o que os políticos pediram ao Pai Natal
Humor

O Jornal de Notícias teve acesso às cartas que os principais líderes políticos endereçaram ao Pai Natal. Não conseguimos confirmar se chegaram todas a tempo, porque os CTT, depois da privatização, parecem estar mais preocupados com os lucros do que em fazer chegar os vales de pensão aos reformados a horas. Ainda assim, estamos em condições de assegurar que o conteúdo das missivas é verdadeiro. Apesar de poderem fazê-lo, todos os intervenientes foram aconselhados pelos serviços jurídicos da Lapónia a não formalizar os pedidos por email. Por razões óbvias. Acredite: não aconteceu, mas podia ter acontecido.


Por Pedro Ivo Carvalho

Leonardo Negrão/Global Imagens

MARCELO REBELO DE SOUSA

Bom, meu querido, isto tem de ser rápido, são nove e meia da noite e ainda tenho 23 sem-abrigo para abraçar, duas crianças para adormecer com uma história sobre a minha biblioteca em Celorico de Basto, e, entre viagens, aproveitar para dar uma alfinetada ao Passos Coelho e deixar uma palavra de alento ao senhor reformado que morava aqui no Palácio antes de mim e de quem herdei lindos presépios. Bom, então é assim, Pai Natal.

1. Em primeiro lugar, gostava de poder reunir, de preferência num almoço-convívio em Belém, os sete portugueses que ainda não fizeram uma selfie comigo por manifesta dificuldade de acesso a um smartphone com câmara frontal. Eu sou, gostem ou não de mim (e há quem não goste, mas essas três pessoas já estão identificadas), o presidente de todos. Aliás, se ficar mais um mandato, vou aventurar-me no mercado ibérico das selfies. “El presidente de los afectos” até podia dar um filme do Almodóvar, não achas? Entre o Bardem e o Banderas, tenho dúvidas sobre quem seria mais telegénico a nadar nas águas gélidas de Cascais.

2. Um pack de 20 fins de semana para duas pessoas para oferecer aos elementos do meu corpo de segurança pessoal. Em particular ao Manel e ao Alcino, que estiveram quatro anos no Afeganistão integrados numa força especial mas só agora sentiram necessidade de acompanhamento psicológico, por estarem no limbo de um esgotamento nervoso. Há dias, o Alcino até desabafou comigo: “Ó presidente, não sei como o senhor aguenta este ritmo 21 horas por dia só com uma carcaça e um Sumol de ananás”. Eu disse-lhe que era dos genes. Para não lhe beliscar o orgulho.

3. Um hoverboard dos modernos, para poder chegar mais depressa e de uma forma ambientalmente sustentável, ao acordo de Bloco Central que ando a magicar há tempos entre o António Costa e o próximo líder do PSD. Depois do ralhete que dei ao primeiro-ministro no pós-crise dos incêndios, tenho de regressar ao meu magistério de cordialidade. Mas jamais dispensarei no futuro um carinho para a Catarina e para o Jerónimo, que adoram não gostar de mim mas não podem dizê-lo senão perdem votos.

4. Por fim, caro Pai Natal, ficar-te-ia imensamente grato se pudesses encontrar um lugar digno nos escaparates da nação para o Pedro Passos Coelho. Comentador não era mau. Professor universitário também servia. Ou então consultor de uma multinacional. Olha, mas se não te for possível, faz com que o meu Braguinha seja campeão na última jornada do campeonato. Com um penálti validado pelo videoárbitro.

 

Maria João Gala/Global Imagens

ANTÓNIO COSTA

Querido Pai Natal, este ano foi agridoce. Desde logo porque mais de 100 portugueses perderam a vida nos fogos florestais. Já pedi desculpa ao país (bem, na verdade obrigaram-me), mas não há maneira de apagar essa memória. Ainda assim, endireitamos as contas públicas, devolvemos rendimentos aos eleitores que não me escolheram para primeiro-ministro e corremos com o holandês-cujo-nome-nunca-sei-pronunciar do Eurogrupo (#somostodosmáriocenteno). Ah, e ninguém viu o Diabo. É verdade que a “geringonça” já foi um triângulo amoroso mais luzidio, mas o resultado tem ido tão além do esperado que até passei a acreditar em ti, por mais que o Jerónimo esteja sempre a chamar-me à razão. Mas ele não gosta de Coca-Cola. Bem, eis a minha lista, condizente com o tempo novo que vivemos. Repara como os meus pedidos acabam por ser uma projeção do meu conhecido altruísmo (eu não disse calculismo) político. Assim:

1. O cachecol da seleção de Portugal que o Mário Centeno levou para o Eurogrupo quando fomos campeões europeus. Gostaria de oferecê-lo ao PSD, mais concretamente aos quatro militantes anónimos que gastaram um milhão de euros para regularizar as quotas dos milhares de companheiros de partido que, nas últimas semanas, descobriram uma necessidade incontrolável de ir votar no próximo líder. E um desejo insólito de o fazerem em conjunto, recorrendo às mesmas camionetas.

2. Cinco vales de compras para os deputados do CDS/PP (cobre o grupo parlamentar todo, certo?). Pode ser que assim comecem a fazer-me perguntas desafiadoras nos debates parlamentares, em particular a Assunção, que tem a mania que é engraçadinha (desculpa, Catarina Martins) e gosta de interagir com o eleitorado pelo Facebook Live. A minha esperança é de que coloquem dúvidas próprias de um adulto com o nono ano, do género das que foram lançadas por aqueles cidadãos escolhidos ao acaso na experiência laboratorial do Governo em Aveiro que queríamos que parecesse muito natural e muito académica.

3. Uma proteção em silicone para os dedos da mão direita: já virei tantas páginas da austeridade que não há creme para as bolhas que me cure. De resto, podia aproveitar esse adereço para fazer figas de uma forma discreta de todas as vezes que prometesse ao Mário Nogueira que os professores vão todos progredir na carreira. Incluindo ele, que já não dá aulas desde o século passado. A austeridade já lá vai, é certo, mas eu ando a fazer um esforço para me convencer a mim próprio de que é mesmo assim. Se fossem tudo rosas, eu já tinha comido espetadas de gambas duas ou três vezes na última semana com a presidente da Raríssimas; ou então tinha arranjado emprego para os dois afilhados do Carlos César que ainda não estão integrados no mercado de trabalho pela “família socialista”.

4. Um pin de lapela da bandeira nacional com ligação Bluetooth a uma coluna portátil, para oferecer ao Passos Coelho. De todas as vezes que ele vestisse o casaco pela manhã, ouviria a seguinte mensagem: “Bom dia, Pedro, já passaram mais de dois anos desde que ganhaste as eleições e não ficaste a governar o país. Mas tu fizeste tudo bem, Pedro, não te martirizes”. A mensagem terminaria com o refrão do êxito musical de Michael Bolton “When I’m back on my feet again”. Porque isto sem ti não tem graça nenhuma, Pedro.

 

Leonardo Negrão/Global Imagens

PEDRO PASSOS COELHO

Respeitável Pai Natal, ainda que considere excessivamente socialista essa ideia de dar tudo a toda a gente, vejo-me forçado a elencar algumas das oferendas que gostaria de receber. Sem megalomanias, à medida das tuas reais possibilidades. No fundo, nada que implique hipotecares o teu futuro e o dos outros para seres popular, como faz o António Costa, esse tipo que perdeu as eleições e roubou o meu lugar (não, não esqueci, o que queres?)

1. Para começar, ficaria muito feliz se me desses mais uns mesitos na liderança do PSD, dado que estamos a subir nas sondagens. Só não percebi ainda se essa recuperação está diretamente relacionada com o facto de eu me ir embora ou de andar calado há umas semanas. Se for esse o caso, não te apoquentes. É capaz de não ser bom para a minha imagem. Além do mais, já tinha coisas combinadas para meados de janeiro.

2. Uma bola de cristal, mas de uma marca diferente da do Marques Mendes. Ou seja, das que acertam. Como o mais provável é seguir uma carreira como comentador, tenho de ir treinando as previsões ao espelho. Embora esteja na cara o que vai acontecer ao país com esta gente. Isso mesmo, o Diabo. O descalabro. Vou-me rir quando perceberem que, quando o Schäuble chamou Ronaldo do Eurogrupo ao Mário Centeno, estava a referir-se ao brasileiro, que está gordo e lento, e não ao CR7. Portugal, Portugal! Está bem, está.

3. O livro “O Pedro e o lobo”. Não para mim, mas para o meu querido Santana Lopes. Uma edição com ilustrações infantis. Porque é um recreio que eu vejo quando olho para a campanha interna no meu partido. Fixem o que vos digo: ainda vão ter muitas saudades minhas. Aliás, quando deixei de ser o homem do leme de Portugal, aconteceu o mesmo com a Angela Merkel, “licht das mich führt“. Ou, como se diz em Massamá, “luz que me guia“.

4. Finalmente, um saco de boxe para pendurar no teto da sala de jantar. De todas as vezes que o Santana e o Rio disserem que o PSD é um partido do centro, ensaio uns belos ganchos para me aliviar a tensão acumulada nos ombros. Não pode ficar muito alto, dado que estou também a aprender os movimentos de rotação com o joelho e o cotovelo para as ocasiões em que o Marcelo afirmar que fazer cativações é uma coisa, cortar salários é outra.

 

Leonardo Negrão/Global Imagens

CATARINA MARTINS

Pai Natal, é com tristeza que, em 2017, constatamos que nada tenha sido feito para aligeirar a discriminação de género associada à tua figura. Nós, no Bloco, tudo faremos para que seja dada oportunidade à Mãe Natal. E que ela possa, por exemplo, no futuro, ser barriga de aluguer de um casal de duendes que não pode ter filhos. Quanto ao resto, lamentamos que, durante esta quadra, se continue a alimentar os cofres da EDP com tantas iluminações públicas, mas vemos como positivo o consumismo desenfreado, que só prova que estávamos certos quando pedimos atualizações salariais para a Função Pública. Bem, cá vai a minha lista disruptiva:

1. Em primeiro lugar, gostaríamos de alocar 500 milhões de euros no Orçamento do Estado para investigação à clonagem humana. O exemplo dado pelas irmãs Mortágua deve ser potenciado em benefício do país. Já imaginaste o que seria ter uma Mariana Mortágua, uma Marisa Matias, ou, não querendo ser vaidosa mas apenas justa, uma Catarina Martins multiplicada por esse Portugal político fora? Já imaginaste os estragos… quero dizer, as vantagens que daí resultariam? Governos maioritários nunca mais, mulheres do Bloco por todo o lado sempre. Olha, isto podia dar uma peça de teatro. Ou um statement para uma t-shirt que não tenha sido fabricada no Bangladesh.

2. Um dicionário de sinónimos da Porto Editora para oferecer ao ministro Mário Centeno. Personalizado: apenas com a palavra “C” distribuída pelas 253 páginas, para ele não ter dúvidas do real significado do verbo “cativar”. Não é ser criativo, não é ser engenhoso, não é ser progressista. E também começa por “c”, senhor ministro: cortar, cercear, conservar. Eu sei que no Eurogrupo a palavra “cativation” soa pomposa, mas entre nós só quer dizer miséria, aprisionamento e austeridade. Austeridade humanista, claro. Não da outra, violenta e cega.

3. Um DVD do filme “Eu sei o que fizeste no verão passado”, para dar ao meu caro António Costa. Para ele não se esquecer de que nós não nos esquecemos de que ele se esqueceu do que combinou connosco em relação à taxa sobre as empresas de energias renováveis. Ou, como agora se diz no PS, energias revogáveis.

4. Um calendário interativo de 2018 para entregar à bancada parlamentar do PCP. Por um lado, para perceberem que têm pela frente mais 365 dias em que vão perder eleitorado para o Bloco; e, por outro, para ver se de uma vez por todas metem na cabeça que apoiar os regimes da Coreia do Norte e de Cuba até podia entender-se em 1918, mas que entretanto já passaram 100 anos e o mundo mudou. Seja como for, para o ano lá estarei batidinha na Quinta da Atalaia para mais uma Festa do Avante. Desde que não me peçam o número de contribuinte do coirato e da mini.

 

Leonardo Negrão/Global Imagens

ASSUNÇÃO CRISTAS

Santo Pai Natal, antes de mais, quero desculpar-me por ainda não ter colocado os estandartes do Menino Jesus no Largo do Caldas. Só que, entre os meus quatro filhos e os jovens turcos do PS, a educação das crianças rouba-me muito tempo. Para piorar tudo, o Haddock, o meu novo e pequeno fox terrier, anda a roer tudo aqui por casa. Os contratos que eu assinei por telefone no Governo estão todos lambuzados e só se salvaram as fotografias do Paulo que encimam a cómoda da entrada. Incluindo aquela muito fofinha em que ele está a espreitar pela escotilha de um submarino com um ar patriótico. Bem, segue a minha lista, de partilha cristã, a pensar nos meninos e meninas por esse mundo fora que estão esfomeados mas, em compensação, não têm de aturar os dislates do João Galamba.

1. Pedir aos senhores engenheiros da Google (de preferência aos que não tenham tirado o curso ao domingo) para apagarem de uma vez por todas da Internet as imagens em que eu ainda surjo de cabelo comprido e estou nove quilos mais velha. “Santa”, eu agora sou angulosa. Quase esguia. Tanto quanto a oposição interna no meu partido.

2. Um vestido branco com maçãs de Palmela estampadas. Os kiwis daquele vestido em que me deixei fotografar numa pose sensual eram importados e não ficaria bem com a minha consciência se não honrasse a agricultura portuguesa. Se não houver com maçãs, pode ser com laranjas. Afinal, quem é a líder da Oposição, quem é? Vai buscar, Passos!

3. Uma coleção emoldurada dos meus “artigozinhos” no jornal preferido do engenheiro (força de expressão) Sócrates para enviar para S. Bento, ao cuidado do António Costa, que parece ter-se esquecido de que também já escreveu “artigozinhos” para o mesmo jornal quando era presidente da Câmara de Lisboa. Se calhar está a precisar de outro espelho retrovisor. Ou de memofante.

4. Não 20, mas 30 novas estações do metropolitano de Lisboa até 2020. Quando sugeri duas dezenas, riram-se de mim. Mas experimentem andar de metro em dias de websummit ou sempre que a Madonna decide ir beber copos a Alfama. Só chegavam 20 estações se deixássemos andar apenas os turistas e mandássemos os lisboetas todos a pé para o trabalho. É por isso que eu não vou de metro para as reuniões da Câmara de Lisboa. Não é por estar cheio de gente que vive de apoios estatais. É que não caibo. Apesar de estar magra.

 

Leonardo Negrão/Global Imagens

JERÓNIMO DE SOUSA

Camarada Pai Natal, apesar de seres um produto mal acabado do imperialismo norte-americano, mantiveste-te fiel ao espírito marxista, dado que tratas os miúdos do mundo por igual. Mesmo os da JSD e os da Juventude Centrista que ainda vão à catequese, o que é assinalável. Consegues ser mais comunista do que o Kim Jong-un, que só trata as crianças da Coreia do Norte por igual porque as deixa a todas com fome. Bem, a lista entretanto aprovada pelo Comité Central foi esta.

1. Um selfie-stick com microfone para distribuir pelas “engraçadinhas” do Bloco de Esquerda, tamanha é a sua necessidade de aparecer na televisão a dizer coisas primeiro que o PCP. Elas são muitas, eu sei, mas um chega. Assim pode ser que se digladiem pelo controlo do objeto e consigamos com esse gesto simples provocar uma erosão interna que redunde na implosão do partido amigo dos socialistas. Patéticas!

2. O livro de piadas da Maria Vieira (“Maria no país do Facebook”) para oferecer à Maria Luís Albuquerque. Até me dá vontade de dizer uma graçola etnográfica daquelas em que eu rivalizo na sofisticação com o meu camarada João Oliveira. Aqui vai: mudávamos o nome ao livro e presenteávamos antes o Passos Coelho: “Maria no país da Arrow Global”. Estive bem, não estive, camarada?

3. Um quadro de lousa 20X30 metros para afixar na fachada da São Caetano à Lapa. Sempre que o Passos (enquanto não vai embora) e o perigoso reacionário que lhe seguir entrarem no edifício, são obrigados a escrever 78 vezes (uma por cada mil milhões de euros de ajuda que recebemos do FMI) “a austeridade não cura, a austeridade mata, a austeridade foi um fracasso”. Ah, e fracasso é com dois “ésses”, ok? Às vezes parece que vocês tiveram todos a mesma professora de Português do Duarte Marques.

4. Gostaria que algum dos canais televisivos promovesse um reality-show só com patrões. Trabalhavam todos numa fábrica de produção em série, oito ou nove horas por dia, cada um com dois filhos a seu cargo. Viveriam num T2 pago às prestações ao Banco. E ganhavam apenas os 580 euros agora fixados para o salário mínimo nacional. Até se podia aproveitar um nome que já existe para batizar o programa: “The biggest looser”. No final, ganhava o último a pedir uma ficha de inscrição no PCP. A montra do prémio final, além de um Volkswagen T-Roc, incluiria um pacote de 20 horas de conversação com a Ana Avoila na parte traseira de uma carrinha frigorífica, dedicado ao tema “Como os trabalhadores da Função Pública estão a ser injustiçados e se for preciso vamos novamente para a greve, porque é assim que resolvemos tudo”. Durante a ação de formação, os beneficiários só teriam direito a água, bolachas de água e sal e intervalo de cinco minutos para fazer xixi. Tal e qual os caixas dos supermercados que ganham o salário mínimo.