Mulheres na frente do pelotão
Foto: Pedro Correia
As militares portuguesas nunca se sentiram tão integradas nas Forças Armadas como hoje. Assumem postos de primeira linha na hierarquia militar, mas os números mostram uma diminuição do sexo feminino nas fileiras. Seis histórias de portuguesas que vestiram a farda.
Ana Sereno queria entrar na tropa desde tenra idade. O pai cumpriu o serviço militar obrigatório e incutiu-lhe os valores do Exército. “Acabou por me empurrar nesta direção”, diz. Após o ensino secundário, a atual primeiro-sargento no Regimento de Cavalaria Nº6, em Braga, tentou o impossível para entrar neste ramo das Forças Armadas Portuguesas. Porém, a saúde trocou-lhe as voltas. A miopia acentuada não lhe permitiu ingressar logo nas fileiras. O sonho foi adiado.

A militar de 31 anos faz parte de um conjunto de mulheres que vestiram a farda a partir de 2010, ano em que o sexo feminino atingiu o número mais elevado de efetivos nas Forças Armadas. No total, 5410 mulheres tinham uma vida militar, segundo dados do Ministério da Defesa Nacional.
Foto: Gonçalo Delgado
A partir daí, o número foi descendo e não recuperou. Em 2015, eram 3260 mulheres nas fileiras. “Homens e mulheres diminuíram na mesma proporção em números absolutos”, adianta a socióloga Helena Carreiras. A diminuição do número de recrutados, especialmente na categoria de praças, em regime de contrato, poderá contudo ter penalizado mais o sexo feminino.

A 31 de maio de 2017, 932 mulheres estavam em regime de voluntariado e de contrato no Exército, em oposição às 326 mulheres no quadro permanente. “Não parece haver uma redução do número de candidatas no Exército”, esclarece. O maior problema, segundo a também investigadora, pode estar na menor atratividade que as Forças Armadas suscitam junto das camadas mais jovens, onde se incluem as mulheres e os regimes de contrato.



Poucas escolhas para as primeiras mulheres militares
A História das mulheres nas Forças Armadas Portuguesas foi feita mais de avanços do que de recuos. Em 1961, Portugal deu um passo pioneiro: um grupo de enfermeiras paraquedistas da Força Aérea foi destacado para a Guerra do Ultramar. Desempenhavam sobretudo funções de apoio aos soldados e auxílio dos feridos. Tiveram preparação física e instrução militar para superar a guerra sangrenta que assolava as antigas colónias portuguesas, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Porém, após a Revolução de 1974, quase uma década passou, sem grande alteração no processo de integração das mulheres nas fileiras. Apenas em 1990, a academia da Força Aérea começou a admitir mulheres em áreas como a engenharia e a administração. Seguiu-se em 1992, o Exército com a admissão de cadetes femininos. A Marinha abriu o recrutamento a um contingente de 80 jovens mulheres, no mesmo ano. Em 1994, entrou o primeiro grupo de mulheres oficiais para a Escola Naval.
Foto: Pedro Correia
As portas abriram-se gradualmente à entrada do sexo feminino, assim como as funções que desempenhavam dentro de cada ramo das Forças Armadas. “Quando entramos também não estava aberto qualquer curso às mulheres”, diz a tenente-coronel Carla Ramos, de 42 anos. Escolheu administração militar, as restantes opções para mulheres eram os serviços e as transmissões.
O síndrome de ser pioneira na tropa
“Não posso dizer que a Marinha estivesse preparada em 1994 para receber mulheres. Até aí os navios estavam pensados para que todos os elementos da guarnição fossem homens”, esclarece a comandante Mónica Martins, a segunda mulher a comandar um navio patrulha oceânico da Marinha Portuguesa.

Atualmente será impensável pensar nas Forças Armadas sem mulheres e ainda pouco preparadas, psicológica e logisticamente, para atender às necessidades das militares portuguesas. Mariana Almeida, de 25 anos, segunda-tenente, entra nesta realidade.

O ano de 2018 será o marco do trajeto da igualdade de género nas forças militares de Portugal. Regina Mateus assumiu a 23 de julho a direção do Hospital da Forças Armadas e tornou-se, por isso, a primeira mulher general portuguesa. Em tantos outros setores e funções, as mulheres militares sobressaem-se por serem as primeiras. Um síndrome que para muitas é um motivo de orgulho, mas que pode acarretar situações menos positivas.

“É natural que haja mais foco sobre aquela primeira mulher, porque é pioneira e está a desbravar caminho. No entanto, temos de pensar na pressão que é feita sobre elas, caso algo corra mal”, explica a comandante Marta Gabriel, representante do Estado-Maior General das Forças Armadas para a Perspetiva de Género.



Forças especiais sem a presença feminina
Passados quase 23 anos da entrada na Força Aérea, a chefe do setor de assistência e socorro no Aeródromo de Manobra Nº1, em Maceda, Ovar, sabe bem que aquele não era inicialmente o sonho que a família idealizava para si. “O meu pai ao início não gostou muito da ideia, até ao dia em que viu o meu juramento de bandeira. Conheceu as nossas instalações, o que fazíamos no dia-a-dia e ficou mais seguro”, afirma a sargento-ajudante Sandra Costa, de 44 anos.
Foto: Pedro Granadeiro
Os treinos físicos durante e após recruta nunca foram impeditivo de nada. Sandra vinha da área do desporto, sabia o que o corpo exigia e permitia e o seu aguentou. Atualmente, não há registo de mulheres em forças especiais, incluindo os Comandos, nas Forças Armadas Portuguesas. A exigência física poderá ser uma das razões que explica a ausência feminina, já que o acesso não lhes é negado.

Já Joana Pinto não passou pela recruta nem nunca imaginou vestir uma farda militar. A necessidade aguçou o engenho. No final do mestrado integrado em Engenharia do Ambiente, procurava emprego na área. O anúncio da Força Aérea à procura de um chefe de gabinete de qualidade e ambiente preencheu os seus próprios requisitos. “Gostei do rigor e identifiquei-me com muitos dos valores, para mim foi um bónus”.
Foto: Pedro Granadeiro
A atual alferes do Pinhal Novo pertence a uma das gerações mais qualificadas em Portugal, que é também um dos público-alvo das Forças Armadas Portuguesas para o rejuvenescimento das fileiras. A engenheira do ambiente tem um contrato mínimo de três anos, renovável anualmente. Joana pode ficar até seis anos em contrato. E depois? “Não existe quadro para a minha especialidade, portanto para ficar na Força Aérea teria de candidatar-me a outra especialidade e sair da minha área de estudo. Neste momento, esse não é o meu objetivo”.



A importância de ser mulher nas fileiras, cá dentro e lá fora
Cada um dos ramos das Forças Armadas Portuguesas tem atualmente pessoal dedicado à integração da perspetiva de género, um conceito que entrou na vida militar e em outras esferas da sociedade, para garantir o acesso de oportunidades, direitos e responsabilidades a homens e mulheres. “Quando vamos numa operação militar e queremos garantir proteção de uma população, temos de verificar as diferentes necessidades de homens e mulheres, rapazes e raparigas”, esclarece a major Diana Morais, uma das vice-presidentes do Comité Executivo da NATO para a Perspetiva de Género.
Foto: Rui Manuel Fonseca
A organização transatlântica estabelece como prioridade a integração de mulheres nas fileiras militares: a média está no 11%. Em 2017, Portugal situava-se nos 10,5%, mas há sete anos a percentagem era de 13,6 % de mulheres nas Forças Armadas, segundo dados revelados pelo estudo da socióloga Helena Carreiras.

A “mãe de todas as resoluções”, nas palavras da major Diana Morais, está todavia nas Nações Unidas. A resolução 1325 (Mulheres, Paz e Segurança) do Conselho de Segurança, adotada a partir de 2000, tem como objetivo envolver as mulheres nos processos de paz e segurança nos mais diversos contextos e países. “É mais fácil para uma mulher perceber as necessidades de outra mulher, do que ser um homem a lembrar-se disso”, relembra a major. “Por isso, é tão importante haver homens e mulheres nas Forças Armadas”, conclui.
Reportagem: Rita Neves Costa Vídeo: Tiago Rodrigues
Fotos: Global Imagens Programação: Tiago Coelho