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Emílio,o palhaÇo
mais antigo
de Portugal

TEXTO Ana Tulha
FOTOS António Pedro Santos/Global Imagens
VÍDEO Catarina Cruz

 

Fazer rir
para enganar
as lágrimas

TEXTO Ana Tulha
FOTOS António Pedro Santos/Global Imagens
VÍDEO Catarina Cruz

Emílio Mariani tem 76 anos e é o palhaço português que mais anos de atividade tem. Já deu a volta ao mundo, já se fez rico e já bateu no fundo, quando diagnosticaram à esposa uma doença incurável. Quase 50 anos depois, a história de amor deles resiste, tanto como o dom para fazer rir. Mesmo que limpe as lágrimas pouco antes de entrar palco.

 

Nos bastidores do Circo Chen, estacionado no Parque da Bela Vista, em Lisboa, a cadeira amarela há muito tem dono. É lá que, antes de cada espetáculo, se senta o palhaço mais antigo de Portugal. “Para acalmar as minhas penas”, diz. Emílio Mariani tem setenta anos de circo, mais seis de idade, mas não escapa aos nervos. “Tenho cada vez mais”.

Abraça a responsabilidade de fazer rir com o empenho de uma missão de vida. Nos bolsos, traz uma vontade insaciável de fazer o público feliz, no coração o som das gargalhadas arrancadas ao longo das décadas. Mesmo que a vida tenha sido madrasta e que carregue em permanência a dor de ver a mulher, de quem continua a tratar com duas mãos cheias de amor, acamada há anos.

No Natal, Emílio Mariani regressa à vida de circo, que o vai resgatando à melancolia

A carreira, essa, foi-lhe traçada à nascença. Filho de circenses, nascido debaixo da bancada de um pequeno circo, em Couço (concelho de Coruche), a vida na pista desenhou-se mais por lógica que por vontade férrea. “Aos quatro anos, já trabalhava como saltimbanco, nos largos. Tocava viola”, lembra, num sorriso que atesta o orgulho de uma vida cheia.

O circo não tardou a chegar. Aos seis anos, era vê-lo a ser, de uma assentada, trapezista, contorcionista e palhaço. Os quatro irmãos também andavam por lá, todos discípulos do mesmo mestre. “Era o meu pai que nos ensinava”, recorda. E foi pela mão dele que, perto de uma década depois, chegou o convite que rasgou horizontes.

“Nessa altura, recebemos o nosso primeiro contrato. Fomos para Inglaterra ganhar 60 libras por semana e dez bastavam para comer. Era muito dinheiro na altura”, lembra. E a epopeia só estava a começar. “Andámos sempre juntos, em toda a Europa, a viver em caravanas.”

O amor à primeira vista

Até que, numa das milhentas paragens, o coração disparou. Aconteceu em Espanha, tinha ele 25 anos. E a “arritmia” teve um nome: Oranda, a mulher a quem haveria de dedicar o resto da vida. “Foi amor à primeira vista”, garante. O casamento, consumado três meses depois, dava-lhe razão. 

"Corremos o mundo com aquilo e ganhámos muito dinheiro"

Primeiro,  a jovem norte-americana que deslumbrava pelos olhos azuis e a inteligência juntou-se à família de Emílio. “Mas, depois, o dinheiro já mal chegava para todos”. E foi então que partiram juntos para uma nova aventura. “Tínhamos um número cómico. A minha mulher era malabarista e eu fazia de palhaço bêbedo. Foi um sucesso muito grande. Corremos o mundo com aquilo e ganhámos muito dinheiro. Era uma época muito boa para o circo”, explica.

Para o circo e para Emílio, que, por esta altura, vivia os dias mais folgados em quase 80 anos de vida. “Passados três anos, já tínhamos comprado duas vivendas e um restaurante”. Pelo meio, tiveram dos filhos e o à-vontade financeiro era tanto que, a meio da década de 80, optaram por guardar o circo na prateleira para que os catraios pudessem estudar.

A pior das notícias

No restaurante do casal, em Espanha, aquele tinha tudo para ser um dia como outro qualquer. Mas foi diferente, para muito pior. Oranda sentiu-se mal e, com o diagnóstico, veio uma notícia que mudou tudo. Aos 41 anos, a senhora Mariani soube que ia ter de viver o resto dos seus dias com esclerose múltipla. Por instantes, a angústia daquela notícia parece voltar a apoderar-se de Emílio, à medida que, no interior da pequena caravana, desbobina o filme de uma vida. Mesmo que, desde então, tenham passado quase 30 anos.

A filha, Chris, de 37 anos,  sente-lhe a dor, mesmo sem precisar de olhar, e toma a palavra. “Na altura, disseram-nos que ela tinha cinco anos de vida. Foi um choque muito grande. A partir daí, o meu pai já não quis saber de mais nada. Vendeu tudo e foi à ruína. A minha mãe era o pilar da casa”. “Eu não gosto de dinheiro. Nunca gostei”, justifica o pai.

Só que claro, precisava dele. E, por isso, durante três anos, ainda trabalhou num bar. Mas mal dava para viver. E foi então que o circo, sempre o circo, lhe reentrou pela vida adentro, para o resgatar à miséria e lhe devolver o sorriso. Ao lado dos dois filhos, primeiro, depois só com Chris como parceira, voltou a arrancar gargalhadas pela Europa fora. Mesmo que a mágoa os continuasse a minar por dentro.

E os tormentos ainda não tinham acabado por ali. Em 1997, foi o próprio Emílio quem sofreu uma trombose, e logo quando tinha um empréstimo de milhares para liquidar. Mas até aí fez o que melhor sabe fazer quando está na pista – agigantou-se. “O médico disse-me que ia estar um ano e meio incapacitado e só estive três meses. Andei com um cordão a puxar o pé, todos os dias, vários quilómetros, para ir para o fisioterapeuta”.

"Com a ilusão de ir ao circo, passa-me tudo"

Como se não bastasse, Oranda, já com grandes dificuldades de locomoção devido à esclerose múltipla, ainda haveria de sofrer três acidentes vasculares cerebrais, que a deixaram agarrada à cama para o resto da vida. É aqui que entra um dos momentos mais difíceis na carreira do palhaço Emílio. “Quando a minha mãe teve o primeiro AVC, em 2008, disseram-nos que ela já não passava dali e tínhamos espetáculo no dia seguinte. Quem é que faz rir numa situação daquelas, não é? Mas nós fizemos.  Quando se virava de costas, na pista, o meu pai só chorava. Mas depois olhava para a plateia e era o Emílio de sempre”, conta Chris. “Os palhaços também choram, sabe?”, pergunta.

Uma vida que vale por duas

É também por isso que não hesita no veredicto. “A vida no circo é muito intensa. Uma vale por duas”, garante. Só que até os palhaços têm direito à reforma e Emílio “pediu” a dele em 2011, já com mais de 70 anos. Desde então, vive com a mulher, a filha e a neta num casa em Palmela e só volta à vida na caravana pelo Natal. “São dois meses para matar saudades. Com a ilusão de ir ao circo, passa-me tudo”, diz, para explicar porque aceitou o convite de um amigo que guarda há quase 70 anos: Miguel Chen.

Não precisava de dizer. Assim que se começa a preparar, as sombras. Em tronco nu, antes de vestir a camisola de gola alta branca, faz peito para a fotografia, como um jovem orgulhoso do cabedal.  Depois a maquilhagem. Base, pó vermelho, pó talco, lápis preto nos olhos e nas sobrancelhas desenhadas e o palhaço Emílio a ganhar forma.

“Parece que lhe tiram 20 anos de cima”, diz a filha. “Vocês têm muita sorte, sou o palhaço mais bonito que anda por aí”, brinca Emílio, com um sentido de humor renovado. E a transformação prossegue: primeiro as calças pretas, o colete com brilhantes, o casaco vermelho; depois, o apito, o nariz e a peruca selam a metamorfose.

A hora aproxima-se e o palhaço Mariani já mal disfarça o entusiasmo, mas recusa subir à pista sem antes se deitar ao lado da mulher, mãos dadas e o carinho cravado numa imensidão de amor que resistiu ao tempo. “Te quiero mucho”, diz Oranda, a quem a esclerose e os AVC’s quase roubaram a fala. “No me quieres más que yo a ti”, responde o marido.

 “Já prometi a mim mesmo que é o meu último Natal no circo. Sinto-me velho e cansado”, diz, a realidade a querer vergá-lo. Por segundos, a dor do homem leva a melhor sobre a alegria do palhaço. “Gostava muito de morrer ao lado da minha mulher”, confessa, com olhos a rebentar de lágrimas.

Lá fora, a cadeira amarela espera por ele. Até ao momento em que três mil pessoas lhe gastam o nome. “Emílio, Emílio, Emílio”. Os gritos, em uníssono, ecoam pela tenda. E ele lá entra, sorriso bem estampado no rosto e balão na mão. Oferece-o, faz que cai, chama uma espectadora e, quando dá por ele, já se move ao som dos risos alheios. Vestígios das lágrimas que chorou faz pouco, ou doença da mulher que lhe mudou a vida para sempre, nem vê-los. Na pista, não há lugar para a dor.