Doulas

Uma rede de segurança
para os futuros pais

por Sara Gerivaz

Intitulam-se conselheiras, protetoras e guardiãs. As doulas acolhem casais desamparados e dão-lhes apoio “emocional, prático e funcional” durante a formação de uma nova vida, da gravidez ao pós-parto. Vivem na sombra de uma atividade não regulada, mas são cada vez mais procuradas por famílias que querem ter uma experiência informada. Não são profissionais de saúde, mas acreditam que podem coexistir no mesmo ecossistema. Sem tirar o lugar a ninguém.

Intitulam-se conselheiras, protetoras e guardiãs. As doulas acolhem casais desamparados e dão-lhes apoio “emocional, prático e funcional” durante a formação de uma nova vida, da gravidez ao pós-parto. Vivem na sombra de uma atividade não regulada, mas são cada vez mais procuradas por famílias que querem ter uma experiência informada. Não são profissionais de saúde, mas acreditam que podem coexistir no mesmo ecossistema. Sem tirar o lugar a ninguém.

Planear a
gravidez ao
detalhe e com
confiança

O aroma a bergamota enche o consultório de Rute Castro para receber Mafalda e Hugo. Farmacêutica de formação, a visiense de 35 anos começou por trabalhar com químicos, mas encontrou na naturopatia um caminho mais feliz. A experiência como doula surgiu mais tarde, após o parto do primeiro filho, numa cesariana de urgência.

“A minha experiência não foi boa. Queria ferramentas mais naturais e que determinados procedimentos não acontecessem, mas não foi assim. A minha reflexão foi que eu não me preparei o suficiente, então decidi informar-me mais e tirei o curso de doula”.

Rute não é caso único. Segundo Luísa Condeço, da Rede Portuguesa de Doulas, é precisamente a vivência de um parto traumático que leva muitas mulheres a mudarem de rumo. “Querem dar apoio a outras mulheres, mas também querem aprender para uma próxima gravidez”, afirma a responsável da associação criada em 2011. Desde o nascimento de Benjamim, Rute tirou inúmeras formações, sempre à volta do nascimento, e há cinco anos que concilia essas ferramentas com a experiência que acumulou enquanto profissional de saúde.

Cada “consulta” custa 60 euros. A doula trabalha temas como as necessidades da mulher na gravidez e no parto, os procedimentos hospitalares, as necessidades do bebé ou o papel do parceiro durante o processo, num plano sempre desenhado em conjunto com quem a procura. A escassas semanas da chegada de Olívia, já poucas dúvidas restam a Mafalda e Hugo para tirar com Rute, a doula que os acompanha desde a pré-conceção.

Optaram por ter a primeira filha em casa, uma decisão que nem sempre foi unânime. “Sempre idealizei que a nossa filha iria nascer no hospital, mas a Mafalda não. Eu achava que a ideia dela era antiquada e, agora que estamos tão evoluídos, até era um bocadinho irracional e pouco responsável”, explica Hugo.

Com o passar das semanas, o futuro pai de 32 anos foi procurando informação, ouviu as explicações de Mafalda e Rute e aceitou a ideia. “O que elas fizeram não foi convencer-me, foi educar-me”.

Se não houver nenhum imprevisto, Olívia vai nascer em casa, em Viseu, com a ajuda de uma equipa de profissionais de saúde contratada para o parto, depois de um conjunto de burocracias que os pais tiveram que tratar. Uma das exigências é estarem a 20 minutos do hospital.

“Para mim é muito importante saber que vou estar rodeada das minhas pessoas: quero ter o Hugo, a Rute e as enfermeiras-parteiras que já conheço e que não me vão aparecer pela primeira vez naquele momento. Dá-me toda a segurança”, explica Mafalda.

Na fase final da gravidez, sentem-se ambos parte do processo e estão seguros do futuro. Algo que, de acordo com o casal, só foi possível graças ao contributo da doula.

Pós-parto:
cuidar da mãe
em prol do bebé

Sentada no sofá da sala, Denise alimenta o pequeno Gustavo, escudada de Petra e Google, os cães da família. Um mês após o nascimento do primeiro filho, a amamentação já não é problema e a casa está organizada, mesmo depois do regresso de Rui ao trabalho, terminada a licença de paternidade. “Está tudo tranquilo” graças à presença de Rita.

Contar com uma doula representou “um peso muito grande no orçamento” que o casal de Gondomar suportou sem arrependimentos. “Foi uma orientação essencial, daí considerar que estas pessoas deveriam estar incluídas no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Não é um luxo, é informação e apoio emocional”, explica a recém-mamã de 36 anos.

A ajuda da doula foi focada no parto, para que Denise chegasse ao hospital “sem medos e com muito mais confiança”, mas o apoio no pós-parto tornou tudo mais fácil. “Foi a melhor decisão que tomei. A Rita é o meu anjo da guarda”.

Radioterapeuta há 18 anos no IPO do Porto, Rita Santos está habituada a cuidar dos outros e a ouvir receios e frustrações. Tornou-se doula e especializou-se no pós-parto por considerar um dos momentos mais desafiantes da vida de uma mulher.

A ajuda chega por vezes dos pequenos gestos. Em casa de Denise, em Rio Tinto, a doula aquece a água para um “escalda-pés” e disponibiliza-se para preparar uma refeição ou cuidar de Gustavo, enquanto a mãe vai espairecer ou tomar um banho mais demorado. “Cada doula define os serviços que quer prestar, de acordo com as necessidades do casal, mas a maior parte das vezes o mais importante é estar presente”.

Com as restrições impostas pela pandemia e com o tema da violência obstétrica na agenda mediática, Rita tornou-se mais procurada por casais que querem estar mais informados dos seus direitos. De acordo com a Rede Portuguesa de Doulas, a procura por este serviço aumentou 200% nos últimos dois anos.

“Numa sociedade a mil à hora, precisamos de momentos de pausa. Não somos educados para isso, mas sim para fazer, quanto mais depressa melhor, e às vezes é preciso parar. A gravidez é esse momento de pausa, que traz muitas questões ao de cima”.

Enquanto profissional de saúde, vê no papel da doula um complemento importante para lidar com a parte emocional da mulher durante a gravidez, parto e pós-parto, e considera que a regulação da atividade seria importante para afastar alguns mitos e dar mais segurança às doulas e aos casais.

“Dizem que as doulas fazem partos em casa ou na floresta, coisas super alternativas, quando não tem nada a ver com isso. A doula acompanha qualquer casal no parto que eles decidirem, isso inclui uma cesariana marcada”.

Hospital humanizado
é exceção no país




Apesar de a profissão de doula não estar regulada e de estas mulheres serem, em alguns casos, vistas com reserva, há serviços de saúde que permitem a sua entrada no sistema. É o que acontece no Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim e Vila do Conde (CHPVVC), um hospital de referência na humanização, onde os profissionais de saúde e as doulas trabalham com um só objetivo: colocar o casal no centro dos cuidados. Até à chegada da pandemia, o hospital permitia que a doula estivesse presente no parto com o casal, situação que ainda não voltou à normalidade.

“Não vejo problema na presença da doula porque a relação dela é emocional, afetiva e de comunicação com a parturiente. Não presta cuidados de saúde. Nós fazemos a nossa parte e elas fazem a delas”, esclarece Irene Cerejeira. A enfermeira-chefe do Serviço de Obstetrícia do CHPVVC constata que a saúde materna está a assistir a uma mudança de paradigma e que os casais chegam ao hospital mais informados e empoderados.

De acordo com a profissional de saúde, o hospital da Póvoa tem conseguido acompanhar a tendência, o que justifica a enorme procura de todo o continente e ilhas. No ano passado, o CHPVVC registou 876 partos de fora dos concelhos da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, num total de 1470.

Atividade sem regulação não é unânime

O que acontece no hospital da Póvoa é uma exceção e o trabalho destas terapeutas continua a ser polémico. A Rede Portuguesa de Doulas garante que “não fazem atos médicos”, mas alguns profissionais de saúde ainda não as aceitam. “É a ideia do tempo e do apoio individualizado, algo que não temos no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, esclarece Sara do Vale, do diretório Doula.pt.

Apesar de reconhecer que a crise sanitária deixou as grávidas com “muito menos acessibilidade aos serviços de saúde”, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros rejeita que o SNS não abra espaço aos casais para exporem as suas dúvidas.

Ana Rita Cavaco afirma que a Ordem “não vê utilidade nem vantagens” na existência das doulas e justifica-o quando diz que “há profissionais de saúde treinados para acompanhar a saúde materna e as famílias”. Por não haver legislação, a Rede Portuguesa de Doulas elaborou um código de ética para garantir princípios como a proibição de fazer atos médicos ou acompanhar partos planeados sem assistência médica.

Apoiar casais não implica conhecimento prévio em saúde materna, mas a associação dá formação a quem pretende seguir a atividade, através de um curso de 100 horas com oito módulos. Cada um no valor de 220 euros.

Já a Ordem dos Médicos considera que “o acompanhamento clínico e não clínico das grávidas está regulamentado em vários diplomas legais e orientações clínicas da DGS”, estando a doula inserida nos “acompanhantes da grávida''. A Ordem rejeita pronunciar-se quanto à regulamentação profissional da atividade.

Luísa Condeço revela que o atrito aparente com a classe médica não impede o aumento da procura pelo curso de doula, inclusive por parte de profissionais de saúde. “Há 20 anos achavam que fazíamos bruxaria. Ainda há desconhecimento e a ignorância leva a mal-entendidos, mas cada vez sentimos menos estigma”.

JN | 1 de junho de 2022

Reportagem: Sara Gerivaz Vídeo: Eduardo Fortunato e Sara Gerivaz Fotografias: Igor Martins e Maria João Gala/Global Imagens Web: Inês Moura Pinto