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Foto: Reuters

Raqqa, a cidade calma que ficou reduzida a cinzas

Antes de Raqqa se tornar famosa, em todo o Mundo, como sendo a capital do EI, os seus habitantes tinham uma vida relativamente calma, vivendo sobretudo da agricultura, aproveitando a proximidade do Rio Eufrates.

A cerca de 450 quilómetros da capital, Damasco, o destino da cidade começou a mudar em 2011, pouco depois do início da revolução no país, contra o regime de Bashar al-Assad.

Se no início dos protestos, levados a cabo principalmente pela população mais jovem, o governo sírio ainda conseguiu manter o controlo daquela região, em março de 2013, uma coligação de forças, envolvendo a Ahrar al-Shan, a frente al-Nusra e o Exército Sírio Livre, conseguiu entrar em Raqqa. No dia 4 de março, esta coligação declarou Raqqa como a primeira capital de província libertada e, para celebrar, derrubaram a estátua do pai de Assad, a fazer lembrar a queda da imagem de Saddam Hussein, em 2003, quando a coligação internacional chegou a Bagdad.

Milhares fugiram de Raqqa, agravando crise de refugiados

Os primeiros meses da revolução foram vividos com grande ânimo, com a cidade a assumir-se como um exemplo para outros pontos do país, que procuravam aproveitar a fragilização do regime. Mas o tempo de paz durou pouco.

Os alarmes soaram quando membros da frente al-Nusra começaram a prender pessoas aleatoriamente. Ainda em 2013, vários soldados dessa força aliaram-se ao EI, que começava a ganhar poder, cometendo as primeiras atrocidades em Raqqa.

No início de 2014, com a fragilização da coligação inicial, o EI tomou o controlo da cidade. Milhares de pessoas fugiram de Raqqa, contribuindo para o agravamento da crise de refugiados, que se fez sentir em vários países da Europa, principalmente na Turquia.

A verdadeira resposta ao EI deu-se apenas no início de 2016, com o avanço da Forças Democráticas Sírias (FDS), apoiada pelos EUA e por uma aliança entre soldados curdos e árabes, nas proximidades de Raqqa. A Batalha de Raqqa teve início a 6 de junho de 2017, quando o exército das FDS, suportadas por uma aliança internacional liderada pelos EUA, conseguiram penetrar no bastião do EI.

No dia 17 de outubro, as FDS anunciaram ter o controlo total da cidade. O preço pago foi caro, com a cidade praticamente reduzida a escombros e milhares de mortos, segundo estatísticas divulgadas pelos grupos e associações humanitárias que permaneceram no local. De acordo com a Reuters, os civis que lá ficaram "viveram um inferno" nas últimas semanas do conflito.

Raqqa
A semente da esperança no bastião do terror


Texto
Ivo Neto

Coordenação editorial e programação
Miguel Conde Coutinho


 

 

 

 

 

 

Passa pouco mais de um mês desde que o autoproclamado Estado Islâmico (EI) perdeu o controlo de Raqqa, cidade que foi a capital do grupo terrorista ao longo dos últimos quatro anos

 

 

 

 

 

Durante a ocupação, morreram milhares de pessoas e 90% da cidade ficou destruída

 

 

 

 

 

A reeducação das crianças, vítimas de “lavagens cerebrais” , e os traumas de uma cidade que ainda sente “o cheiro a morte” são desafios complexos que condicionam a reconstrução e o futuro de Raqqa

 

 

 

Raqqa
A semente da esperança no bastião do terror


Texto
Ivo Neto

Coordenação editorial e programação
Miguel Conde Coutinho

 

 

Passa pouco mais de um mês desde que o autoproclamado Estado Islâmico (EI) perdeu o controlo de Raqqa, cidade da Síria que foi a capital do grupo terrorista ao longo dos últimos quatro anos.

Durante a ocupação, morreram milhares de pessoas e 90% da cidade ficou destruída.

A reeducação das crianças, vítimas de “lavagens cerebrais” , e os traumas de uma cidade que ainda sente “o cheiro a morte” são desafios complexos que condicionam a reconstrução e o futuro de Raqqa.

 

Viver na clandestinidade para mostrar ao mundo o efeito do terror

“O EI destruiu tudo em Raqqa. Desde que cá chegaram, não pararam de cometer todo o tipo de atrocidades contra civis”, diz  um membros do projeto The Free Euphrates (FE), com quem o JN falou. “É como se o sol deixasse de existir. É impossível imaginar qualquer forma de vida nestas condições”, contou ao JN um outro ativista do "Raqqa 24" (R24), que vive na cidade destruída pelos combates entre a aliança internacional e o EI.

Vídeo: "Raqqa 24"

A violência, retratada nos vídeos publicados pelos terroristas nas redes sociais ao longo da ocupação, foi psicológica antes de ser física. E uma das primeiras imposições do EI foi o fim do contacto com o mundo exterior. “A vida na cidade parou completamente desde a chegada do EI. Baniram o acesso à televisão e à rádio e até o acesso à Internet era controlado”, explica aquele membro do FE.

"Eles passaram a ter informadores em todas as esquinas"

Em poucas semanas, as pessoas ficaram sem emprego, os preços subiram e a desconfiança aumentou entre vizinhos, assim que os terroristas começaram a angariar membros entre os habitantes da cidade. “De um momento para o outro, deixamos de poder confiar em quem sempre conhecemos porque eles passaram a ter informadores em todas as esquinas”, lembra o repórter do FE.

O FE e o R24 são duas organizações que durante a ocupação terrorista operaram na sombra, relatando para o mundo as atrocidades vividas na cidade, quando os terroristas quiseram isolar Raqqa do mundo. Ainda não mostram a cara, por medo, mas são a voz da resistência ao terror infligido pelo EI. “Ainda não podemos revelar a nossa localização exata por questões de segurança”, avisa um dos membros do FE.


Foto: EPA

Hasan al Mousa tem 20 anos e é um dos rostos dos milhares de refugiados que abandonaram a cidade durante os violentos ataques impostos pelos terroristas e agravados pela intervenção das forças internacionais. A viver na Alemanha desde janeiro de 2015, diz ao JN que é “ impossível contar” o número de mortos.

“Todos perdemos familiares. O meu pai e o meu irmão foram assassinados pelo EI e não sabemos o paradeiro de outro dos meus irmãos que foi raptado”, revela. “Vi uma mulher ser apedrejada até à morte. Foi horrível. É impossível imaginar a vida sob o controlo do EI”, diz.


Foto: EPA

Em julho, os extremistas decapitaram quatro jogadores de futebol sob a acusação de espionagem a favor dos curdos que combatem o grupo. As vítimas, futebolistas do Al-Shabab, uma equipa local, foram decapitadas na praça pública e as suas cabeças foram exibidas à população, incluindo crianças.

Um jiadista de 20 anos executou a própria mãe

No ano passado, quando o EI ainda dominava a cidade, um jiadista de 20 anos executou a própria mãe, depois de a mulher o tentar convencer a deixar o EI. O rapaz terá denunciado a mãe publicamente, prendendo-a e executando-a em frente a centenas de pessoas.

Foi de forma clandestina, utilizando o Facebook e o Twitter, que a rede de repórteres "R24" operou durante a ocupação do EI. “Somos um grupo de repórteres e 90% do nosso pessoal está em Raqqa”, conta um dos membros do grupo, que aclara quais os reais propósitos do EI durante a ocupação da cidade.

Vídeo: "Raqqa 24"

Nunca se preocuparam com as tradições ou a religião. O mais importante era arranjar dinheiro e soldados. As condições de vida dos habitantes era totalmente irrelevante”, explica o colaborador do R24, que recorda o “cheiro a morte e os corpos decapitados”, que passaram a fazer parte do dia a dia. “Conseguem imaginar como foi viver com esta realidade, sabendo que os nossos filhos estavam a ser expostos a esta violência?”, questiona, ainda revoltado com os quatros anos de massacre continuado dos terroristas.

O mundo habituou-se a ver imagens de execuções públicas e cenas de violência indiscriminada, que não pouparam ninguém e aconteciam quase de forma aleatória, para mostrar quem mandava. “O sentimento era o de que, ao mínimo erro, podíamos ser mortos. As execuções foram um pesadelo para estas pessoas”, diz o representante do FE. “Qualquer pessoa podia ser presa por ter um cigarro ou por simplesmente não ter a barba tão longa como eles queriam”, acrescenta o R24.

Mas não foi só a ação dos terroristas que lançou o medo na cidade. Só entre junho e outubro deste ano, de acordo com dados do projeto “Raqqa está a ser abatida silenciosamente”, os raides aéreos, levados a cabo pelas forças da coligação lideradas pelos EUA, contribuíram para perto de duas mil vítimas mortais, milhares de feridos. Muitos mais conseguiram fugir.

O AVANÇO DO TERROR

De 2013 a 2016, o EI avançou sobre o Iraque e a Síria muito rapidamente e quase sem oposição. Foram três anos de terror na região, primeiro, e no resto do Mundo, depois, com diversos atentados na Europa, África e Ásia.

 

 

 

A resposta da coligaÇÃo

Em agosto de 2014, uma coligação internacional liderada pelos EUA iniciou uma série de bombardeamentos sobre o território controlado pelo EI no Iraque e na Síria. A ação militar foi-se intensificando, também com a intervenção da Rússia, e culminou com a batalha de Raqa.

27 345
ataques da coligação

13 280
ataques no Iraque

14 065
ataques na Síria

1188
dias na frente de combate

5961
civis mortos nos ataques da coligação

10 2082
bombas e misseis lançados

Fonte: Airwars

Esta semana, a coligação deu conta, na Jordânia, dos avanços e do sucesso da operação. Os recursos financeiros do grupo extremista estão também reduzidos e a pressão não para de aumentar, foi revelado.

95%
do território ocupado foi recuperado

7,5
milhões de pessoas libertadas


 

 

 

 

DERROTAR A BESTA

 

DERROTAR A BESTA

“Podiam fugir dos ataques aéreos mas não das pessoas que os queriam matar”

1900
vítimas mortais
e milhares de feridos

450 mil
desalojados

29
mesquitas destruídas
ou danificadas

4
pontes destruídas

3900
raides aéreos

90
ataques suicidas

8
hospitais destruídos

40
escolas destruídas

A Batalha de Raqqa foi a quinta fase da chamada campanha de Raqqa. Encabeçada pelas Forças Democratas na Síria (FDS), com o apoio de uma coligação internacional liderada pelos EUA, começou no início de junho de 2017 e estendeu-se até ao dia 17 de outubro, quando a cidade foi completamente controlada.

Mais aqui sobre a Batalha de Raqqa

Sem estatísticas oficiais, ao JN, Hasan al Mousa, que integrou a equipa “Raqqa está a ser abatida silenciosamente” , conta que só entre junho e outubro houve mais de 90 ataques suicidas, 40 escolas destruídas e 450 mil civis desalojados.

1900
vítimas mortais
e milhares de feridos

450 mil
desalojados

29
mesquitas destruídas
ou danificadas

4
pontes destruídas

3900
raides aéreos

90
ataques suicidas

8
hospitais destruídos

40
escolas destruídas

Para os representantes do projeto FE, a vitória sobre o EI não se deveu unicamente aos esforços militares organizados. ”Sempre houve movimentos de resistência dentro das cidades controladas pelo EI”, revela. Depois de perderem Mosul, tornou-se evidente que a derrota em Raqqa ia chegar. “Os terroristas começaram a ficar assustados porque se aperceberam que havia pessoas entre eles a trabalharem para os matar. Podiam fugir dos ataques aéreos, mas não das pessoas que os queriam matar”, explica.

Foto: Reuters

Além disso, a mesma fonte explica que a organização terrorista sempre viveu com problemas internos. “Os estrangeiros odeiam os locais e os locais não gostam dos estrangeiros porque ganham muito mais dinheiro”, explica. Os membros mais velhos da nossa comunidade desempenharam um importante papel na vitória, já que “convenceram os terroristas a desistir, negociando com eles uma saída pacífica”.

"O EI não tinha relação com o verdadeiro Islão"

Mas, para o ativista, o mais importante foi “a derrota da ideologia”. “Os habitantes de Raqqa aperceberam-se de que o EI não tinha qualquer relação com o verdadeiro Islão. Aquela propaganda era usada para perpetuar todo o tipo de crimes e atrocidades”, refere.

A vitória final, segundo o jovem Hasan, não foi difícil de conseguir, mas o preço a pagar foi muito elevado: “Estou contente e triste ao mesmo tempo. Para eliminar o EI foi preciso destruir completamente a cidade”. Uma posição partilhada pelo repórter do R24, que, ao JN, lamentou “a morte de dois membros do grupo na sequência de raides aéreos da coligação internacional”. O ativista lança ainda um alerta: “Continuamos a achar que  a estratégia militar contra o extremismo não é suficiente e, em alguns casos, pode ainda contribuir para que aumente”.

Vera Mironova, especialista em conflitos do médio-oriente, na Universidade Harvard, nos EUA, encara a situação na região com mais cautela. “Os terroristas que chegaram do estrangeiro já saíram do país, mas os nacionais, que fugiram de cidades como Raqqa, continuam na Síria e no Iraque. Ninguém sabe onde estão escondidos", refere.

A posição da especialista vai precisamente ao encontro da recente reportagem da BBC, que dá conta de que, durante a Batalha de Raqqa, cerca de quatro mil pessoas, entre membros do EI e familiares, abandonaram a cidade, com o apoio da coligação, viajando para parte incerta na região.

Vídeo: "Raqqa 24"

“A situação até pode escalar em termos de violência. É que muitos estão em fuga e em situações de descontrolo podem provocar mais destruição”, explica, ao JN, a investigadora, que nos últimos quatro anos acompanhou de perto a atividade do EI no Iraque, colaborando com o "The Washington Post" e com a NATO.

Também o regresso dos terroristas aos países de origem preocupa as autoridades.   O diretor do "Serviços Secretos Internos de França", Laurent Nunez, avisou, em entrevista à estação de rádio RTL,  que a retirada do grupo EI do Médio Oriente, com as recorrentes derrotas militares no terreno, "não enfraquece o nível de ameaça" nem diminui a capacidade dos extremistas para realizarem ataques violentos em França e no Ocidente.

"O desejo continua de pé, embora o risco surja por parte dos extremistas internos, mais do que dos que vêm das zonas de guerra", sublinhou Nunez.

 

 

 

FUTURO INCERTO

 

Futuro incerto

“Não se pode correr o risco de vencer a guerra e perder a paz”

É para o futuro que se tenta olhar agora. As milícias curdas e árabes que os EUA uniram para combater o EI hastearam as bandeiras no estádio de Raqqa, pondo, assim, fim a quatro meses de cerco para expulsar os terroristas da cidade. Mas, o que aí vem é ainda incerto e o sentimento de esperança é facilmente afogado nas cinzas de memórias de morte e destruição ainda tão vivas na cidade.


Fotos: Raqqa24
Ninguém consegue prever quem vai controlar Raqqa

 “Raqqa foi completamente destruída e as pessoas ainda não se sentem confortáveis para regressar à cidade. Ninguém sabe quem vai estar no controlo”, revela o ativista do FE. A única certeza é que o processo de reconstrução ainda vai demorar até porque o futuro foi condicionado por “verdadeiras lavagens cerebrais”. “Houve muitas crianças que foram ensinadas pelo EI. Uma das primeiras tarefas passa precisamente pela reeducação dos mais novos”, explica.

Vera Mironova lembra o que aconteceu depois da guerra no Iraque na década passada, onde se acreditava que, depois de desmilitarizar os grupos extremistas, a vitória era certa. “Não sabemos o que vai acontecer verdadeiramente em Raqqa, porque ninguém consegue prever quem vai estar a controlar a cidade”,explica. O apoio da aliança internacional “foi preponderante” na fragilização dos grupos terroristas, mas “não se pode correr o risco de vencer a guerra e perder a paz”.

“O verdadeiro trabalho contra o extremismo ainda está a começar e não vai ser fácil. Não podemos esquecer que o EI ainda tem soldados em Raqqa e não vai ser fácil encontrá-los a todos”, adverte fonte do R24. “Não vai ser fácil voltar a ser o que era, mas não é impossível”, aponta.

 

Jornal de Notícias | 2017-11-19