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"O último leopardo"

CRÉDITOS
TEXTOS Helena Teixeira da Silva
FOTOS Arquivo/Global Imagens

COORDENAÇÃO
Inês Cardoso e Miguel Conde Coutinho
PROGRAMAÇÃO WEB
Miguel Conde Coutinho

Jornal de Notícias


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IV. FMI e o socialismo na gaveta

 

Em janeiro de 1976, um jovem general relativamente desconhecido, de nome António Ramalho Eanes, é eleito Presidente da República. É o 16º, mas o primeiro eleito em eleições democráticas depois da revolução.

Eanes convida Mário Soares a formar Governo. Soares é empossado primeiro-ministro do primeiro governo Constitucional da II República a 23 de julho de 1976. Mas o governo, minoritário e exclusivamente socialista, não chega ao fim da legislatura. Cai em 1977, na Assembleia da República. Eanes insiste. A 30 de janeiro de 1978, volta a indigitar Soares como primeiro-ministro do II Governo Constitucional, numa aliança entre PS e CDS. Seis meses depois, no entanto, exonera-o do cargo -  e isso marcará para sempre a relação entre ambos.

foto:Arquivo
Soares na tomada de posse como primeiro-ministro, em 1976

Eanes, que beneficiara do apoio de Soares para a eleição de 1976, perde-o para a reeleição de 1980. Mas não há duas sem três. E Soares volta a ser designado primeiro-ministro no IX Governo Constitucional, então coligado com o PSD de Carlos Mota Pinto. O famoso Bloco Central. Foi de julho de 1983 a outubro de 1985. E foi a sua última experiência governativa. 

Para a história, fica o início do processo de adesão de Portugal à CEE, em março de 1977, e a assinatura do respetivo tratado, a 12 de junho de 1985. Mas fica também a iminência constante de bancarrota que Mário Soares tenta, por todos os meios, evitar. Mesmo sendo obrigado a "meter o socialismo na gaveta". E não foi apanhado desprevenido, sabia que corria esse risco desde o tempo dos governos provisórios.

No final de 1975, durante um governo provisório que Soares não integrou, foi chamado enquanto secretário-geral do PS ao gabinete de Francisco Salgado Zenha, então ministro das Finanças. Com eles estava também Silva Lopes, governador do Banco de Portugal.

O discurso de Zenha é trágico: o país não tem dinheiro.
Soares pergunta: "Quanto é que é preciso?"
300 milhões de dólares, é a resposta. Seriam 270 milhões de euros, ao câmbio de hoje.

Soares inicia digressão em busca de dinheiro. E, mais uma vez, a sua boa reputação internacional volta a ser crucial. No dia seguinte, parte para Bona, na Alemanha, e encontra-se com o camarada Helmut Schmidt. O então chanceler alemão, que morreu aos 96 anos, em 2015, resolveu-lhe o problema. Mas, um ano depois, já no quinto Governo provisório, o país volta a estar na mesma situação. Dessa vez, a viagem de Soares é mais longa - aos Estados Unidos da América - e mais difícil. É preciso um "grande empréstimo" e a aprovação do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao qual Portugal aderiu em 1960.

"Não se trata agora de construir o socialismo. Trata-se de recuperar a economia deste país"

Seria o primeiro resgate ao país. E não, nessa altura, as pessoas não viviam acima das possibilidades, não havia bolha imobiliária nem cascata de produtos bancários com asterisco, nem nenhuma das expressões que viriam a tornar-se correntes no léxico político português e europeu três décadas depois para justificar a mesma premência. O que havia era fruto de uma economia entrincheirada dentro de portas e de dois anos de revolução durante os quais todo o tecido produtivo se despenhou. Acrescia a desfavorável conjuntura internacional, com uma crise petrolífera nos anos 70 e uma recessão que só terminaria na década de 80. Portugal tinha uma taxa de desemprego superior a 7%, os bens eram racionados, a inflação chegou aos 20% e o escudo valia pouco.

Nesse ano de 1976, Soares leva os pesos pesados todos ao Porto, para o encontro do Comité de Amizade e Solidariedade com a Democracia e o Socialismo, criado pela Internacional Socialista. Estiveram lá Willy Brandt e Olof Palm, François Mitterrand e Felipe Gonzalez, Bruno Kreisky e Francesco De Martino. E uma certeza: "A Europa está connosco", proclamou Soares, que começa assim a preparar o programa eleitoral legislativo sob o slogan de campanha: "Vencer a crise. Reconstruir o país". Em três curtos parágrafos desse documento, a palavra crise surgia 12 vezes. Não era um pormenor. 

Nessa altura, o PS tem a ambição de governar sozinho, sem alianças à esquerda nem à direita. Todos lhe ofereceram a mão, e Soares recusou todos. É nisso que Ramalho Eanes se torna, em teoria, importante. Os socialistas assumiam que um militar na presidência sem conotação política era o melhor que poderia acontecer ao país. E Soares achava que poderia contar com o seu apoio. Estava enganado, mas ainda não sabia. Concentrou-se numa única prioridade: salvar a economia. Nem que para isso tivesse de aplicar impiedosamente um programa de austeridade. Foi o que fez. "Não se trata agora de construir o socialismo. Trata-se de recuperar a economia deste país, para salvar a democracia portuguesa", explicou. Mas o povo não entendeu e a esquerda nunca o perdoou. Pagou o preço com a perda da popularidade.

foto:Arquivo
Em 1977, uma delegação portguesa liderada por Mário Soares vai a Paris para iniciar conversações para a adesão à CEE

A primeira vez que Soares percebeu que de Belém não vinham bons ventos foi na comemoração do terceiro aniversário do 25 de Abril, com Eanes a criticar o Governo. Um golpe duro para quem precisava de apoio para negociar com o FMI. Em novembro de 1977, Soares sonda pela primeira vez os seus ministros, tenta  no parlamento o apoio que não tinha em Belém. Primeiro com o PSD e depois com o PCP. Em vão.

Sem entendimento, contra tudo e todos, e quase a completar 53 anos, Soares decide apresentar uma moção de confiança ao Parlamento. Perde. O governo cai a 8 de dezembro. E Eanes exige apoio parlamentar maioritário para a constituição do governo seguinte, que haverá de ser conseguido com o CDS de Freitas do Amaral. Esse segundo governo de Soares haverá de ser curto, mas eficaz no que diz respeito às contas públicas. Mérito de Vitor Constâncio, que assume a pasta das Finanças e devolve o equilíbrio è economia. 

Mas isso não basta para ganhar Eanes, que volta a distanciar-se do Governo nos seus discursos. E serve para perder o CDS, que retira os seus três ministros do Executivo. Sem maioria, Soares demite-se ou é demitido. Perante a recusa de demissão, Eanes demite-o. 

"Eanes nunca compreendeu o papel dos partidos políticos em democracia. Sempre lidou com eles como se fossem qualquer coisa de impuro, qualquer coisa que o perturbava, a ele, que se pretendia acima dos partidos", diria, mais tarde, Soares. O histórico socialista sai magoado, mas deixa as contas em ordem. Ironicamente, começa neste ano a falar-se que chegou ao fim da carreira política. Nada mais errado.

Ainda haverá de chefiar o Governo uma terceira vez, em 1983, e mais uma vez pedir ajuda ao FMI. Dessa vez, 750 milhões de dólares, ou seja, mais de 650 milhões de euros. 

Lutou pela democracia contra a ditadura e venceu.

Lutou pela economia contra a bancarrota e conseguiu.

Já na oposição, define uma nova meta, que passa por concretizar um objetivo antigo: a adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE).

foto: Arquivo
Tratado de Adesão à CEE só será assinado em 1985, quase uma década depois da delegação inicial ter iniciado o processo

O processo de integração de um país pobre num clube de países riscos arrancou a 24 de novembro de 1975, contra a vontade dos comunistas, e entrou formalmente em Bruxelas a 28 de março do ano seguinte. Foi aceite uma semana depois, a 5 de abril. Mas seguir-se-iam quase dez anos de impasse e recuos.

A assinatura do Tratado de Adesão acontecerá apenas a 12 de junho de 1985, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

Será o último ato do último dia do último Governo de Mário Soares.