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Desamigar não é solução, defender democracia implica ouvir contraditório

Desamigar não é solução, defender democracia implica ouvir contraditório

A diretora do centro de política estratégica da Comissão Europeia considerou esta terça-feira que 'desamigar' nas redes sociais as pessoas que pensam de forma contrária é o pior serviço que se pode prestar à democracia.

"Cada vez que vejo uma pessoa a defender ideias contrárias à minha no Facebook ou noutra rede social, a primeira reação é 'desamigar' a pessoa, mas depois penso que eu preciso de estar exposta a ideias diferentes da minha, e preciso de testar a validade do meu pensamento, e infelizmente não é fácil fazer isso num contexto em que as redes sociais adaptam os conteúdos ao meu pensamento", disse Ann Mettler num debate sobre 'A Bolha Filtrada versus a Democracia'.

Em debate esteve a perceção de que os utilizadores das redes sociais são expostos apenas às pessoas e às mensagens que se assemelham às suas ideias, e Ann Mettler deu mesmo como exemplo a recente experiência conduzida pelo Wall Street Journal, que mostrou dois feeds bastante diferentes consoante o utilizador se identificava com o Partido Republicano ou com o Partido Democrata nos Estados Unidos da América, que realizam hoje as eleições presidenciais.

"A informação que recebemos é consistente com o que procuramos, e a parte emocional disto é que procuramos coisas que confirmem o que pensamos e nos fazem sentir felizes porque pensamos que somos espertos, mas isso não é necessariamente verdade", acrescentou Gary Marcus, professor da universidade de Nova Iorque.

"Nós temos um conjunto de valores e depois acabamos por ter a tendência natural de procurar aquilo que confirma o que pensamos, desvalorizando aquilo que está contrário às nossas inclinações", vincou o norte-americano, que se mostrou preocupado com o possível resultado das eleições caso Donald Trump vença, mas que também criticou Hillary Clinton: "os candidatos parecem menos democráticos e mostram sinais de desconforto se não vencerem as eleições".

Para Ann Mettler, a questão prende-se com a grande tendência da era digital, que é customização, que sucede à revolução industrial, com a ideia de standardização (harmonização ou automatização): "O Facebook e as redes sociais funcionam como câmara de ressonância daquilo em que as pessoas já acreditam, e isso fortalece as crenças e os preconceitos de cada um", disse a investigadora, notando ainda que "a falta de uma comunicação social mais presente nas redes sociais implica que não haja ninguém a mediar os conteúdos que nos surgem no écran, o que leva a que muitas das 'notícias' sejam na verdade apenas rumores ou realmente falsas".

A investigadora em Bruxelas diz que "não se deve culpar o Facebook ou as outras redes sociais, porque no geral isso é uma coisa boa", mas salientou que "cabe às pessoas tomarem a opção de defender a democracia, informando-se não só sobre aquilo em que acreditam, mas também entrando em contacto com as visões contrárias e as opções políticas diferentes".

Esse trabalho de criar uma espécie de contranarrativa já está a ser feito, disse, exemplificando com algumas pesquisas, que já mostram não apenas o objeto da pesquisa, mas também o seu contrário: "Se eu pesquisar por Estado Islâmico, já tenho não só a propaganda do ISIS, mas também páginas críticas", concluiu.

A Web Summit de Lisboa, que arrancou na segunda-feira, conta com mais de 53.000 participantes, de 166 países, incluindo 15.000 empresas, 7.000 presidentes executivos e 700 investidores.

Entre os oradores, estão os fundadores e presidentes executivos das maiores empresas de tecnologia, bem como importantes personalidades das áreas de desporto, moda e música.

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