Jorge
Sampaio1939 - 2021
18 de setembro
Nasce Jorge Fernando Branco de Sampaio, primeiro filho do médico Arnaldo Sampaio, que sempre fez carreira no serviço público, e da professora de inglês Fernanda Bensaúde Branco, descendente de uma das mais antigas famílias sefarditas em Portugal. Nasceu na maternidade fundada pelo seu tio-avô Abraão Bensaúde. Viveu em Sintra até aos quatro anos. O irmão Daniel, hoje psiquiatra, nasceria sete anos mais tarde. A família é a a sua fonte fundamental de inspiração. “Os meus pais marcaram-me muito. De cada vez que olho para trás, mais me impressiona a imagem, provocatória na afetividade, de que eles faziam entre si um puzzle perfeito. O pai desprezou as fabulosas oportunidades que a clínica privada então assegurava e trocou-as pelo que lhe era mais gratificante: a investigação e o serviço público.”
1944
Aos cinco anos entra para o jardim escola Queen Elizabeth’s Kindergarten & Junior School, em São Bento, onde teria como professora Mariana Rey Monteiro. Devido ao seu cabelo ruivo, os colegas chamavam-lhe “o cenoura”. Nessa altura, por questões logísticas, vai viver para a casa da avó Sarah, em Campo de Ourique, em Lisboa, onde descobre os livros, as tertúlias e onde hoje tem uma biblioteca com o seu nome.
1947
No dia em que completa oito anos, segue para Baltimore, no_Estados Unidos, com a mãe e o pai, que recebera uma bolsa para estudar saúde pública na Universidade Johns Hopkins. Ali inscreve-se no YMCA, onde pratica boxe e natação, e onde frequenta o conservatório, toca piano e timbales.
1949
Depois de chumbar na admissão ao Colégio Militar, entra para o Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Entre os seus amigos dessa altura destacam-se Rui Silva Pires, Eugénio Tavares Cardoso, Luís Sobrinho, Eurico Mendes e Miguel Galvão Teles. E integra a Mocidade Portuguesa, algo que lembra sem complexos. “Lembro-me de desfilar, fardado e muito ordenado. Eram momentos que me enchiam de uma felicidade infantil.”
1952
Passa férias com os pais em Londres, onde o pai faz investigação científica. A mãe leva-o ao parlamento britânico e Jorge Sampaio assiste a um debate na Câmara dos Comuns. Tem 12 anos e à sua frente está o primeiro-ministro Winston Churchill e Clement Attlee, dirigente dos trabalhistas.
Setembro de 1953
Entra para o Liceu Passos Manuel, onde tem como professores José Hermano Saraiva e Joel Serrão. Completa o ensino secundário com média de 12,3 valores.
1956
É admitido em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. No seu primeiro ano de faculdade é publicado o decreto-lei que estabelece o controlo rígido por parte do Estado das associações académicas, que estaria na origem da grande revolta estudantil contra o regime de Salazar.
Janeiro de 1957
Manifestação Nacional de estudantes leva Salazar a suspender o decreto-lei. Sampaio participa na manifestação e ganha o gosto pela intervenção cívica, que nunca mais largará.
1958
Humberto Delgado candidata-se à Presidência da República. Jorge Sampaio, então com 19 anos, não pode votar (o direito de voto só era adquirido aos 21 anos), mas não deixa de apoiar o General sem Medo.
1959
É eleito presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito. Ao todo, foi eleito três vezes. Da última vez (1960/61), a sua lista inclui nomes de pessoas que viriam a ser ministros. É o caso de Sá Borges, Vera Jardim e Rui Machete. Sérgio Vieira, que haveria de ser ministro em Moçambique, também estava na lista.
1961
Termina a licenciatura com 22 anos e 12 valores. Inscreve-se na Ordem dos Advogados e começa o estágio no escritório de José Olympio.
1961
É eleito secretário-geral da Reunião Inter-Associações Académicas (RIA).
1962
Colabora nas revistas “O Tempo e o Modo” e “Seara Nova”. Está na fundação do MAR (Movimento de Ação Revolucionária) que defende a luta armada e que tem como principal dinamizador Manuel de Lucena. É enquanto secretário-geral da RIA, que lidera a Crise Académica de 1962. Na sequência da greve às aulas é detido durante três dias na prisão de Caxias. E acaba mesmo por ser expulso da Faculdade de Direito, com o argumento de que já não era estudante.
Sobre essa altura, diria mais tarde: “Um dia, olho por entre as árvores do Estádio Universitário, num daqueles plenários, e vejo o meu pai. É uma coisa que não se pode esquecer em caso algum, até porque era um grande risco que ele estava a correr. O apoio dele sempre existiu. A minha mãe, por seu turno, era uma educadora bastante rígida, mas muito firme nos princípios. Deu aulas de inglês toda a vida. Era uma democrata. Os dois eram antiditadura, com uma vida remediada.”
20 de julho 1962
A PIDE visita a casa de Jorge Sampaio, em Sintra, e apreende-lhe vários livros e documentos pessoais. Dois meses depois, ele é chamado para ser interrogado.
1963
Termina o estágio de advocacia. O seu protagonismo na Crise Académica despertou a curiosidade de Mário Soares, que o convida para defender um dos arguidos do Golpe de Beja. A defesa de presos políticos marca toda a sua carreira, embora a sua especialização seja em patentes e propriedade industrial.
1965
Regressa aos Estados Unidos, já não por causa do pai, mas por ter conseguido uma bolsa de Foreign Leader Program. Passa lá quatro meses, o tempo suficiente para assistir aos discursos de Edward Kennedy e Robert Kennedy, no Senado, em Washington.
1967
Casa com Karin Dias, uma estudante de Medicina, que haveria de ser a pioneira da Neuropediatria na região sul de Portugal.
Agosto de 1968
Numa deslocação a Paris, conhece Álvaro Cunhal, o histórico líder dos comunistas. À Esquerda todos querem conquistar Sampaio para a sua equipa, incluindo o PCP. Mas nessa altura, Cunhal defende a invasão soviética da Checoslováquia e, com isso, inviabiliza para sempre qualquer entendimento. É no decurso desta viagem que Sampaio sabe que Salazar caiu da cadeira.
1969
Ano de eleições. Mário Soares é autorizado a regressar do exílio. Marcelo Caetano, que substitui Oliveira Salazar, disputa as eleições. Sampaio integra as listas da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) nas eleições para a Assembleia Nacional, que reunia comunistas, católicos, progressistas e outras fações. O país acreditava na primavera marcelista, mas rapidamente percebe que as eleições não serão assim tão livres. A União Nacional vence com 87,7% e a oposição toda junta fica-se pelos 12,3%.
1973
Divorciado desde 1971, começa a namorar com Maria José Ritta, com quem haverá de casar em abril 1974 e de quem terá dois filhos, Vera e André.
Abril de 1974
Sabe da movimentação dos capitães através de um telefonema de César Oliveira. No dia seguinte, começa a negociar a libertação dos presos políticos de Caxias.
Recorde-se que “25 de Abril sempre” foi um slogan inventado por Jorge Sampaio. “É uma criação minha. Foi numa reunião com o PCP e o MDP. Com o Piteira, que pertencia àqueles comités... Era uma tentativa de celebrarmos o 25 de abril em conjunto, e era preciso comemorar numa perspetiva de Esquerda. E eu lancei o slogan “25 de abril sempre”. O Carlos Brito sabe disso. Ele estava lá nessa reunião e sempre que o encontro, rimo-nos imenso lembrando isso.”
Maio de 1974
Depois do 25 de Abril, Sampaio é um dos fundadores do MES (Movimento de Esquerda Socialista), projeto que abandona logo no primeiro congresso, em dezembro de 1974, manifestando-se, de forma exaltada, contra a orientação ideológica marxista-leninista.
28 de setembro de 1974
Sampaio está nas barricadas contra a manifestação denominada “Maioria Silenciosa” de apoio ao general Spínola, então Presidente da República.
Março de 1975
No período revolucionário, é amigo de Melo Antunes, elemento do grupo dos Nove (militares de tendência moderada do MFA), que apoia, e acaba por ser chamado para o 4º Governo provisório, para ser secretário de Estado da Cooperação Externa. “Há histórias desse período verdadeiramente extraordinárias. Chegámos a arranjar um bunker para nos refugiarmos, não fosse haver um golpe de extrema-esquerda. Nós seríamos os primeiros a cair, como braço civil dos Nove.”
Novembro de 1975
A seguir ao golpe de 25 de novembro, funda a Intervenção Socialista (IS), com o sonho de unir as esquerdas. Nesta altura fica claro que Sampaio acredita e defende uma terceira via, uma alternativa ao PS e ao PCP. “Nós tivemos um papel de procurar na sociedade civil uma espécie de aliança entre o PS e o PCP, que não resultou. Vistas as coisas com frieza, não tivemos êxito. O PS nem sequer participou no colóquio da IS.”
1977
Entra para a Sociedade de advogados criada por Vera Jardim denominada Jardim, Sampaio Magalhães e Silva & Associados.
1978
A IS é absorvida pelo PS. E Sampaio torna-se militante do Partido Socialista, com o número 102.279.
1979
Eleito pela primeira vez deputado do PS.
1986
Lidera o grupo parlamentar do PS.
18 de novembro de 1988
Jorge Sampaio candidata-se a secretário-geral do PS. Atrás de si tem já um percurso repleto de vitórias: foi eleito deputado à Assembleia da República nas eleições de 1980, 1985 e 1987. Voltaria ainda a ser eleito deputado em 1991. Nesta altura fora também já o primeiro português a integrar a Comissão Europeia dos Direitos do Homem, no Conselho da Europa.
16 de janeiro de 1989
É eleito secretário-geral do PS, derrotando Jaime Gama. Sucede a Vítor Constâncio, que pedira demissão. Lidera o PS até 1992, altura em que António Guterres ganha o partido no congresso.
6 de julho de 1989
Anuncia a candidatura à Câmara de Lisboa, seis meses depois de ser eleito Secretário-Geral do PS. Candidata-se depois de não ter conseguido que ninguém do partido aceitasse ser o candidato à Câmara da capital. Pela primeira vez, é feita uma aliança à Esquerda com o PCP. A coligação chama-se “Por Lisboa”. “Foi uma decisão política marcante. Ninguém queria avançar. Fechei-me em casa durante dois dias e decidi que era eu, o que alterou tudo. Foi muito difícil conjugar a vida entre secretário-geral e presidente da Câmara. Muitos dizem que foi por ter pedido as eleições de 1991 que foi possível fazer o percurso que fiz. Eu digo que, quando fui eleito presidente da Câmara, talvez pudesse ter saído de secretário geral. Tenho sempre essa dúvida.”
17 de dezembro 1989
Tem 50 anos quando é eleito presidente da Câmara de Lisboa. A vitória é de 49,1% contra 42,1% de Marcelo Rebelo de Sousa, candidato do PSD-CDS-PPM. Distribui os cargos de vereação aos eleitos do CDS e do PPM. Só o PSD não aceita.
22 de janeiro de 1990
Sampaio toma posse como presidente da Câmara de Lisboa no dia de S. Vicente, padroeiro da capital. Elege como prioridade a conclusão do Plano Estratégico e do Plano Diretor Municipal (PDM) e o Plano Especial de Realojamento (PER).
6 de outubro 1991
Vai a votos nas eleições legislativas, mas perde para Cavaco Silva. O PS tem apenas 29,1% dos votos, enquanto o PSD de Cavaco Silva consegue a sua segunda maioria absoluta, com 50,6%. É a única derrota em cinco eleições que disputou na sua vida política.
1992
Derrota no X Congresso do PS. O partido escolhe António Guterres como secretário-geral. Sampaio deixa a Assembleia da República e passa a dedicar-se exclusivamente à Câmara de Lisboa.
12 de dezembro de 1993
Reeleito presidente da Câmara de Lisboa com 56.6% dos votos contra 26,4% de Macário Correia, candidato do PSD. A coligação é alargada ao PSR e UDP. A nova coligação chama-se “Com Lisboa”. Enquanto autarca é eleito presidente da Federação Mundial das Cidades Unidas e do Movimento Eurocidades.
1994
É anfitrião de Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura, e ajuda a lançar as pontes para a Expo 98, o que implica a reconversão urbana da zona oriental da cidade.
1 de julho de 1995
Anuncia candidatura a Belém e demite-se da presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Mais uma vez, fá-lo à revelia do PS. Toma a decisão sozinho, “sem empurrões”. O apoio do partido chegaria mais tarde.
14 de janeiro de 1996
Aos 56 anos, é eleito Presidente da República à primeira volta contra Aníbal Cavaco Silva. Pela primeira vez na história da democracia em Portugal, Governo e Presidente da República são do mesmo partido. Jorge Sampaio obtém 53,91% dos votos contra 46,09% de Cavaco Silva. É o 17º º Presidente. Promete ser o presidente de todos os portugueses, mas não entrega cartão do Partido Socialista. Nessa noite, afirmou: “Em cinco eleições, ganhei quatro. E a que perdi foi nas condições que são conhecidas.”
9 de março de 1996
Toma posse como Presidente da República. O primeiro chefe da Casa Civil é António Franco (1944-2020). Por ele hão de passar quatro primeiros-ministros: António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates. Organiza semanas temáticas, percorre os 308 municípios do país e faz um périplo pelos dez países do alargamento, antes da adesão de maio de 2004.
13 de abril de 1996
Internado no Hospital de Santa Cruz para uma operação ao coração. Detetada uma válvula malformada que provoca alteração de ritmos cardíacos. Os exames detetam também um aneurisma da artéria coronária direita. Tem alta 12 dias mais tarde e diz estar “mais saudável e mais enérgico”.
27 de julho de 1996
É novamente operado ao coração. Desta vez, a cirurgia é de coração aberto. Ao entrar no hospital, disse: “Até daqui a três dias, espero.” A data é escolhida por Jorge Sampaio, que quer aproveitar o período de férias para recuperar. Pela primeira vez o Tribunal Constitucional recebe um pedido de impedimento temporário de um Presidente da República. Jorge Sampaio é substituído interinamente nas funções por Almeida Santos (1926-2016), presidente da Assembleia da República. Mais tarde, elegeria esse momento como o pior da sua vida. “Se tiver de referir alguma coisa, talvez refira a véspera da intervenção cirúrgica que sofri. Não que a tenha vivido com particular dramatismo. Mas foi um daqueles momentos que não esquecemos.”
28 de junho de 1998
É o primeiro Presidente da República a convocar referendos: o primeiro é sobre a interrupção voluntária da gravidez.
8 de novembro de 1998
O sefundo referendo é sobre a regionalização.
1999
Viaja para Cuba, no âmbito da Cimeira Ibero-Americana, e encontra-se com Fidel Castro em Havana, com quem já estivera outras vezes, nomeadamente em 1998 no Porto. Em novembro de 2016, quando o revolucionário cubano morreu, afirmou: “É verdade um dos líderes mais carismáticos que já conheci, suscitando ao mesmo tempo resistências ferozes e entusiásticas admirações.
1999
Recebe um Doutoramento honoris causa pela Universidade de Aveiro.
Agosto de 1999
1999 é um ano marcado pelos massacres ocorridos depois do referendo em Timor-Leste. Em agosto há o referendo. O papel de Sampaio, em coordenação com o Governo, é determinante para que a comunidade internacional tome uma posição. Perante a violência, após a divulgação dos resultados, Jorge Sampaio, António Guterres e Jaime Gama desdobram-se em contactos para que entre uma força de paz internacional no território timorense.
15 de setembro de 1999
O Conselho de Segurança aprova a entrada da Força Internacional.
19 de dezembro de 1999
Transferência de Macau para a China. Após 442 anos de história, Jorge Sampaio é o Presidente da República que concretiza a transferência do território para a administração chinesa.
Janeiro de 2000
Entra de novo no hospital para uma intervenção a uma hérnia inguinal e para corrigir uma fibrilhação auricular. Voltará mais vezes ao hospital. Tem como princípio ir sempre para um hospital público.
12 de fevereiro de 2000
Sampaio é o primeiro Chefe de Estado português a visitar Timor-Leste depois do referendo. Durante a visita é informado da morte da mãe, aos 91 anos, a pessoa da família a quem era mais chegado. Chega a Portugal uma hora antes do funeral.
19 de outubro de 2000
Anuncia recandidatura à Presidência da República.
14 de janeiro de 2001
É reeleito Presidente da República com 55,5% dos votos, derrotando Joaquim Ferreira do Amaral, ex-ministro do PSD, que se fica pelos 34,7%.
Março de 2001
Durão Barroso (PSD) vence as eleições legislativas e convida Paulo Portas (CDS) para uma coligação pós-eleitoral.
4 de março de 2001
Queda da ponte de Entre-os-Rios. Cinquenta e nove pessoas morrem na sequência da queda. Jorge Sampaio decide que as cerimónias da tomada de posse ficarão circunscritas à Assembleia da República em sinal de luto pelas vítimas da tragédia.
9 de março de 2001
Toma posse como Presidente da República. Diz que a reeleição é entendida como confiança no seu primeiro mandato e propõe o exercício de uma magistratura ativa contra o pessimismo e a resignação do povo português.
Junho de 2001
Durão Barroso comunica que aceita chefiar a Comissão Europeia. Após duas semanas de audiências decide não marcar eleições. O líder do PS, Eduardo Ferro Rodrigues, demite-se e acaba a amizade.
20 de outubro de 2001
Criticado por promulgar uma nova Lei de Programação Militar (LPM), e especialmente arrasado por Marcelo Rebelo de Sousa nos seus comentários da TVI, que em função disso renuncia ao Conselho de Estado. “Palhaçada”, “Fraude” e “enxovalho” foram algumas das palavras escolhidas por Marcelo, para classificar aquilo que considerou “uma evidente mentira constitucional”.
16 de dezembro de 2001
Depois de uma derrota histórica nas eleições autárquicas, António Guterres demite-se, alegando “pântano político”, e Jorge Sampaio dissolve a Assembleia da República.
1 de janeiro de 2002
12 países, incluindo Portugal, adotam o Euro. Sampaio substitui a velha moeda nacional. “Um passo enorme, durante muito tempo considerado utópico, para a consolidação e progresso de construção europeia.”
20 de maio de 2002
Independência de Timor-Leste. Jorge Sampaio é o Presidente da República que encerra a descolonização portuguesa. Voltará ao novo àquele país em fevereiro de 2006.
5 de outubro de 2002
Nas comemorações do 92ª aniversário da implantação da República, a propósito do envolvimento de Paulo Portas, então ministro do Estado e da Defesa, no escândalo da Universidade Moderna, Jorge Sampaio faz um discurso em que exige rigor ético aos políticos.
2002
Sampaio pede ao Governo de Durão Barroso reformas de fundo na Economia, na Saúde, na Educação e na Justiça.
2003
Lança os “Encontros de Arraiolos”, que reúne chefes de Estado dos países da União Europeia.
16 de março de 2003
Cimeira das Lajes com George Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e José Manuel Durão Barroso. É a chamada Cimeira da Guerra do Iraque. Jorge Sampaio é informado da Cimeira pouco tempo antes da sua realização. Como Comandante Supremo das Forças Armadas impõe que não haja militares portugueses no conflito. O governo envia apenas elementos da GNR. Em 2016, Durão Barroso, numa entrevista ao “Expresso”, afirma que Jorge Sampaio não só sabia da Cimeira como concordara com ela. Sampaio respondeu num longo artigo no “Público”, intitulado “Iraque, evocações presidenciais”, desmentido Durão. “Quero recordar aqui o telefonema que, pelas 7 da manhã de 14 de março, recebi do primeiro-ministro, solicitando-me uma reunião de urgência. Para minha estupefação, tratava-se de me informar que havia sido consultado sobre a realização de uma cimeira nos Açores, essa mesma que, nesse mesmo dia, a Casa Branca viria a anunciar para 16 de março, daí a pouco mais de 48 horas (...). Não é preciso ser-se perito em relações internacionais para se perceber que eventos deste tipo não se organizam num abrir e fechar de olhos; e também não é necessário ser-se constitucionalista, para se perceber que não cabe ao Presidente autorizar ou deixar de autorizar atos de política externa.”
25 de abril de 2003
Nas comemorações do 25 de Abril Jorge Sampaio faz um longo discurso sobre a necessidade de desenvolvimento económico. No seu discurso, aplaudido de pé por todas as bancadas, há uma frase que ficará para a história: “Há mais vida para além do Orçamento. A economia é mais do que finanças públicas.” A frase seria depois muitas vezes retirada do contexto ou errdamente citada.
30 de abril de 2003
É lançada a COTEC – Associação Empresarial para a Inovação, que o Presidente da República patrocina.
2004 - Ano horribilis
O ano de todas as decisões de Jorge Sampaio. Criticado por fazer uma leitura redutora dos seus poderes e apontado por exercê-los de uma forma discricionária, ao sabor das emoções e sem fundamentos de peso por ter dissolvido a Assembleia da República, e não poupado pelo PS, que o acusa de traição, Sampaio lança um novo tema para o debate: os poderes presidenciais devem ser revistos? Em 2004, em apenas cinco meses, aceita a demissão de Durão Barroso, dá posse a Santana Lopes e dissolve o Parlamento. Apesar de todos os terramotos políticos, 2004 é também o ano em que Jorge Sampaio é distinguido com o Prémio Carlos V, pelo seu empenho no ideal europeu.
25 de abril de 2004
30.º aniversário do 25 de abril. Em entrevista ao JN defende que a melhor maneira de celebrar o aniversário é enaltecer o futuro. “O passado só interessa quando o soubermos ler com olhos de futuro. O essencial é termos tido aquela rutura, que iniciou a Democracia. Depois disso, o 25 de abril deve celebrar-se como uma data de todos os portugueses que nela se reconhecem, reconhecendo-se na liberdade que ela nos trouxe. Do passado, devemos ter memória e tirar ensinamento. O fundamental é que os mais novos saibam que há 30 anos não se podia escrever livremente, as reuniões eram clandestinas, havia prisões políticas. Convém não esquecer, mas é olhando o futuro que se cumpre o 25 de abril, pois foi em nome do futuro que ele se realizou e nos empolgou.”
22 de junho de 2004
Durão Barroso informa formalmente o Presidente da República que aceitou presidir à Comissão Europeia.
29 de junho de 2004
Enquanto o país anda entusiasmado com o Euro 2004, Jorge Sampaio inicia ronda de quatro dias com personalidades de diversos setores da sociedade portuguesa para ouvir a opinião sobre o que deve fazer. Consulta 16 personalidades.
6 de julho de 2004
Jorge Sampaio recebe os partidos políticos.
9 de julho de 2004
Declaração ao país de Jorge Sampaio nomeando Santana Lopes como primeiro-ministro. Eduardo Ferro Rodrigues, amigo de Jorge Sampaio, demite-se de secretário-geral do PS e corta as relações de amizade com o Presidente. Jorge Sampaio haveria de confessar ter chorado neste dia.
Agosto de 2004
Incêndios florestais no Algarve. Sampaio critica a descoordenação de meios.
20 de novembro de 2004
Santana Lopes é recebido em Belém, depois de uma maratona de polémicas, incluindo a de Marcelo Rebelo de Sousa, que nessa altura abandona os comentários políticos na TVI, acusando o Executivo de pressões políticas.
30 de novembro de 2004
Jorge Sampaio chama de novo Santana Lopes a Belém e informa-o que vai dissolver a AR. A gota de água: a demissão do ministro da Juventude e do Desporto, Henrique Chaves.
10 de dezembro de 2004
Comunicação ao país de Jorge Sampaio para informar que decidiu dissolver a Assembleia da República e convocar eleições antecipadas. É a primeira vez que um presidente decide dissolver a Assembleia da República com uma maioria absoluta de apoio a um governo. “Entendi que a manutenção em funções do Governo significaria a manutenção da instabilidade e da inconstância. Entendi ainda que se tinha esgotado a capacidade da maioria parlamentar para gerar novos governos.”
20 de fevereiro de 2005
José Sócrates ganha com maioria absoluta. É a primeira maioria obtida pelo PS.
7 de março de 2006
Sampaio visita a Escola Pedro Nunes e defende o investimento da educação como o “caminho para a excelência”. Nesse dia explica às crianças o que é, para ele, a democracia. “É não ter de falar nela, é vivê-la todos os dias.”
9 de março de 2006
Jorge Sampaio sai do Palácio de Belém, depois de dez anos em que fez 41 visitas de Estado a países dos cinco continentes. Somam-se 78 visitas oficiais a 18 instituições internacionais. Ou seja, 137 viagens fora do país, uma média de quase 14 por ano, contabiliza Jose Pedro Castanheira na biografia de dois volume de que é autor. A partir daí, Sampaio, que gostava de ter sido diplomata, dedica-se a causas humanitárias.
Maio de 2006
A convite de Kofi Annan, é designado Enviado Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Luta contra a Tuberculose. Objetivo: “Para 2015, é parar e fazer diminuir o número de casos novos e, do ponto de vista do desenvolvimento do milénio, diminuir para metade as mortes.”
Abril de 2007
Kofi Annan é substituído por Ban Ki-Moon, que o nomeia Alto Representante para a Aliança das Civilizações.
24 de janeiro de 2010
Recebe um Doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra.
11 de outubro de 2010
Recebe um Doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, aquando das comemorações do centenário da mesma, coincidindo com as comemorações do centenário da República Portuguesa.
2012
Jorge Sampaio é distinguido pela Organização Mundial de Saúde.
Outubro de 2012
É publicada a primeira parte de uma extensa biografia, assinada por José Pedro Castanheira. O primeiro volume abarca a vida pessoal de Jorge Sampaio, da sua geração e da história do país desde as eleições presidenciais de 1958, até à sua ascensão a secretário-geral do PS, em 1989. O segundo volume cobre os 16 anos seguintes, desde a candidatura e vitória à Câmara Municipal de Lisboa, até ao fim do seu segundo mandato como chefe de Estado, em 2006. “Vindo da esquerda do PS não integra nenhuma das famílias que fazem parte do ADN do partido e nunca se livrou da suspeita de privilegiar o diálogo com o PCP. Ainda por cima, o seu perfil não era tão populista como alguns desejariam e tinha a fama de ser um homem hesitante ou de decisões menos rápidas”, sintetizou Castanheira.
Novembro de 2013
Funda a Plataforma Global de Assistência Médica de Emergência a Estudantes Sírios na sua formação superior, com atribuição de bolsas de estudo desde o ano letivo 2003-2004.
24 julho de 2015
Jorge Sampaio recebe o primeiro Prémio Nelson Mandela das Nações Unidas. O galardão, a ser atribuído a casa cinco anos, visa premiar “feitos e contribuições excecionais” ao “serviço da humanidade”.
2016
Empenha-se na candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas.
23 de julho de 2016
Hospitalizado devido a pico de tensão.
20 de outubro de 2016
Novamente internado devido a pico de tensão.
9 de setembro de 2017
É operado de urgência devido a “problemas acrescidos de mobilidade”.
5 de maio de 2019
É galardoado com o prémio humanitário McCall-Pierpaoli, atribuído através da Plataforma Global de Apoio aos Estudantes Sírios.
18 de setembro de 2019
Celebra o 80.º aniversário. O PS quer homenageá-lo e pede-lhe para escolher um local. Jorge Sampaio escolhe a sede do partido, no Largo do Rato, em Lisboa. Consciente do seu percurso, afirmou nesse dia: “Sei que não tenho de justificar nada”.
27 de agosto de 2021
É internado com dificuldades respiratórias.
10 de setembro de 2021
Morre aos 81 anos, no Hospital de Santa Cruz, em Lisboa.
Fonte: JN
Textos: Helena Teixeira da Silva
Programação: Tiago Coelho