×

"O último leopardo"

CRÉDITOS
TEXTOS Helena Teixeira da Silva
FOTOS Arquivo/Global Imagens

COORDENAÇÃO
Inês Cardoso e Miguel Conde Coutinho
PROGRAMAÇÃO WEB
Miguel Conde Coutinho

Jornal de Notícias

scroll ↓

II. Ditadura e exílio

 

 

Reza a história que, um dia, João Soares chegou ao Colégio Moderno e encontrou vazio o cofre do dinheiro que usava para pagar aos professores. Não fora um assalto, fora o filho que tivera de fugir, terá dito. É impossível aferir a veracidade do acontecimento, mas é inegável que parte da biografia de Soares é escrita em fuga. 

Na primavera de 1945, Mário Soares tem apenas 20 anos e é já, por influência e caução de Álvaro Cunhal, que conheceu nas aulas de Geografia, um dos mais promissores dirigentes comunistas. Muito mais tarde, quando escreveu as suas memórias, confessou ter acalentado muitas dúvidas relativamente ao comunismo, mas justificou a militância com "a necessidade de ação e as contingências de um combate incerto", que então respondiam ao que era o seu "idealismo político".

Em outubro desse ano nasce o Movimento de Unidade Democrática (MUD), organização política de oposição ao regime salazarista, que reivindica a libertação dos estudantes presos, o fim do saneamento dos professores e eleições livres. Soares é escolhido para representar esse movimento na Comissão Distrital de Lisboa e, mais tarde, na própria Comissão Central. Sobre essa altura, Augusto Abelaira, que haveria de tornar-se romancista, confessou: "Alguns de nós sentíamos que aquele rapaz acabaria primeiro-ministro".

É nessa condição de dirigente que é detido pela primeira de muitas vezes. Da segunda vez, encontra o pai na prisão de Aljube e casa com Maria Barroso. A terceira vez - estão os anos 40 no fim e a guerra fria a começar, com Salazar a engordar o seu poder ditatorial e a proibir os movimentos políticos - acontece depois de ter sido escolhido para secretário da candidatura presidencial do general Norton de Matos. E já então, contra tudo e contra todos, era descrito como sendo o "mais ferrenho dos otimistas", que dorme tão tranquilamente numa cela como num hotel de cinco estrelas.

Soares envolveu-se em várias tentativas de golpe para derrubar o regime

A relação de Soares com o PCP acaba em 1951, com a sua expulsão.  Fica a sabê-lo pelo jornal “Avante”, que o descreve como "oportunista" e como "traidor", por ter recusado integrar o Movimento Democrático Nacional que sucederia ao MUD, e por discordar do essencial das medidas comunistas. Começa então a sua longa travessia no deserto, mas decidido a começar "a pensar pela própria cabeça". Dá aulas, estuda, frequenta tertúlias, vive para a família. Torna-se pai de dois filhos e termina a segunda licenciatura, agora em Direito.

Cerca de cinco ano mais tarde, em 1956, depois da morte de Estaline, líder da União Soviética, e das revelações do XX congresso do Partido Comunista da URSS (violência, deportação, expurgo, limitação à liberdade), e com Cunhal preso desde 1949, os comunistas ainda ensaiam uma aproximação a Soares. Mas é tarde demais. Nessa altura, Soares prepara já a adesão ao Directório Democrático Social, onde ficará até 1964, data da fundação da Acção Socialista Portuguesa (ASP), que criou num hotel de Genebra, na Suíça, e que nove anos volvidos daria lugar ao Partido Socialista (PS).

Pelo meio, em 1958, Mário Soares vive intensamente a campanha presidencial do jovem general da Força Aérea Humberto Delgado contra Américo Tomás, e regressa em pleno ao seu ativismo contra o regime. Nasce aí uma das frases mais célebres da História nacional. A resposta dada pelo cognominado "general sem medo" à pergunta sobre o que faria com Salazar se fosse eleito: "Obviamente, demito-o". Não demitiu. É verdade que houve fraude eleitoral, mas para todos os efeitos perdeu nas urnas. Pediu exílio no Brasil e, quando voltou, foi assassinado.

Soares foi detido diversas vezes nos anos 60

Em certo sentido, Soares segue-lhe o exemplo e volta a envolver-se em várias tentativas de golpe para derrubar o regime, se não mesmo em todas. E  volta a cumprir uma maratona de prisões. Tudo o que defende faz dele alvo de vigia, mas também o torna conhecido no mundo todo. Sobretudo, devido à questão das colónias (assina um Programa para a Democratização da República em que preconiza a nacionalização dos bens) e à defesa, como advogado, contra o assassinato de Delgado. É da mediatização dessa batalha que nasce a sua amizade com o presidente francês François Miterrand.

Em 1965, Soares é preso e é-lhe retirado o dossiê que transportava sobre Humberto Delgado. O mundo reclama, mas o regime não cede. Mais tarde, volta a ser preso por ter ajudado um jornalista do “Sunday Telegraph” a contar o escândalo sexual que abalou o Estado Novo - o Ballet Rose. É libertado em fevereiro de 1968 mas a PIDE proíbe-o de ir para a Madeira com a família e chega mesmo a alugar um quarto ao lado do seu, no segundo destino eleito, o Algarve. Um mês depois, volta a ser preso em Lisboa. É aí que fica a saber que, dessa vez, a detenção terá duração ilimitada. "O senhor, como opositor, acabou. Até nós querermos", disse-lhe o subdiretor da PIDE José Sachetti.

É Marcelo Caetano quem dita o regresso a Portugal, mas Soares acaba exilado novamente

Por decisão do Conselho de Ministros, que repudiava a projeção internacional que Soares ganhara, é deportado para São Tomé, na costa ocidental de África. O povo inunda o aeroporto, quer despedir-se, mas a polícia desmobiliza as pessoas recorrendo à violência.

Isolado do mundo, com todos os empregos boicotados e a correspondência violada, Soares decide começar a escrever as suas memórias. Começa a nascer a obra "Portugal Amordaçado", que refere mais tarde terem sementes lançadas no interrogatório da PIDE em 1942. A esses meses de provas forçadas, "em que fui obrigado a rever, como num ecrã deformado, toda a minha vida política passada, devo a facilidade com que, depois, sem um papel de apontamentos e sem uma nota, poderia vir a escrever o presente livro."

Quase no fim desse ano, em setembro, Mário Soares está no barbeiro quando ouve na rádio que Salazar fora operado a um hematoma craniano. O célebre tombo de uma cadeira no Forte de Santo António do Estoril. Deseja imediatamente regressar a Portugal. Mas onde imaginava alívio percebe que há apenas indiferença. 

É Marcelo Caetano, sucessor de Salazar, quem dita depois o regresso de Soares a Portugal. Chega, em segredo, na madrugada de 9 de novembro de 1968. Mas não demora muito a reunir opositores e ativistas e a escrever um manifesto contra o socialismo totalitário que representava o comunismo.

Nessa altura, Soares é acusado de denunciar comunistas à PIDE e passa a ser, também ele, apelidado de fascista.

"Mandam-me para o exílio porque estão à espera que me transforme num segundo general Delgado"

A primavera esperançosa de Marcelo tem o seu primeiro teste nas eleições para a Assembleia Nacional  de novembro de 1969. Convida Balsemão e Sá Carneiro para integrar as listas mas simultaneamente tenta aproximar-se de Soares. A questão das colónias, no entanto, impossibilita qualquer entendimento. 

foto: Arquivo
Soares quis provar ao mundo que há oposição que não passa pelo PCP

Soares constitui então a Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD) e concorre às eleições. Perde mas prova ao mundo o que queria: que há uma oposição democrática em Portugal que não passa pelo PCP. De pouco serve e acaba novamente exilado. Vai dar a volta ao mundo enquanto, em Portugal, Maria Barroso recebe, pelo correio, balas de quem o acusa de ser traidor. Traição era continuar a denunciar o estado do país na imprensa internacional, onde ganhava cada vez mais importância. A prova disso é o XI congresso da internacional socialista, em 1969, em que é aplaudido de pé durante longos minutos. 

Um ano depois, em julho, a morte do pai fá-lo vir a Portugal sem pedir licença, mas é rapidamente obrigado a ir embora. "Mandam-me para o exílio porque estão à espera que me transforme num segundo general Delgado, no pomo da discórdia entre a Oposição, num indivíduo isolado e nervoso. Farei exatamente o contrário", escreveu.

Em 1972, consegue que a ASP seja admitida na Internacional Socialista. Tenta tréguas com o PCP. "Um esforço e uma concessão", reconhece. Soares e Cunhal encontram-se e acordam sinergias para o combate ao regime fascista. Tenta também recuperar os estudantes, mais esquerdistas do que ele, que fugiram do país por recusarem apodrecer na cadeia ou morrer em África. Alguns deles vão participar na elaboração do programa do Partido Socialista, criado a 19 de abril de 1973, na Alemanha.

OS FUNDADORES DO PS
Linha de cima( da esq para a dir) Fernando Borges, Liberto Cruz, José Neves, Carlos Queixinhas, Jorge Campinos, António Arnaut;
Linha do meio( da esq para a dir) Maria Barroso, José Maria Roque Lino, Rui Mateus, Fernando Valle, Mário Soares, Carlos Carvalho, Francisco Ramos da Costa;
Linha de baixo( da esq para a dir) Fernando Loureiro, Catanho de Menezes, Bernardino Gomes, António Gomes Pereira, Gustavo Soromenho, Lucas do Ó;

Entretanto, em Portugal começam as movimentações do capitães para derrubar o regime. Soares, já considerado secretário geral do PS, está em Bona, na Suíça, quando recebe um telefonema: "Afinal, você tinha razão. Está a haver uma tentativa de golpe de estado em Portugal".

Dois dias depois, regressa ao país no Sud-Express, comboio da liberdade, de Paris para Lisboa. Em Santa Apolónia é recebido por um mar de gente. Aliás, há gente a aplaudi-lo desde Vilar Formoso. Faz o primeiro discurso nesse mesmo dia, quatro anos depois do exílio e de uma ditadura que durou mais de 30 anos. Ainda nesse dia, encontra-se com o general António de Spínola. Decide o fim das guerras coloniais, o cessar fogo na Guiné Bissau e a libertação de Angola e Moçambique.

A democracia chega quase literalmente de comboio a Portugal com Soares.