Fintar o trânsito de trotineta, bike, skate ou a correr
Foto: Pedro Correia / Global Imagens
Deixam o carro em casa porque não querem enfrentar o trânsito. Poupam tempo, paciência e ainda subtraem na conta do final do mês. Na cidade do Porto, há quem escolha ganhar qualidade de vida na ida para o trabalho. Vão de trotineta, bicicleta, de skate ou a correr, para evitar o carro a todo o custo. São apenas 16,5% dos portuenses, face aos mais de 60% que continuam a usar o carro como meio de transporte.
Foto: Pedro Correia/Global Imagens
O bancário da trotineta
Pedro Valle é bancário. Trabalha na Avenida da Boavista e há sete anos que se desloca para o emprego a dar lanço em cima de uma trotineta sem motor. A viver perto do trabalho, começou por fazer o percurso a pé, mas, quando uns familiares lhe ofereceram uma trotineta, trocou as passadas pelas duas rodas. Faz quatro quilómetros diários entre os passeios e ruas da cidade e, nos percursos mais longos, coordena a trotineta com o metro. Nos dias de chuva, deixa-a em casa. “Costumo dizer, por brincadeira, que ainda não aparafusei o guarda-chuva”.




Legalmente, as trotinetas sem motor, assim como todos os transportes não motorizados, à exceção da bicicleta, só podem circular nos passeios ou em pistas especiais. É o que prevê o Código da Estrada. No entanto, Pedro sente-se mais seguro a circular pelos passeios em paralelo do que pelas ciclovias. "A ciclovia da Avenida da Boavista está entre um estacionamento e a faixa de rodagem e há muitos carros estacionados em segunda fila. Se puder, prefiro usar uma rua paralela que, não tendo ciclovia, acaba por ser mais segura".

Quem olha percebe logo o problema. “Os carros mal estacionados obrigam-me a fazer ziguezagues e a entrar na faixa de rodagem portanto, há uma falsa sensação de segurança”, desabafa
Foto: Global Imagens
De bicicleta até à sala dos professores
Ricardo Cruz também prefere as duas rodas. Faz cerca de cinco quilómetros de bicicleta por dia, mas já fez 25. Foi em Paris que tomou a decisão alternativa. "Vi muita gente a deslocar-se de bicicleta para o trabalho. Achei que podia fazer o mesmo aqui no Porto." O professor de português vendeu o automóvel e passou a deslocar-se apenas de bicicleta. "Perguntam-me como é que eu faço, uma vez que não tenho carro. Respondo que organizo a minha vida de modo a não precisar dele".

Já teve várias bicicletas. Começou com uma de BTT, mas depressa se apercebeu que não era a indicada. Seguiu-se uma bicicleta nórdica, estilo holandesa, que até batizou com o nome de Sophia (em homenagem à poetisa portuguesa). Agora, anda numa dobrável. “É perfeita para a cidade. É pequena e muito ágil, mas isto vai muito do espírito de cada um”. Em casa, Ricardo guarda-a na sala de estar. No trabalho, fica na sala dos professores. Nos dias em que a meteorologia não ajuda, dobra a bicicleta e coloca-a na mala do táxi ou de uma viatura partilhada.




Nas deslocações diárias, Ricardo Cruz utiliza regularmente as vias destinadas aos transportes públicos. Considera que é mais seguro do que circular nas faixas de rodagem. "Toda a cidade deveria permitir a partilha da faixa bus com os velocípedes. Sei que na maior parte dos casos estou a cometer uma infração, mas utilizo todas as vias da cidade". A rua de Costa Cabral é a única rua do Porto onde é permitida a partilha da faixa bus com o velocípede.

A permissão da circulação de bicicletas nas vias destinadas à circulação de transportes públicos deve, no entanto, ser cautelosa. É o que defende Jorge Pinho de Sousa, diretor do programa doutoral em sistemas de transportes da FEUP. “Devo confessar que isso deverá perturbar significativamente o desempenho dos transportes públicos. O autocarro é mais eficiente quanto mais depressa andar. Não pode estar preocupado com o ciclista que anda a menor velocidade”.
Foto: Cristiana Milhão / Global Imagens
O professor e investigador do INESC TEC defende ainda que a “estrutura da cidade, a topografia, os declives, não incentivam à utilização dos modos de transporte suaves”. Por outro lado, “não há, nem nunca houve, investimento na construção de infraestruturas que promovam a utilização desses meios”. A solução passaria por “promovê-los numa lógica intermodal”, defende o investigador.
Foto: Artur Machado / Global Imagens
Sem o skate não ia trabalhar
Eduardo começou a andar de skate na adolescência e nunca mais parou. Aos 34 anos, recorda o início da aventura com a euforia de quem ainda mantém a paixão pelas tábuas e rolamentos. "Conheci o pessoal do skate e a partir daí foi sempre a andar, até hoje". Com a maturidade da idade adulta, e sem tempo para as acrobacias dos skate parques, é nas deslocações dentro da cidade que mata as saudades dos velhos tempos. "Roemo-nos por dentro quando não podemos andar”, confessa.

A viver na Maia, foi quando trabalhava na Foz do Porto que o skate se transformou na tábua de salvação. "Por dia, tinha que apanhar três autocarros, com o skate passaram a ser só dois. Se não fosse o skate não ia trabalhar”. Hoje em dia, trabalha perto de casa e, sempre que pode, vai em cima do skate. O único impedimento é a chuva. “A água incha a madeira, a lixa não adere nada e os rolamentos ganham ferrugem. Andar de skate à chuva não é bom”.




A circulação dos skates nos passeios é um dos maiores problemas nas deslocações. “Os passeios são pequenos, fazemos muito barulho e estorvamos as pessoas. Quando são em paralelo, temos que optar pelas estradas em alcatrão”. Nas estradas, a tarefa também não é fácil, diz.
Foto: Pedro Kirilos / Global Imagens
Dá corda às sapatilhas no caminho até ao trabalho
Quando vai trabalhar, Ester Alves evita a todo o custo o uso do carro. A trabalhar na Faculdade de Medicina, faz seis quilómetros da Maia até ao Porto, a correr ou de bicicleta. “Há zonas no centro da cidade tão problemáticas! Demora-se o mesmo tempo a estacionar como a vir a correr ou de bicicleta". A fazer investigação na área da saúde, passa muitas horas fechada no laboratório. “Ir a correr para o trabalho é a forma de o dia correr melhor, de ter mais adrenalina no cérebro e puder estar concentrada todo o dia nas minhas tarefas”. Quando termina a viagem, toma banho na faculdade em frente, a de Desporto, e depois segue para o trabalho.




Ester está habituada a praticar desporto desde jovem mas destaca que não é preciso ser experiente para usar a corrida como modo de transporte. "Pode custar a habituação mas depois torna-se um hábito agradável. São só benefícios e bem-estar ". A estas razões, soma a poupança no final do mês. “Para além de ser um bom complemento a nível de saúde, é uma forma de poupar dinheiro”.

A problemática da mobilidade suave dentro das cidades é discutida e estudada ao nível europeu. São apontados benefícios ligados ao meio ambiente, consumo energético e saúde e bem-estar da população. Ainda assim, em Portugal, seis em cada dez pessoas continuam a fazer o trajeto casa-trabalho de carro. As políticas de promoção da mobilidade suave estão ainda “na estaca zero”, na opinião do especialista Jorge Pinto Sousa.
Reportagem: Ana Mota Vídeo e edição: Ana Mota
Coordenação editorial: Manuel Molinos Programação: Tiago Coelho