Germano Silva, 85 anos da História do Porto

Foto: Leonel de Castro / Global Imagens
“Quero andar para a frente”
“Aproveitei tudo o que pude”, é assim que Germano Silva responde quando, homem de estórias e do passado, se lhe pergunta sobre o futuro. “Nunca ninguém me ouviu dizer ‘no meu tempo é que era’. Quero andar para a frente”.

As Ruas

Germano Silva faz 85 anos, neste dia 13 de outubro. O jornalista, que tem a carteira profissional número 22, terá certamente a agenda preenchida, como sempre, e planos que sobram. “Gosto da palavra futuro”, atira com um sorriso enquanto nos leva até ao bairro onde viveu a partir dos seis anos.

O bairro operário do Cruzinho, no Campo Alegre, no Porto, para o qual foi viver com a família (é o mais velho de quatro filhos) foi a “primeira universidade da vida”, como nos conta. Morava no número 29, que é hoje a casa da irmã Maria José.

No bairro, agora esvaziado pelo tempo (de 45 casas apenas 15 estão ocupadas), era guarda-redes do Sporting Clube do Cruzinho. “Os do Sporting estavam em maioria e faltaram miúdos à votação para lhe chamarmos Futebol Clube do Cruzinho”, conta Germano, fervoroso adepto do FC Porto.

Hoje, o bairro fica escondido no meio de prédios altos e de hotéis, mas na altura existiam à sua volta apenas terrenos agrícolas. Germano cresceu em campo aberto, o cenário ideal para se permitir fazer todas as traquinices da meninice.

Ele, que enquanto jovem fez um pouco de tudo para viver: foi eletricista, carpinteiro e trolha, garante que foi nesta ilha, onde viveu até perto dos 30 anos, que se formou na bondade.
Foto: Adelino Meireles / Global Imagens
Aos 85 anos, o passo apressado testemunha a jovialidade de Germano Silva, continua a preferir as escadas ao elevador. Nasceu em Penafiel é certo, mas o cordão umbilical da vida está ligado ao Porto. É com orgulho que se assume um filho da cidade, desde o tempo em que o adultério dava pena de prisão e em que dizia às miúdas com quem se cruzava que era ‘viajante’, de forma a justificar o trabalho noturno como jornalista. “Tive dois anos o cartão de jornalista estagiário. Foi em 1956. Depois o chefe chamou-me e passei a fazer o horário das 10 da noite até às 4 da manhã. Nessa altura ainda trabalhava também na secretaria do Hospital de Santo António. Andei seis anos a fazer esse horário”, relata.

As memórias cravadas na ponta da língua passam décadas em segundos. Hoje, Germano Silva passa das memórias sobre a exploração salarial na Fábrica de Lanifícios de Lordelo, onde trabalhou dez anos, para as preocupações presentes de mimar Gastão, o cão rafeiro que adora.
Em muitos domingos do ano, as memórias do jornalista, que foi promovido a redator com a saga de notícias sobre o “Crime da rua do Sol”, são partilhadas por quem o segue nas visitas guiadas que faz pela cidade. Germano e uma multidão a passar.

Nas esquinas da cidade do Porto faz o friso do tempo voltar atrás e relata episódios monárquicos, lutas liberais, peripécias de jesuítas. De microfone na mão, mochila às costas, cabelos brancos e o tal passo apressado de quem está sempre em correria. Entre um século e outro, fala de si e alivia o peso da cultura com uma piada que leva quem o segue a desatar à gargalhada, antes de o seguir para a próxima paragem.

O Rancho Folclórico do Porto é presença assídua nestes passeios de Germano. Serve-lhe de banda sonora aos contos dos tempos idos, num exercício matinal que “dá saúde”, como garantem os companheiros.

Germano não leva papéis na mão. É “um profundo conhecedor da história da cidade”, advogam os amigos e admiradores, que se convenceram a trocar os livros e a estudar a cidade pelos passos que dão nas ruas atrás do jornalista.
Um dos que nunca acompanhou Germano nos passeios madrugadores de domingo é Nuno Canavez, mas isso é apenas um mero pormenor. “Sou amigo do Germano há 60 anos”.

Nuno Canavez é o rosto da Livraria Académica, onde começou como marçano depois de responder a um anúncio de trabalho publicado pelo Jornal de Notícias, em 1948! Aos 81 anos ainda conduz e continua em frente ao balcão a defender o livro acima de tudo e de todos.

Nascido em Mirandela, Nuno Canavez guarda religiosamente qualquer postal ou panfleto político que ache que possa faltar à coleção do amigo Germano. “Seria um crime, nesses casos, vender a outro cliente”, explica o alfarrabista, dizendo que se sente a participar, desta forma simples, na divulgação da cultura da cidade. A Livraria Académica é uma espécie de segunda casa para Germano. Aí encontra os livros e o amigo com quem debate os tesouros do passado.“Ele dedica-se a tudo isso com amor”, acrescenta Nuno Canavez.
Esse “amor” que Germano Silva carrega na mochila, que publica nas crónicas “À descoberta do Porto”, do Jornal de Notícias, que imprime nos livros, serve de mote às mais diversas distinções que recebeu ao longo da vida. Condecorações do amor à História e à cidade do Porto, a que se vai somar a atribuição do título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade do Porto. A cerimónia está marcada para o dia 3 de novembro.

Foto: Arquivo JN, Germano Silva a entrevistar o dermatologista Mesquita Guimarães

As gentes

Germano Silva esteve quarenta anos ao serviço do Jornal de Notícias. Retirou-se há 20 anos dos quadros da empresa. A maioridade não lhe tolheu a curiosidade. Germano continua a escrever (tem mais de 20 livros publicados) e a ser um estudioso inveterado, disposto a mover pedras e a devorar bibliotecas para descobrir algum pormenor em falta sobre os fantásticos mistérios da cidade. “O Manuel António Pina é o culpado da publicação dos meus livros. Escreveu o prefácio do primeiro que publiquei e entusiasmou-me. Com ele aconteciam as coisas mais incríveis. Um dia vínhamos a descer a rua da Boavista e vimos uma senhora com o filho ao colo a dizer que o marido estava a chegar. Vinha armado com uma espingarda!”, relembra a sorrir. “Conheci o Manuel António Pina no Piolho. Era um gajo com muito talento”, relembra Germano.

Por sua vez os amigos dizem que Germano é “uma máquina do tempo”, que tem “a idade da cidade” e que a conhece “como ninguém”.
“ele é a nossa máquina do tempo”, Álvaro Magalhães, escritor e amigo de Germano
“ele era um repórter da rua e tanto assim que na rua é que se deu bem", António Freitas Cruz, antigo diretor do JN
“ele vai a todos os sítios, vai aos becos, diz-nos da alma desses lugares”, António Fernandes, amigo e presidente do Rancho Folclórico do Porto
“tem dado um contributo extraordinário à cidade”, Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto













Agora que se prepara para uma nova e destemida fase da vida, Germano expõe a sua vida e obra na Casa do Infante, junto à Ribeira, no Porto. Do acervo constam as peças de uma vida dedicada à cidade e às suas gentes. Verdadeiras relíquias: livros antigos, uma estátua de São Pantaleão e outra de um São João ainda menino, milhares de páginas da História do Porto. Do homem jornalista descobre-se a máquina de escrever que utilizava nas viagens de trabalho no estrangeiro quando era redator do Jornal de Notícias, os recortes dos seus artigos depois de passarem na censura, a máquina fotográfica que usava, os artigos de primeira página!
Germano Silva é escritor e menino das ilhas do Porto. É um homem do mundo. Foi 15 vezes à China e três ao Tibete. Desse Oriente relata estórias e aventuras fantásticas. Mas agora a casa onde vive e estuda é o Porto.

Germano poderia ter sido padre, se o tio, que trabalhava na Câmara de Penafiel, não tivesse recusado o pedido para o colocar à frente do altar de Deus (o tio pertencia à maçonaria e não via com bons olhos a ida de Germano para a vida religiosa), mas seguiu o jornalismo e é católico.

É no todo um apaixonado pelo Porto.


“O que eu gosto é de utilizar a História para melhorar o futuro”.






Reportagem: Joana Almeida Silva e Lúcia Sousa Texto: Joana Almeida Silva Vídeo e edição: Joana Almeida Silva e Lúcia Sousa Design / programação: Tiago Coelho
Máquina de escrever que Germano Silva utilizava nas deslocações internacionais como enviado especial do Jornal de Notícias