os vinhos Vinha Paz pelo mundo, ao lado da prancha de surf.

Os vinhos chamam-se Vinha Paz em homenagem à avó de Henrique, Maria da Paz Othon, uma descendente de normandos, que também faziam vinho. A adega onde nascem os vinhos é do tempo dela, e talvez dos seus avós. Tem 150 anos e os mais jovens Canto Moniz modernizaram as cubas, mas por fora está tudo igual – uma frescura de pedra e madeira. Henrique insiste em manter a tradição da pisa a pé e nenhum dos vinhos ali produzidos conhece outro tratamento que não os dos pés humanos. “Começamos a fazer pisa a pé em 2001 e os vinhos começaram a ter sucesso. Acho que a pisa a pé dá mais elegância e frescura ao vinho e é isso que tentamos vender aqui no Dão, e não concentração”, refere Henrique.

A quinta não foge à tradição de pequena e média propriedade d região e os cerca de 30 mil litros produzidos permitem manter o método antigo. O pai de Henrique trabalhou como médico oncologista e professor na Faculdade de Medicina do Porto. Desde criança que passava os verões ali em Silgueiros, Viseu, brincando com os primos às vindimas. Casado e pai de quatro filhos, continuou a levá-los sempre à aldeia. Um dia, perto do ocaso da sua carreira de clínico, pediu ao pai como se fosse um menino: “Perguntei-lhe, pai, ensina-me a fazer vinho? E ele respondeu: está bem, talvez para o ano”.

António Canto Moniz tem agora 71 anos e aprendeu. “O meu pai estava-se a reformar e foi um prazer para ele ensinar-me”. Ele e os seus cinco irmãos vivem todos ali nas redondezas. Uma das suas irmãs, com mais de 70 anos, é conhecida por ser uma viticultora aguerrida, uma amazona do tractor a lidar as vinhas. Na acolhedora casa restaurada dos Canto Moniz, recebem-se às vezes clientes e há um pacificador cenário de família, com muitos brinquedos coloridos encostados a um canto, livros e chapéus pelas mesas. Um lugar que os visitantes da Festa das Vindimas vão poder descobrir.


A saber

A quinta mãe tem 8 hectares de vinha, dos quais três são produzidas em modo biológico. Na gama Vinha Paz, são usadas as castas típicas do Dão (touriga nacional, alfrocheiro, tinta roriz e jaen, nos tintos; encruzado e malvasia, nos brancos). Na gama da Vinha Paz, há um vinho especial, o Othon, produzido a partir das vinhas velhas.


“A minha paixão é pela terra, o vinho faz parte da terra” António Canto Moniz

Quinta de Lemos
Um colosso a fazer vinhos de luxo

No Dão, a Quinta de Lemos é um transatlântico, um avião jumbo. Na região de pequenas propriedades, uma quinta de 50 hectares de área e 25 hectares de vinhas, que se estendem diante dos olhos como um tapete verde para lá da linha do horizonte, é um colosso vinhateiro. A explicação existe e chama-se ter dinheiro para realizar os sonhos. Celso Lemos, um magnata do têxtil, natural de Viseu, decidiu investir numa quinta moderna para fazer vinhos para o segmento de luxo. Construiu de raíz uma adega moderna que funciona por gravidade, com projecto de arquitectura inovador, e ainda um pequeno hotel para os clientes e um restaurante que se celebrizou e passou a abrir aos fins-de-semana, por reserva.

Celso Lemos fundou o grupo Abyss & Habidecor, que produz roupa de banho famosa em todo o mundo, usada por celebridades e presente em hóteis de luxo. É o enólogo da Quinta de Lemos, Hugo Chaves, quem nos apresenta o projecto onde trabalha desde o início. Além da vinha, há ainda 8 hectares de olival novo a entrar em produção daqui a dois anos e floresta. Fugindo da tradição do Dão, que é de blends, a Quinta de Lemos aposta principalmente em vinhos monocasta das castas regionais – touriga nacional, alfrocheiro, tinta roriz e jaen. Apesar de grande área de vinha, a produção é de 100 mil garrafas por ano. “É uma questão de filosofia. Podíamos produzir meio milhão de garrafas com a vinha que temos, mas produzimos apenas em favor da qualidade”, explicou Hugo Chaves.

O projecto começou em 1997, com a restruturação da quinta, da vinha e a construção dos dois edifícios. Os primeiros vinhos foram engarrafados em 2005 e saíram para o mercado em 2010. No enorme edifício de linhas direitas onde fica o escritório, sala de provas e a adega, estão em exibição as garrafas da gama Quinta de Lemos. Garrafas pretas, com rótulos de design minimalista com o logotipo da marca, uma flor de traços simples, em rosa, dourado e prateado.

São garrafas que imaginamos as mulheres vestidas com alta costura da série “O sexo e a cidade”, ter sobre a mesa num restaurante chique de Manhattan. E é provável que algo semelhante aconteça, todos os dias: os vinhos Quinta de Lemos vendem-se para restaurantes de luxo de Nova Iorque e Londres, e para outros mercados internacionais, na Europa e ainda em Angola.


A saber

Além dos monocasta, a Quinta de Lemos produz alguns blends, aos quais deu o nome das senhoras da família: D Georgina, D. Santana, D. Louise e apenas um branco, o D. Paulette. O conceito de viticultura é para criar vinhos premium, desde a monda rigorosa até ao design cuidado das caixas de madeira onde vão todas as garrafas.


“Trabalhamos o ano inteiro na vinha para fazer uvas de grande qualidade” Hugo Chaves

Quinta de Turquide
O solitário com boa estrela

Nuno Matos ganhou o gosto pela vinha de pequeno, quando andava com o avô na Quinta da Turquide, em S. João de Lourosa, Silgueiros. “Foi por andar aqui, quando era mais catraio, naquelas brincadeiras com o tractor. Depois uma pessoa começa a gostar de produzir, de colher e fui para agronomia”, conta o homem que, na quinta, faz tudo. Trata da vinhas, dos pomares de macieiras, seguido pela Bichana, uma gata de comportamento canino, e tem uma postura que vai no sentido contrário da tendência de criar marcas e mais marcas de Dão.

“A abundância de marcas no Dão não permite um bom resultado, a mais valia não é assim tanta por engarrafar”, explica Nuno Matos, que prefere fazer uvas de grande qualidade para que outros trabalhem bons vinhos. “Com uma dimensão destas, não tenho estrutura nem dimensão para estar representado na grande distribuição, o que se calhar até nem interessa muito, nem tenho dimensão para exportação. O mal do Dão é a falta de associação, deviam juntar-se três ou quatro produtores de quintas que façam bons vinhos para irem todos à conquista do mercado”, refere o agrónomo.

Nuno comercializa vinho em box, mas não criou marca própria. O que não significa que a sua viticultura não brilhe – brilha, e muito. Dois amigos enólogos, Nuno do Ó e João Corrêa, pegaram nas suas uvas da sua vinha velha de encruzado e fizeram um vinho de alto gabarito, o Druída. Um vinho de edição limitada, que os apreciadores receberam com grande entusiasmo e excelentes críticas.

Quando herdou a quinta do pai, reconverteu vinhas, plantou pomares de maçã vermelha, golden e royal gala. Plantou a sua primeira vinha em 1991, de uma das castas nobres do Dão, o tal encruzado cuja alquimia faz depois o especial Druída. “Na altura, o branco no Dão era um produto mal amado, mas não sei por que carga de água deu-me para fazer encruzado”, diz. Em boa hora o fez. O Dão pode não ter as paisagens vitícolas do Douro ou do Alentejo, sublinha Nuno, mas também tem consegue fazer os seus néctares dos deuses.


A saber

A Quinta da Turquide está na mesma família há mais de 80 anos e Nuno Matos é a terceira geração de agricultores. Tem 7,5 hectares e, na vinha, mais de 50% é da casta touriga nacional. São da Turquide as uvas encruzado do exclusivo Druída branco.


“Aqui não se vêem vinhas, por isso as pessoas não associam o Dão a vinho” Nuno Matos

Quinta da Falorca
O financeiro e o contador de histórias

Cinco gerações a fazer vinho e, agora, a quarta e a quinta a trabalhar juntas. Está neste ponto genealógico a Quinta de Vale Escadinhas, de onde saem os vinhos Quinta da Falorca – o segundo nome pertence a uma das vinhas e, por ser mais fácil de dizer, dá titularidade aos rótulos. A Falorca são os Figueiredo, pai e filho: Carlos, de 78 anos, e Pedro de 48 anos. O pai sempre viveu e trabalhou nas vinhas, mas Pedro estudou Gestão em Lisboa e fez uma carreira na área financeira, em grandes empresas, até decidir trocar tudo pelo regresso ao berço, assumindo a direção comercial da empresa familiar. “Um citadino de uma cidade pequena dificimente se aguenta numa cidade grande”, refere Pedro.

Pai e filho requalificaram vinhas, construíram a adega, criaram uma gama de vinhos que Pedro depois viaja para levar a vários países do mundo. O primeiro vinho, o Palha Malhada, nasceu no ano em que nasceram os seis filhos trigémeos de 14 anos, em 1999. “Nunca pensei vir para o vinho, depois de sempre ter trabalhado na área financeira”, conta Pedro, que ao sair da General Electric para regressar a Viseu, teve como contraproposta a direção regional da empresa. E assim foi, durante alguns anos.

Até 1999, o vinho vendia-se a granel para a adega cooperativa de Silgueiros, que Carlos Figueiredo chegou a dirigir. A partir daí, engarrafaram sempre. “Há uma valorização do património com uma marca da vinha. Acrescentei valor ao nosso património vitícola, mas também criei valor para a produção e para o maneio da terra”, refere Pedro. O mercado estrangeiro absorve 70% dos vinhos Quinta da Falorca.

E se Pedro gosta de falar em produção, valor acrescentado e marcas; Carlos gosta é de contar histórias. Descreve o flagelo da filoxera que chegou ao Dão depois de ter devastado o Douro e de como os agricultores se solidarizaram para replantar. O avô dele conseguiu os bacelos de um bravo americano, para enxertia, do homem poderoso da terra, o Conde de Santar, que dava a quem depois também desse uns pés ao seu vizinho. “A replantação foi uma nova fase do Dão”, sublinha Carlos que é, como muitos que viveram a transição para o Dão de fama internacional, uma parte do terroir.


A saber

Na Falorca, há 13 hectares de vinha e 12 hectares de pinhal. Têm vinhos com as castas tradicionais do Dão, incluindo o Touriga Nacional monocasta – o T-NAC – que é a jóia da coroa. Fazem um vinho com estágio em barrica e outro sem estágio. Têm um vinho Garrafeira (a sua gama mais alta) que é feito ainda na adega antida, na aldeia.


“Procuro fazer marcas porque isso dá muito valor ao vinho” Pedro Figueiredo

Reportagem:Dora Mota Fotos e vídeos:Raquel Teixeira Desgin e Programação web:Tiago Coelho