A vida
depois do fogo
Reportagem: Ana Mota e Sara Gerivaz
Vídeo: Ana Mota e Nélson LuísEdição vídeo: Ana Mota e Sara Gerivaz
Fotos Global Imagens: Maria João Gala, Tony Dias e Rui Miguel Pedrosa

O dia 15 de outubro de 2017 marcou a vida de todos os portugueses. O incêndio tomou dimensões nunca antes vistas na Europa. Devastou mais de 200 mil hectares de floresta, destruiu centenas de casas e levou a vida de 49 pessoas. Seis meses depois, a força das chamas ainda está na memória daqueles que lutam para recuperar o que fogo levou.      

 

 

Meio ano em suspenso
Renascer das cinzas
Fogo ainda “arde” na memória de Vila Nova
Dispostos a ajudar os bombeiros
Repensar legado perdido num dia
Políticas governativas

 

 

Meio ano em suspenso

O dia 15 de outubro “é difícil de lembrar” para Isabel Ludwig e José Costa. O fogo chegou a Santa Comba Dão e em dez minutos atingiu a casa do casal de 37 e 29 anos.

Era perto da meia noite quando as “bolas de fogo que caíam por todo o lado” atingiram o telhado. Em segundos alastraram a toda a habitação. Isabel e José só tiveram tempo de fugir com os filhos de 19 e dois anos. “Há coisas que se perderam aqui que não vou ter mais. Eu tinha tudo, desde o cordão umbilical dos meus filhos, às fotografias”, conta em lágrimas Isabel.

Seis meses depois o cenário é assustador. Na aldeia de São Joaninho, em Santa Comba Dão, restam as lembranças e os escombros do que já foi o lar de uma família.

Nos últimos seis meses, Isabel e José estiveram “suspensos”. Continuam sem respostas e as únicas ajudas que tiveram até ao momento foram de particulares. Cinco dias depois do incêndio, os escuteiros do Seixal deslocaram-se a Santa Comba Dão para oferecer ajuda.

Do Governo continuam sem respostas.

No dia 10 de janeiro receberam a notícia: podiam entregar a candidatura para reconstrução da casa à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR-C). Mas o processo continua sem luz verde.

 

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Renascer das cinzas

Do dia para a noite, a fábrica ASP - Indústria de Plásticos, em Oliveira de Frades, ficou reduzida a nada.

O sentimento inicial foi de impotência. Quinze dias depois, Teresa Bernardes e o pai enxugaram as lágrimas e colocaram mãos à obra.

O objetivo foi não perder clientes e garantir trabalho aos 21 colaboradores. Um mês e meio após a destruição estavam a trabalhar num armazém alugado.

A força e perseverança da gerente, que sempre se recusou a baixar os braços, foi um exemplo para os funcionários da empresa. Unidos, patrões e trabalhadores, voltaram a levantar a fábrica e, apesar do prejuízo de três milhões de euros, hoje produzem quatro mil malas térmicas por dia.

Depois do fogo passar, recuperaram dos escombros a base do trabalho - os moldes antigos.

Conseguiram manter os clientes e a nova fábrica, que vai nascer no mesmo espaço, já começa a ganhar forma.

Os últimos seis meses de salários ficaram a cargo do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e a Segurança Social isentou-os da contribuição correspondente à empresa. Teresa Bernardes, que dedicou os últimos 17 anos à empresa que gere com o pai, estima que nos próximos seis meses já consigam estar a laborar no novo espaço e superar, definitivamente, a destruição que assolou a fábrica no dia 15 de outubro de 2017.

 

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Fogo ainda “arde” na memória de Vila Nova

É como se o tempo tivesse parado na aldeia de Vila Nova, em Vouzela. O incêndio de 15 de outubro ainda faz ferida na memória dos habitantes, que não esquecem o dia mais negro pelo qual passaram.

O fogo levou quatro vidas, anos de trabalho e o verde que coloria a terra. As vozes embargadas e o olhar cabisbaixo denunciam a dor e o medo de voltar a passar por algo igual.

"Eu gostaria de sentir que seis meses é o tempo suficiente para uma recuperação efetiva, mas não é”, admite Carla Maia, vereadora da Ação Social da Câmara Municipal de Vouzela.

A freguesia de Ventosa, da qual faz parte a aldeia de Vila Nova, foi a mais afetada do concelho pelos fogos de outubro. A floresta que rodeava a aldeia desapareceu. Mais de 600 animais morreram. Os trabalhos e os campos agrícolas ficaram reduzidos a cinzas.

Apesar da ajuda disponibilizada pela autarquia, com apoio psicológico, doação de bens alimentares e materiais de construção e fornecimento de alojamento aos necessitados, seis meses não chegaram para desvanecer as memórias do dia trágico.

 

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População disposta a ajudar mais os bombeiros

Dias longos e com noites de sono curtas, cansaço e fadiga causados por dezenas de horas de combate. Tudo superado pela vontade extrema de cumprir a difícil missão.

Os Bombeiros Municipais da Lousã têm 90 elementos. Nenhum ficou em casa no pior dia de fogos de 2017. Houve até um casal de voluntários que chegou da lua de mel e seguiu diretamente para o quartel. Para a Lousã foi destacado o maior contingente nacional - 549 homens.

Agora, que já não há fumo no ar, sobra a frustração por não terem conseguido chegar a todo o lado. Seis meses trouxeram à população a consciência de que o combate às chamas começa muito antes. “Hoje já vemos que as pessoas estão a limpar à volta das suas casas, estão a pensar na floresta”, conclui Cláudio Fernandes, 2.º comandante dos Bombeiros Municipais da Lousã.

A tragédia serviu de exemplo para melhorar o modo de atuação. “Assim que iniciamos a formação, a primeira instrução foi falarmos sobre este incêndio. O que foi feito, o que não foi feito, o que podia ser melhorado”.

 

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Repensar um legado de anos perdido num dia

Ainda agora, quilómetros e quilómetros de negro. Árvores cruas, despidas, sem cor. A Mata Nacional de Leiria, o pulmão da região Centro de Portugal, desapareceu nos incêndios de 15 de outubro. Dos 11 021 hectares, 9 476 foram consumidos pelas chamas. A maior das matas nacionais do litoral perdeu 86% da sua floresta no pior dia de incêndios de que há memória.

“Num único dia ardeu a área correspondente a um ano péssimo de incêndios”, Rogério Rodrigues, presidente do ICNF

 

 

É ainda prematuro traçar o futuro do Pinhal do Rei. Nos últimos meses, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) trabalhou no sentido de desenvolver estratégias e planos de recuperação para salvar o legado de centenas de anos.

O primeiro passo incidiu na proteção de pessoas e bens. As árvores junto às estradas, casas e povoações foram cortadas, a circulação foi interrompida nos caminhos interiores da mata e foi intensificado o patrulhamento na área ardida, uma vez que nos dias seguintes aos incêndios os reacendimentos foram constantes.

O segundo passo foi pensar na recuperação. Para isso, o ICNF delegou, a sete universidades e a um centro de investigação, a responsabilidade de “delinear as linhas mestras daquilo que deve ser a mata nacional do futuro e todas as matas do litoral que foram atingidas”. Um projeto que, de acordo com Rogério Rodrigues, presidente do ICNF, estará pronto em junho e será acompanhado por um observatório liderado pela Câmara Municipal da Marinha Grande.

“Antes dos incêndios, eram cortados em média mil metros cúbicos de madeira por ano. Com o material lenhoso queimado, o corte pode ascender a um milhão de metros cúbicos. Alinhando a madeira daria para unir a Marinha Grande aos Pirenéus”, Rui Rosmaninho, chefe do DGOF

Além disso, o ICNF iniciou o corte das árvores queimadas que, tendo em conta a expressão da área ardida, deverá durar até um ano e meio. “O que temos de focar agora é acelerar o processo de exploração florestal dos locais que ainda têm arvoredo em pé, promovendo hastas públicas e a venda da madeira em lotes. Depois podemos recuperar as áreas através da regeneração natural”, elucida Rui Rosmaninho, chefe da Divisão de Gestão Operacional e Fiscalização (DGOF) do Departamento do ICNF do Centro.

Até agora, 478,40 hectares estão a ser recuperados com o patrocínio de grandes entidades, entre as quais a Quercus e o Banque BCP de Paris.

 

Terminada a fase de exploração florestal será implementado o projeto de execução em fase de estudo pelas universidades.

A Mata Nacional de Leiria vai continuar a ter o pinheiro bravo como espécie predominante, mas serão introduzidas outras espécies, como sobreiro ou pinheiro manso, para aproveitar todas as áreas. Arderam árvores com 25 anos que terão deixado semente para que a mata regenere naturalmente. É uma questão de tempo. Para a floresta, seis meses não são nada.

 

 

 

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Políticas governativas

Depois da tragédia, a sociedade exigiu respostas ao Governo. Nos últimos meses, as medidas de gestão da floresta têm ocupado grande parte do debate político. Além das respostas imediatas, relativas a indemnizações e apoio financeiro às famílias, urge uma ação mais efetiva que garanta a proteção das pessoas e das florestas no futuro.

 

15 OUT 2017

Dia com maior número de incêndios e total de área ardida de sempre registado no país

18 OUT 2017

Demissão da ministra da Administração Interna. Eduardo Cabrita sucede a Constança Urbano de Sousa

21 OUT 2017

Conselho de Ministros extraordinário aprova medidas no sentido de encontrar soluções de valorização e defesa da floresta e revisão do sistema de socorro

18 NOV 2017

Apresentada proposta de alteração à lei do Orçamento de Estado para 2018, apresentada pelo PS, que agrava multas para quem não fizer limpeza de matas até ao dia 15 de março de 2018

1 DEZ 2017

Entra em vigor o Sistema de Informação Cadastral Simplificada, como projeto-piloto em dez municípios das regiões Norte e Centro de Portugal continental, que permite identificar e registar terrenos com e sem dono conhecido

29 DEZ 2017

Agricultores afetados pelos incêndios começam a receber apoios

26 FEV 2018

GNR inicia formação de 600 novos guardas para integrar o Grupo de Intervenção, Proteção e Socorro (GIPS) e Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) e de 200 para as Forças Armadas no âmbito do reforço da prevenção e do combate aos incêndios florestais

15 MAR 2018

Aumentado o período em que não serão aplicadas multas a proprietários, após a polémica e intervenção do Presidente da República

20 MAR 2018

O relatório de análise aos incêndios de outubro de 2017, produzido pela comissão técnica independente, é entregue ao Parlamento

20 MAR 2018

Provedora de Justiça anuncia 31 milhões de euros em indemnizações atribuídas a familiares das 114 vítimas mortais nos incêndios florestais de 2017

20 MAR 2018

A Segurança Social assume prejuízos dos agricultores até 1053 euros e, só de uma vez, cerca de 7500 agricultores receberam 4,5 milhões de euros. Entre os 1053 euros e os cinco mil euros, quem pagou às vítimas de Pedrógão Grande foi o Revita: 1130 agricultores receberam 3,4 milhões de euros. As 15 038 vítimas de outubro já receberam 51 milhões da Agricultura.

28 MAR 2018

Parlamento debate relatório da comissão técnica independente para análise dos incêndios de 14 a 16 de outubro

31 MAR 2018

Deveria ter estado pronta a nova lei orgânica da Autoridade Nacional de Proteção Civil

5 ABRIL 2018

Governo atribui 85% de financiamento a todas as empresas afetadas caso a totalidade do prejuízo atingisse os 235 mil euros

6 ABRIL 2018

Protocolo GNR, Finanças e Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) para acesso dos municípios aos dados de propriedade de terrenos, para facilitar o processo de multas;

 

Acordo do Governo e da Liga dos Bombeiros Portugueses quanto à criação de 120 novas Equipas de Intervenção Permanente (EIP) (78 de imediato, as restantes até final do ano) e quanto a algumas alterações operacionais, a mais relevante das quais a colocação de uma espécie de oficial de ligação dos bombeiros nos comandos distritais;

 

Casal de idosos recebe a primeira habitação totalmente recuperada, em Vouzela. Consignação da reconstrução de casas em Vouzela num investimento de 9,4 milhões de euros entre a CCDR-C e um consórcio de duas empresas. É a segunda empreitada de reconstrução, depois da primeira lançada em Tondela no valor de 11,7 milhões de euros

9 ABRIL 2018

Protocolo entre Ministério da Administração Interna (MAI), Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e Associação Nacional de Freguesias (Anafre) para desenvolvimento dos programas Aldeia Segura e Pessoas Seguras

10 ABRIL 2018

Segurança Social concedeu, até esta data, 104 mil euros para ajudar em pagamentos relacionados com rendas, fármacos, luz, gás e água, envolvendo 202 famílias;

GNR levantou, em todo o país, 71 autos de contraordenação a proprietários por falta de limpeza dos terrenos, que podem ficar sem efeito se a limpeza for feita até 31 de maio;

14 ABRIL 2018

Diretiva Operacional Nacional (DON) reforça meios de combate a incêndios com mais operacionais, viaturas e meios aéreos

 

 

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