O Jogo ao Vivo

Alterações climáticas

Ciência ajuda a prevenir mortes devido ao calor

Ciência ajuda a prevenir mortes devido ao calor

Em partes do sul da Europa, as ondas de extremo calor são agora a regra e não a exceção. Novos modelos de previsão meteorológica precisos e fiáveis poderiam ajudar as regiões a «antecipar, preparar, responder e recuperar» melhor destes eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

"Com as temperaturas médias a subir, as temperaturas extremas também se tornarão mais quentes, levando a ondas de calor cada vez mais quentes e mais frequente", afirma Rachel White, professora assistente na Universidade de British Columbia. "Isto é particularmente preocupante em regiões que já registam temperaturas elevadas, tais como o sul da Europa".

De todas as catástrofes naturais que ocorreram nas últimas décadas, as ondas de calor causaram a maior perda de vidas humanas. E, à medida que as temperaturas continuam a subir, mais vidas serão postas em risco.

PUB

A chave para salvar vidas é a utilização de modelos de previsão meteorológica precisos e fiáveis que vão muito além das previsões semanais de hoje.

Um desses modelos é a previsão subsazonal a sazonal (S2S).

Não se pode prever o futuro, mas...

Entre os modelos de previsão meteorológica, que preveem o tempo na semana seguinte, e modelos climáticos, que preveem as condições meteorológicas ou climáticas médias em muitos anos, a previsão S2S serve como previsão meteorológica alargada.

Os modelos S2S utilizam as condições atmosféricas observadas no momento em que a previsão começa e, com base nisso, simulam probabilidades de como o sistema climático irá evoluir ao longo das próximas quatro a oito semanas. Para ter em conta a variabilidade natural do clima, o modelo produz diferentes simulações baseadas em condições ligeiramente variadas.

Os modelos S2S funcionam, normalmente, durante alguns meses. Assim, por exemplo, podemos utilizar previsões elaboradas no início de junho para prever o tempo para o resto do verão.

Devido à sua capacidade de "ver o futuro", a previsão S2S consegue prever com precisão eventos meteorológicos extremos com várias semanas de antecedência, tempo suficiente para as áreas atingidas poderem atuar.

Construção de modelos S2S mais robustos

Apesar deste potencial, os sistemas S2S são uma tecnologia em desenvolvimento e são ainda imaturos.

"Embora promissores, os modelos de previsão S2S não são suficientemente sofisticados para prever ondas de extremo calor ou para desempenhar um papel nos sistemas de alerta precoce", explica Marie Drouard, investigadora da Universidade Complutense de Madrid. Juntamente com David Barriopedro, investigador do Conselho Superior de Investigações Científicas do Estado espanhol, integram o projeto ISSUL, no qual trabalham para melhorar a sofisticação, e a utilidade, dos modelos S2S. Para tal, estão a recorrer ao poder da aprendizagem automática.

A vantagem de utilizar a aprendizagem automática é que permite analisar e dar sentido a enormes quantidades de dados de forma rápida e eficiente, o que pode revelar-se extremamente útil quando se trata de prever eventos climáticos extremos como ondas de calor.

"Esperamos que, com a ajuda da aprendizagem automática, os modelos S2S se tornem suficientemente sofisticados para que os climatologistas os utilizem um dia para prever com precisão a frequência e intensidade das ondas de calor", disse Barriopedro.

Os investigadores querem testar o seu modelo S2S melhorado de aprendizagem automática em toda a Europa do Sul, incluindo na Grécia, Itália, Balcãs e Península Ibérica.

Sinalizar as ondas de calor

Pesquisas anteriores sugerem que o aquecimento global induzido pelo homem provoca um movimento do ar em grande escala, conhecido como padrões de circulação atmosférica, que levam a ondas de calor mais frequentes. "Isto significa que as alterações climáticas podem ter alguma influência nas ondas de calor, fazendo não só com que todas as temperaturas sejam mais elevadas, mas causando também ondas de calor mais frequentes devido a alterações nos padrões de circulação atmosférica", explicou White. Como parte do projeto PROTECT, White e Donate, demonstraram quantos eventos de temperatura extrema estão associados a padrões de circulação atmosférica chamados ondas Rossby. Estas ondas são conhecidas tanto pela sua força como pela tendência de ficarem "presas", por exemplo, no Sul da Europa durante muitos dias ou mesmo semanas e causarem ondas de calor extremas e perigosas como as do verão de 2021.

"A nossa investigação abriu as portas à potencial utilização de previsões S2S para prever não só as temperaturas de superfície das ondas de calor, mas também as condições de circulação atmosférica que as provocam", disse White. "Esta abordagem pode ajudar a melhorar a capacidade dos modelos S2S de prever a probabilidade de ondas de calor numa região em particular para uma estação próxima".

Investigação para o salvamento

Embora as ondas de extremo calor sejam sempre perigosas, representam uma ameaça acrescida para as áreas urbanas devido à densidade populacional.

"As áreas urbanas devem tornar-se mais resistentes às alterações climáticas e especialmente às ondas de extremo calor", considera Beniamino Russo, gestor do projeto de I&D no projeto Grupo SUEZ e diretor científico do projeto RESCCUE.

Beniamino Russo está a ajudar a criar novas soluções que as cidades podem utilizar para antecipar, preparar, responder e recuperar melhor de eventos climáticos extremos. Estas soluções, tais como o "Quadro de avaliação da resiliência das cidades" ou a "Ferramenta e base de dados para a seleção de estratégias de adaptação" permitiriam aos planeadores urbanos e de emergência prever e planear eventos de chuva moderada a forte, tais como os que atingiram a Alemanha, Bélgica e Países Baixos no verão de 2021.

Os investigadores estão agora nas fases iniciais de teste da aplicabilidade do sistema a ondas de extremo calor, com testes a terem lugar em Badalona, um município a nordeste imediato de Barcelona.

A investigação neste artigo foi financiada pela UE. Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE.  Este artigo foi publicado a primeira vez na Revista Horizon em agosto de 2022.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG