Ciência

A beleza da Teoria dos Jogos: usar a matemática para resolver conflitos humanos

A beleza da Teoria dos Jogos: usar a matemática para resolver conflitos humanos

A matemática da teoria dos jogos é utilizada para prever resultados em situações de conflito. Agora está a ser adaptada através de megadados para resolver questões altamente controversas entre as pessoas e o ambiente.

A teoria dos jogos é um conceito matemático que visa prever resultados e soluções para uma questão em que interagem partes com interesses conflituosos, sobrepostos ou mistos. Em "teoria", o "jogo" levará todos a uma solução ótima ou de "equilíbrio". Promete uma abordagem científica para compreender como as pessoas tomam decisões e chegam a compromissos em situações do mundo real.

A teoria dos jogos teve origem na década de 1940 no campo da economia. O filme vencedor de Oscar "Uma Mente Brilhante" (2001) é sobre a vida do matemático John Nash (interpretado por Russell Crowe), que recebeu o Prémio Nobel em Ciências Económicas de 1994 pelo seu trabalho nesta área.

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Embora o conceito exista há muitas décadas, a diferença agora é a capacidade de o inserir em algoritmos, aplicações e jogos baseados em computador para o aplicar de forma mais alargada, diz Nils Bunnefeld, cientista social e ambiental da Universidade de Stirling, no Reino Unido. Isto é particularmente verdade na era dos megadados.

"A teoria dos jogos como ideia teórica existe há muito tempo para mostrar soluções para conflitos", disse. "Vemos claramente o potencial de a transferir para um computador e aproveitar ao máximo os dados que podem ser recolhidos, e que chegam também a muito mais pessoas".

Conflitos de conservação

Bunnefeld liderou o projeto ConFooBio, apoiado pela UE, que aplicou a teoria dos jogos a cenários de conflito em que as pessoas discordavam por causa de recursos e do ambiente. A sua equipa queria desenvolver um modelo de previsão de soluções para conflitos entre segurança alimentar e biodiversidade.

"O ponto de partida foi, tendo duas ou mais partes em disputa, saber o que devemos fazer, por exemplo, com a terra ou os recursos naturais? Devemos produzir mais alimentos? Ou devemos proteger uma determinada área para a biodiversidade?" disse.

A equipa concentrou-se em sete estudos de caso, desde conflitos envolvendo agricultores e conservação de gansos na Escócia, a conflitos sobre elefantes e ataques de culturas no Gabão.

O ConFooBio realizou mais de 300 oficinas de trabalho com mais de 900 pessoas em diversos locais, como o Gabão, Quénia, Madagáscar, Tanzânia e Escócia.

Desafios ecológicos

Bunnefeld apercebeu-se da necessidade de se afastar da teoria dos jogos pura e dura e, em vez disso, construir jogos mais complexos para incorporar desafios ecológicos que o mundo enfrenta atualmente, como as alterações climáticas. Também se tornou necessário adotar uma abordagem mais baseada nas pessoas do que inicialmente planeado, para direcionar melhor os jogos.

"Os participantes incluíam pessoas diretamente envolvidas nestes conflitos, e em muitos casos pessoas muito infelizes", explica.

Através dos jogos, conseguimos um elevado envolvimento das comunidades, mesmo daquelas onde o conflito é acentuado e as pessoas podem estar relutantes em envolver-se neste estudo. Mostrámos que "as pessoas são capazes de resolver conflitos quando confiam umas nas outras e têm uma palavra a dizer, e quando recebem recompensas adequadas pelos esforços de conservação".

A equipa desenvolveu uma estrutura de modelação para prever os resultados da gestão da vida selvagem em cenário de conflito. Disponível gratuitamente, foi descarregado milhares de vezes a partir do sítio Web ConFooBio.

Jogo de conservação

Os investigadores também criaram um jogo acessível sobre conservação chamado Culturas vs Criaturas, no qual os jogadores decidem entre uma gama de opções desde disparar sobre as criaturas, até à atribuição de habitats para conservação.

Bunnefeld espera que estes tipos de jogo se tornem mais disponíveis numa base popular, através das lojas de aplicações - como por exemplo um jogo sobre conflitos no domínio da biodiversidade e justiça energética numa iniciativa separada em que trabalha, chamada Projeto Beacon. "Se disser às pessoas que têm um jogo estimulante ou um modelo complexo, com qual é que se vão envolver? Penso que a resposta é bastante fácil", acrescentou.

"No projeto ConFooBio, pudemos mostrar que os nossos novos modelos e algoritmos podem adaptar-se a novas situações e responder a mudanças ambientais e sociais", acrescentou Bunnefeld. "Os nossos modelos são úteis para sugerir formas de gestão de conflitos entre partes interessadas com objetivos concorrentes".

Dinâmica das redes sociais

Outro projeto, o Odycceus, aproveitou elementos da teoria dos jogos para investigar o que as redes sociais nos podem dizer sobre as dinâmicas sociais e potencialmente ajudar na deteção precoce de conflitos sociais emergentes. Analisaram a linguagem, conteúdo e opiniões dos debates nas redes social utilizando ferramentas de dados.

Tais ferramentas são necessárias para analisar a vasta quantidade de informação no discurso público, explicou Eckehard Olbrich, coordenador do projeto Odycceus, e físico no Instituto Max Planck de Matemática nas Ciências em Leipzig, Alemanha.

O seu trabalho é parcialmente movido pela tentativa de compreender as razões subjacentes à polarização de pontos de vista e ao crescimento de movimentos populistas, como a organização de extrema-direita Pegida, fundada na sua cidade natal, Dresden, em 2014.

A equipa criou uma variedade de ferramentas acessíveis aos investigadores através de uma plataforma aberta conhecida como Penelope. Entre estas, encontramos o Twitter Explorer, que permite aos investigadores visualizar as ligações entre os utilizadores do Twitter e os tópicos de tendências para ajudar a compreender como evoluem os debates sociais.

Outras incluem duas aplicações participativas conhecidas como "Observatório de Opinião" e "Facilitador de Opinião", que permitem às pessoas monitorizar a dinâmica das situações de conflito, por exemplo, ajudando a interligar artigos noticiosos contendo conceitos relacionados.

Padrões de polarização

"Estas ferramentas já nos permitiram ter uma melhor perceção dos padrões de polarização e compreender diferentes visões do mundo", disse Olbrich.

Disse, por exemplo, que a sua equipa conseguiu desenvolver um modelo sobre o efeito do feedback social sobre a polarização que incorporou ideias da teoria dos jogos.

As conclusões sugeriram que a formação de grupos polarizados em linha, não estava tão relacionada com o conceito tradicional de «bolhas» nas redes sociais e câmaras de eco, mas antes ligada à forma como as pessoas constroem a sua identidade, obtendo a aprovação dos seus pares.

Acrescentou que ligar os pontos entre a teoria dos jogos e a polarização poderia ter aplicações na vida real, para matérias como a melhor forma de regular as redes sociais.

"Numa formulação teórica do jogo, começamos com os incentivos aos jogadores, e estes selecionam as suas ações para maximizar a sua utilidade esperada", afirmou. "Isto permite fazer previsões de como as pessoas mudariam o seu comportamento se, por exemplo, as redes sociais fossem reguladas".

Olbrich acrescentou que espera que tal modelização possa fornecer uma melhor compreensão da democracia e dos debates na esfera pública, bem como indicar às pessoas melhores formas de participar nos debates públicos. "Então teríamos melhores formas de lidar com os conflitos atuais que temos de resolver", afirmou.

Mas há também desafios significativos na utilização da teoria dos jogos para situações do mundo real, explicou Olbrich.

Variar as perspetivas

Por exemplo, incorporar diferenças culturais na teoria dos jogos revelou-se difícil porque tais diferenças podem significar que duas pessoas têm formas muito distintas de encarar um problema.

"Tendo analisado os conflitos ao longo dos últimos anos, para mim é claro que não podemos resolver conflitos, só os podemos gerir". Introduzir fatores como as alterações climáticas e o contexto local é também complexo.

"Mas a teoria dos jogos é uma forma útil de explorar modelos, jogos e aplicações para lidar com conflitos", disse. «A teoria do jogo é, desde as suas bases muito simples até situações bastante complexas, um bom ponto de entrada», disse o Professor Bunnefeld.

"Dá-nos uma estrutura através da qual podemos trabalhar e que capta a imaginação das pessoas".

A investigação deste artigo foi financiada pelo Conselho Europeu de Investigação da EU, e foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE. 

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