Foto: Jorge Amaral
“A pessoa que divulga é que tem de se envergonhar”
À semelhança de milhares de raparigas, a história de Inês Marinho não é recente. Hoje, com 22 anos e a residir num pitoresco T1 entre as ruas vetustas do Bairro Alto, em Lisboa, recorda a primeira vez que viu a sua intimidade ser exposta na Internet sem consentimento, não muito tempo após atingir a maioridade. “Eram apenas fotos mais reveladoras”, relativiza. “Na altura até ignorei um bocado”.

Novas imagens “mais explícitas e preocupantes” surgiram com o passar dos anos em diferentes plataformas como o Facebook, Whatsapp, Twitter e, embora há menos tempo, o Telegram.
Só duas pessoas muito próximas tinham acesso às imagens, mas o responsável pela divulgação permanece uma incógnita. Já o medo, esse a jovem conhece-o bem, e o olhar por cima do ombro tornou-se um hábito. Ainda assim, o sorriso ninguém o tira, nem tampouco a coragem que a levou a apresentar duas queixas na Polícia. “Eu continuo a sentir-me o mesmo nível de mulher que sentia antes”, afirma com convicção. “Isto diz muito mais da pessoa que divulga os conteúdos do que a que está retratada neles”.
Milhares contra a “pornografia de vingança”
Apoiada por um grupo de raparigas que se encontram na mesma situação, Inês arregaçou as mangas e deu vida ao movimento “Não Partilhes” a 23 de outubro deste ano, com o intuito de sensibilizar e apoiar vítimas da divulgação de conteúdos não autorizados. Desde então, a página de Instagram já conta com mais de 22 mil seguidores e tem vindo a conquistar os utilizadores do Twitter. Figuras públicas como a cantora Bárbara Bandeira e o humorista Diogo Faro apadrinharam a causa. “O que mais me preocupou foram as centenas de testemunhos que recebi”, desabafa.
Foto: Jorge Amaral
“A verdade é que não existem instituições em Portugal que apoiem especificamente estes casos”, alerta, não desvalorizando o trabalho de organizações como a APAV, Plano I e UMAR. “São muitas mulheres e é necessário formar algo mais concreto, mas falta essa noção”. Paralelamente, Inês aponta a “vergonha” como um obstáculo que está longe de desaparecer. “Ninguém quer dizer o que se passou, preferem ficar anónimos e esse estigma tem que ser quebrado”, defende. “A pessoa que divulga é que tem de se envergonhar”.
Foto: Pedro Granadeiro
“O grupo ainda está ativo mas o nome é alterado quase todos os dias”
Com apenas 18 anos e a perseguir o sonho de um dia singrar no universo da moda, Margarida Fernandes nunca imaginou ser conhecida por razões que envolvessem a sua imagem de uma forma indesejada.

A viver em Guimarães, “Guida” tinha uma juventude como a de tantas outras raparigas, até se tornar mais um alvo dos inúmeros grupos privados do Telegram, onde as imagens de mulheres são trocadas como mercadoria. Tudo mudou quando uma fotografia no seu Instagram chamou a atenção de pessoas erradas. “Comecei a ganhar muitos seguidores masculinos”, lembra. Semanas depois, a sua timidez não disfarça a revolta que o nome “Pussylga” lhe suscita no olhar.
“O grupo [no Telegram] ainda está ativo mas o nome é alterado quase todos os dias”, diz, explicando que tal se deve ao crescente nível de denúncias por parte das vítimas. Este ponto de partilha de material pornográfico adota nomes que derivam da palavra inglesa brejeira para o órgão sexual feminino.

“Já mudou para Memorial da Pussylga, La Pussylga de Papel, CP Regional” e até “Não Partilhes”, alusivo ao movimento iniciado por Inês Marinho. Sabe-se que no momento se apresenta como “Psss Psss Pussy” e é seguido por mais de quatro mil pessoas, essencialmente homens.

A lista de nomes parece não ter fim, tal como o surgimento de novas salas virtuais com o mesmo intuito, a partilha de conteúdos sexualmente explícitos, na maioria das vezes sem o consentimento das pessoas retratadas. Margarida revela que tem conhecimento de “cinco ou seis”, entre eles o “Rebarbados” e o “Xixa Nacional”.
Foto: Pedro Granadeiro
Das palavras à ação
Precisamente uma semana antes das palavras “Não Partilhes” percorrerem os feeds de 20 mil internautas, a jovem já as pronunciava alto e em bom som. Sentada na primeira fila, assistindo à constante devassa da imagem do seu corpo, sabia que recuar não era opção. Foi nesse momento que se apercebeu: “Não estava sozinha”.

O objetivo inicial do grupo de vítimas que se descobriu nas redes sociais passava por “angariar o máximo de provas” e apresentar queixas na Polícia. Em poucos dias, o grupo já contava com mais de trinta elementos e com o apoio de advogados.
Foto: Jorge Amaral
Entre as centenas de jovens abaladas que bateram à porta do “Não Partilhes”, está Nuria Silva. Mantinha um relacionamento não assumido com um rapaz há cerca dois anos, quando, em outubro de 2019, a sua privacidade foi tragicamente destapada. Passaram-se 13 penosos meses, marcados pelo silêncio e pela vergonha, mas para Nuria é tempo de ser a própria a dar o seu testemunho.
O cenário agravou-se quando as suas imagens íntimas foram parar às mãos da família. Para além dos primos, também o pai recebeu uma mensagem suspeita. “Pedi-lhe para não mexer mais naquilo e o assunto morreu”, diz a jovem de 22 anos. Já a mãe desconhece a situação, ao contrário da avó, com quem partilhou o período conturbado. “É a pessoa mais próxima de mim e apoiou-me imenso”.

Embora amedrontada, Nuria não esperou muito tempo até apresentar queixa na Polícia. “A pandemia atrasou o processo e só me chamaram em maio. Disseram que estavam a tentar ajudar mas era muito complicado, as imagens já tinham passado por muitos sítios”.
Foto: Jorge Amaral
A ouvir o embalar das ondas, naquela que diz ser a sua praia de eleição, no Estoril, lembra o que sentiu no dia em que contou a sua história ao mundo pela primeira vez, através de um vídeo emotivo no Instagram.

“Pensei que se não falasse naquele momento, nunca iria falar”, diz sublinhando que, se tem uma voz, “é para ser usada”. Horas mais tarde, “alguns rapazes disseram-me que estava apenas a tentar ganhar fama, mas eles não iam controlar mais a minha vida”. Margarida Fernandes não ficou indiferente ao sucedido e estendeu-lhe a mão. “Adicionou-me ao grupo dela e perguntou-me se queria fazer parte do movimento”. Desde então, o futuro parece sorrir-lhe.
Quando a intimidade se torna um catálogo na Internet
Quando a intimidade se torna um catálogo na Internet
Com o mundo fechado em casa, a partilha na Internet de imagens pornográficas ou eróticas privadas duplicou e ganhou espaço em grupos virtuais de redes como o WhatsApp ou o Telegram, que potenciam o assédio e a “pornografia de vingança”. As vítimas, que sofreram muitas vezes em silêncio por medo e vergonha, ganham agora coragem para denunciar o ataque. A Inês, a Margarida e Núria querem justiça.
Texto: Sofia Marvão Vídeo: Eduardo Fortunato Fotos: Global Imagens Programação: Tiago Coelho
Inês Marinho, 22 anos
Margarida Fernandes, 18 anos
Nuria Silva, 22 anos
Uma vez na Net, para sempre na Net
Há pelo menos três anos, durante os festejos da Queima das Fitas no Porto, um número infindável de internautas teve acesso às imagens de um alegado abuso sexual num autocarro, presenciado por dezenas de testemunhas em regozijo.

A corrente de partilhas terá começado num grupo secreto do Facebook. “IMASOLDIER” é o ponto de partilha responsável pela partilha e divulgação não consentida de milhares de conteúdos sexuais de mulheres portuguesas. “Por nós, homens, para interagirmos longe dos olhares das mulheres”, pregoavam os mais de 40 mil membros. O grupo que mais tarde se julgava extinto era na verdade um modelo para centenas de outras páginas ou grupos, agora em novas plataformas virtuais. Os nomes divergem, mas o objetivo mantém-se. Numa era marcada pelo surgimento de diversos movimentos feministas, o “Não Partilhes” nasce através das vítimas que decidiram quebrar o silêncio e reivindicar o direito à sua intimidade.
O rosto por trás do crime
Pelas mãos de uma amiga em aflição, o caso deste grupo de mulheres chegou a Miguel Vieira na forma de um pedido de ajuda, para tentar uma ação coletiva, que tenha mais força do que as individuais já apresentadas.

O advogado na PMC, em Matosinhos, não hesitou em avançar a favor das vítimas. Conduzido pela experiência da cofundadora da empresa Paula Mesquita, deu início à recolha de depoimentos e provas para uma futura queixa conjunta. “Primeiro quero perceber de que crime se trata. Devassa da vida privada é, mas também há uma série de crimes associados”, como os insultos e ameaças a que muitas jovens são sujeitas quando enfrentam o agressor, bem como a possível circulação de pornografia infantil.

O advogado acredita que o grande desafio será descobrir a quem imputar o crime. “Tratam-se de pessoas que cometem os atos de cara tapada e que se reagrupam sempre que surge algum problema”, explica, apelidando-os de “cobardes”. “Não sabemos exatamente quem é que faz o quê”. A alternativa passa por responsabilizar o próprio grupo ou os canais de difusão, isto é, “plataformas relativamente novas que, forçadas pelas autoridades, arranjam mecanismos de controlo”. “Se as pessoas quiserem é possível” remata.
Miguel Vieira (Foto: Rui Oliveira)
Casos aumentam na pandemia
“Antes do confinamento, nunca nos tínhamos deparado com tamanha quantidade de grupos dedicados exclusivamente à partilha destes conteúdos” afirma Ricardo Estrela, responsável pela Linha Internet Segura da Associação de Apoio à Vítima. “De facto é algo que já existia mas agudizou com a pandemia”. Estima-se um aumento de 100% em processos de atendimento e apoio face ao ano anterior, num total de 827 casos, devendo aumentar até fevereiro de 2021, quando os dados oficiais forem divulgados.

Criada pela APAV em janeiro de 2019, o serviço Linha Internet Segura é distribuído em duas vertentes, o apoio telefónico a vítimas de cibercrime e a denúncia de conteúdos ilegais através de um formulário anónimo. “Estamos a falar de situações de divulgação não consentida de imagens, ciberbullying ou até roubo de identidade”, diz o jurista. “Todo o mal que possa acontecer na Internet”. O passo seguinte implica dirigir a queixa às autoridades competentes e, quando necessário, “identificar os provedores do serviço de Internet para a remoção ou bloqueio de conteúdos”. A vítima também pode ser referenciada para apoio jurídico e psicológico.
Maioria dos denunciantes são homens
Um dos constrangimentos sentidos pela unidade prende-se com as queixas feitas por denunciantes masculinos, que tomam o lugar das vítimas, na sua maioria mulheres. “São pessoas que navegam na Web e deparam-se com esses grupos”, em redes como o Discord, Telegram ou no site de partilha de ficheiros Volafile. As plataformas, muitas delas “pouco cooperantes”, acabam por ter “muita má fé” perante o pedido de remoção das imagens por parte de alguém que não a própria lesada, chegando a emitir juízos de valor.
Ricardo Estrela (Foto: Jorge Amaral)
Responsabilização não é impossível
“É uma consequência dos tempos, da massificação do uso das redes sociais e das potencialidades da Internet”, afirma o diretor da Unidade de Combate ao Cibercrime da Polícia Judiciária, sobre este fenómeno de partilha de imagens pornográficas não autorizadas.

Carlos Cabreiro estende a sua análise sobre o período da pandemia e confirma que existe de facto uma tendência crescente, face ao uso mais frequente das tecnologias. “Foram penalizados responsáveis e efetuadas detenções há pouco mais de uma semana” revela. A identificação dos elementos dos grupos por trás dos perfis “é uma dificuldade acrescida mas não é impossível”. “É esse o trabalho da polícia e é por isso que a prova digital é importante”.

Todavia, Carlos Cabreiro salienta a necessidade da desconfiança e da perceção dos perigos, sublinhando que os cuidados da vítima também devem partir de uma atuação preventiva em situações que envolvam envios deliberados para outra pessoa. “Tem que haver consciência que, uma vez expostos na Internet, este tipo de conteúdos pode levar tempo a ser removido”.
Carlos Cabreiro (Foto: Reinaldo Rodrigues)
Jogo de manipulação
“Quanto mais nova, mais fácil é ser-se manipulada”, explica a psicóloga clínica Gabriela Moita, sobretudo se a vítima mantiver uma relação amorosa de bastante intimidade e valorização. “Se for a primeira relação, há um estado de crença total no outro”, diz. Quando os conteúdos chegam a público, “é uma completa traição e a vítima vê que, de repente, tudo aquilo que estava a fazer era mentira”.

A especialista em psicologia da sexualidade tem conhecimento que, em alguns casos, existe intencionalidade prévia. “É fácil fazer sentir que a pessoa é importante e muito querida, até ter a posse da imagem”, assegura. Por outro lado, a intenção pode surgir posteriormente, num ato de vingança ou de exposição daquilo que o parceiro teve.

Para além do estado da vítima no seio privado, surge a exposição pública e a visão social por parte da sociedade, que pode ter efeitos destrutivos. A psicóloga defende que a sociedade que olha para a rapariga deve dirigir o olhar para o rapaz. “O ato grave não foi ela ter-se exposto, foi alguém a expor. Expôs-se numa intimidade à qual tem direito. Nunca deve ser o sujeito, que não o próprio, a expor”.
Gabriela Moita (Foto: Gerardo Santos)