Inovação

À pesca de respostas: nova tecnologia pode ajudar a proteger os oceanos

À pesca de respostas: nova tecnologia pode ajudar a proteger os oceanos

Os avanços digitais irão aumentar a sustentabilidade da pesca global e preservar os ecossistemas marinhos. A UE está a apoiar uma variedade de projetos de investigação destinados a aproveitar novas tecnologias para aumentar tanto a qualidade como a quantidade de informação à disposição dos cientistas e dos decisores políticos.

Ao largo da costa escarpada da Islândia, cinco navios de pesca fazem parte de um projeto para testar uma máquina de última geração para recolher informação sobre a captura do dia. Primeira do seu género, a iniciativa visa ajudar a satisfazer a necessidade de dados mais detalhados sobre o estado dos nossos mares. "Vivemos numa época de tecnologia em que tudo está a ser digitalizado e registado numa base de dados, mas tanto quanto sei é a primeira vez que isso acontece no que respeita aos peixes selvagens", afirma Axel Freyr Gíslason, chefe de desenvolvimento de produtos na Skaginn 3X, criador da máquina de digitalização com computadores e câmaras. A empresa com sede na Islândia faz parte do projeto SEASCANN, financiado pela UE.

A proteção dos ecossistemas marinhos em todo o mundo é uma questão cada vez mais premente, à qual tem sido dado um novo ímpeto pelos objetivos internacionais de sustentabilidade e biodiversidade acordados na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15) em Montreal, Canadá, em dezembro de 2022.

PUB

Por um lado, o mar é uma fonte vital de alimento para as pessoas e a pesca é uma atividade económica que apoia muitas comunidades costeiras em toda a Europa e no mundo. Por outro lado, estes recursos estão a ser amplamente sobreexplorados e existe um risco real de que certos números de espécies possam entrar em colapso ou os ecossistemas sejam irreversivelmente destruídos.

Dados de precisão

A nova tecnologia tem também um papel vital na recolha de informação precisa na fonte. O teste da SEASCANN do primeiro sistema de classificação totalmente automático ao largo da costa da Islândia é um caso paradigmático.

Os peixes passam pela máquina SEASCANN, que faz um registo digital do seu tamanho, cor, qualidade e espécie. Envia a informação em tempo real à tripulação a bordo, e ao pessoal em terra, para análise por equipas e organizações de pesca que monitorizam as atividades de pesca.

A automatização de precisão oferecida pela SEASCANN está longe da tarefa convencional e demorada de separar manualmente as redes de pesca e leva a rastreabilidade da pesca a novos níveis.

A tecnologia baseia-se na aprendizagem mecânica, desenvolvida ao longo de vários anos de ensino do sistema para o reconhecimento de diferentes espécies. Uma vez que o equipamento está localizado no convés de um barco, exposto aos elementos, outros desafios técnicos tiveram de ser enfrentados.

"A maioria dos componentes - os computadores, câmaras de alta definição e outros artigos - não são concebidos para funcionar numa atmosfera densamente húmida e altamente salina", disse Gíslason. "Tivemos de pensar fora da caixa para encontrar formas de ultrapassar estas contrariedades, para desenvolver tecnologia que reconheça o peixe em todas as condições".

Ao investir em novas tecnologias e ferramentas de dados, projetos como a SEASCANN e o EcoScope esperam dar aos decisores os conhecimentos de que necessitam para conceber políticas que promovam uma gestão mais baseada no ecossistema.

Como resultado, estas iniciativas melhoram as hipóteses de manter o delicado equilíbrio entre a segurança alimentar e um oceano saudável no futuro.

Imagem mais clara

Embora tenham sido feitos alguns progressos desde a reforma da Política das Pescas da UE em 2013, a ameaça da sobrepesca ainda persiste, particularmente no Mediterrâneo e no Mar Negro. A isto juntam-se as preocupações com a poluição e a saúde geral do ecossistema.

O escoamento de produtos químicos e fertilizantes dos terrenos agrícolas, em particular, levou em certas áreas ao excesso de nutrientes na água. Isto, por sua vez, resultou no crescimento excessivo de algas que esgotam os níveis de oxigénio e sufocam outra vida marinha.

É vital obter uma visão precisa de todos os fatores que contribuem para a construção de um ecossistema marinho saudável. É também um desafio. É aqui que o conhecimento científico tem um papel crucial a desempenhar: informação de alta qualidade é fundamental para compreender o estado da situação e quais as ações que serão mais eficazes na restauração da saúde dos oceanos.

Âmbito mais alargado

Outro projeto deste tipo é o EcoScope, que parte do princípio de que todos os aspetos do ecossistema marinho estão interligados. Até à data, os esforços para preservar as populações de peixes têm-se concentrado tipicamente na gestão de espécies uma a uma, colocando frequentemente um limite de captura numa determinada espécie de peixe se o seu número for demasiado baixo. O EcoScope visa estabelecer uma abordagem mais abrangente da gestão das pescas através do rastreio da saúde do ecossistema como um todo.

O projeto envolve 18 países. Os seus parceiros incluem universidades, instituições de investigação, organizações não governamentais e empresas tecnológicas. A equipa do EcoScope está a mapear uma série de fatores que podem afetar a saúde da pesca, incluindo alterações no ambiente, o estado de outras espécies e o impacto da atividade humana. A informação recolhida está a ser disponibilizada através de uma plataforma online única e interoperável que está igualmente aberta ao público em geral.

Atividades lúdicas

A profundidade e o âmbito da informação disponível tornarão a base de dados tão interessante para pescadores, mergulhadores e surfistas como para investigadores e decisores políticos. Combinará, por exemplo, dados estatísticos e de investigação centralizados com informação em tempo real sobre temas de interesse público tais como altura das ondas, flora e fauna marinha local ou ondas de calor.

A plataforma tem também um papel educativo. A Academia EcoScope incluirá cursos online e webinários para decisores políticos, jovens cientistas e estudantes a quem são dirigidos também jogos educativos.

O primeiro capítulo do curso avançado online, uma introdução à gestão das pescas baseada no ecossistema, já está disponível online. A versão mediterrânica oriental da plataforma de simulação do ordenamento do espaço marítimo, que irá incorporar testes de cenários, estará pronta no final de 2023.

"Se for um jovem cientista com dificuldades de acesso aos dados, poderá descarregar gratuitamente toda a informação de que necessita para utilizar em experiências e investigação", explica o coordenador do projet, Athanassios Tsikliras, biólogo marinho da Universidade de Aristóteles de Salónica.

Repórteres cidadãos

O EcoScope procura aproveitar o poder da ciência cidadã através de uma aplicação smartphone, que permitirá às pessoas relatar as preocupações relacionadas com o ambiente marinho. Os relatórios serão transferidos diretamente para as autoridades locais ou para a polícia portuária relevante, com localização GPS, fotografias e detalhes dependendo do incidente.

Globalmente, as informações recolhidas e mapeadas pelo projeto constituirão um recurso importante para todos os envolvidos com o mar. "Sinto-me muito otimista quanto ao impacto que este projeto pode ter porque, durante muito tempo, a falta de dados tem sido uma desculpa para a falta de ação", disse Tsikliras. "Esta desculpa vai deixar de existir". A disponibilização de dados relacionados com a pesca também apoia os objetivos da Missão Horizonte Europa para Recuperar os nossos Oceanos e Águas até 2030. Para cumprir os objetivos da Missão, são necessários sistemas avançados para melhor monitorizar, prever e avaliar a saúde do sistema aquático como um todo.

A investigação neste artigo foi financiada pela UE. Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG