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Exames de rastreio do cancro do colo do útero mais fáceis e mais precoces para salvar vidas

Exames de rastreio do cancro do colo do útero mais fáceis e mais precoces para salvar vidas

A prevenção e a vacina contra o HPV estão a ajudar a reduzir o número de mulheres que morrem com cancro do colo do útero, mas novos kits de rastreio portáteis e novos tipos de testes laboratoriais vão melhorar o diagnóstico e o tratamento precoce da doença.

Novos avanços no rastreio do cancro do colo do útero - o quarto cancro mais comum entre as mulheres - têm o potencial de salvar a vida de muitas mulheres, dizem os seus criadores.

Embora os resultados para as mulheres com cancro do colo do útero tenham melhorado globalmente nos últimos anos, o número de mortes por esta doença é ainda demasiado elevado. Apesar do cancro do colo do útero ser altamente tratável se diagnosticado suficientemente cedo, mais de 340 000 mulheres morreram da doença em 2020.

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A maioria das mortes ocorre em países de baixo e médio rendimento onde as mulheres têm frequentemente acesso limitado aos serviços de rastreio, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Mesmo quando as mulheres são testadas, pode haver uma espera de vários meses antes de obterem o resultado e, se o teste for positivo, o tratamento pode também tardar vários meses. "Numa fase avançada do cancro, estes meses podem ser a diferença entre a vida e a morte", afirma Olivier Degomme, coordenador de um projeto chamado ELEVATE, que está a desenvolver um kit de rastreio portátil para levar para zonas desfavorecidas.

"Queremos reduzir drasticamente este intervalo de meses para um intervalo ideal de 24 horas", acrescenta.

Kit móvel - resultado dos testes num dia

O kit móvel ELEVATE foi concebido para ser utilizado em comunidades com acesso limitado a cuidados médicos. Os profissionais de saúde explicariam a importância do rastreio, ofereceriam o teste e seriam capazes de dar às mulheres os resultados no espaço de um dia.

O kit requer pouca formação para ser utilizado. As mulheres recolhem elas próprias uma amostra, que os trabalhadores da saúde analisam através da unidade de análise alimentada por uma bateria. A unidade utiliza um teste de ADN para verificar a presença de infeções por papilomavírus humano de alto risco (HPV), que podem levar ao cancro do colo do útero. Os resultados são obtidos em minutos.

Os investigadores pretendem começar a utilizar o conjunto de ferramentas em aldeias de montanha e áreas urbanas desfavorecidas no Equador e no Brasil. Também querem disponibilizá-lo a mulheres que vivem em zonas de difícil acesso na Bélgica e em Portugal.

Inicialmente, os investigadores concentraram-se nas comunidades migrantes e outras comunidades marginalizadas com dificuldades de acesso aos cuidados médicos ou que podem não saber da importância de serem rastreadas.

Demasiado ocupadas

Descobriram também que as mulheres de carreira altamente instruídas não iam ao rastreio por estarem demasiado ocupadas. Assim, além de levar o kit de testes às comunidades carenciadas, poderia também ser útil em escritórios movimentados, por exemplo.

"A nível global, os ganhos serão muito maiores se nos concentrarmos nas mulheres de difícil acesso nas comunidades mais pobres. Mas um bom efeito duplo (do projeto) é que também poderíamos usá-lo em grupos de mulheres altamente instruídas", diz Degomme, professor associado na faculdade de medicina e ciências da saúde da Universidade de Ghent, Bélgica.

Os programas de rastreio variam de país para país. Alguns convidam todas as mulheres de idade elegível a serem testadas. Outros oferecem rastreios oportunísticos, nos quais a paciente é informada sobre o procedimento sendo-lhe oferecido o rastreio durante uma consulta médica. Alguns países não fazem qualquer tipo de rastreio.

A OMS estabeleceu metas para 2030 no sentido de reduzir as taxas de cancro do colo do útero a nível mundial. Uma delas é que 70% das mulheres sejam rastreadas com um teste de alto desempenho aos 35 anos, e novamente aos 45 anos de idade.

Para Degomme, o kit portátil ELEVATE ajude os países a atingir este objetivo da OMS. Tem ainda de ser testado no terreno, e avaliado quanto à sua aceitabilidade, viabilidade e relação custo-eficácia para os países de baixos rendimentos.

"O importante é assegurarmo-nos que alcançará mulheres que de outra forma não poderiam ser alcançadas. E podemos realmente salvar vidas, esperemos que muitas vidas", reiterou.

Análise de Raman

O vírus HPV tem mais de 100 estirpes diferentes, 14 das quais são consideradas de alto risco de cancro do colo do útero. Cada vez mais, os países com programas de rastreio testam as infeções por HPV de alto risco.

Os investigadores conceberam recentemente um teste que pode distinguir entre uma infeção que se resolverá por si mesma e uma que se tornará crónica e possivelmente conduzirá ao cancro.

Utilizam a espetroscopia de Raman para verificar alterações na composição molecular das células cervicais recolhidas num teste de esfregaço.

A espetroscopia de Raman é uma técnica de varrimento que identifica a composição química das células através da medição da sua resposta vibracional à luz laser. O exame envolve incidir um feixe de luz sobre as células para fazer vibrar as suas moléculas.

A "impressão digital" resultante da vibração indica se o conteúdo celular foi alterado pelo vírus.

Especialistas em células

Atualmente, se alguém testar positivo para uma infeção por HPV de alto risco, as suas células cervicais são analisadas através de um microscópio. Esta análise é feita por um especialista em células, chamado citólogo.

A célula pode parecer sã ao microscópio, mas a espetroscopia de Raman pode captar alterações a um nível molecular invisível ao olho humano, segundo Fiona Lyng, coordenadora de um projeto chamado ARC-HPV.

O projeto, que terminou em 2018, concluiu que a espetroscopia de Raman poderia ser utilizada para testar infeções que podem levar ao cancro. As suas descobertas foram agora patenteadas.

Desde 2018, os investigadores testaram o método em amostras populacionais maiores e descobriram um grau de precisão de pelo menos 91% na diferenciação entre as células que suscitam preocupação e as que têm probabilidade de recuperar da infeção.

O próximo passo será testar a precisão da espetroscopia de Raman numa população inteira a ser rastreada.

Sucesso da vacinação

Outra forma importante de prevenção é a vacinação. As vacinas disponíveis são altamente eficazes, mas não protegem contra todas as formas de HPV de alto risco.

"A vacina irá realmente reduzir as pré-neoplasias e os cancros cervicais, o que é ótimo". Mas o seu sucesso levanta uma questão para os programas de rastreio, adverte Lyng, diretor do Centro de Radiação e Ciência Ambiental da Universidade Tecnológica de Dublin.

Com menos casos de células pré-cancerígneas e cancerígenas presentes na população, os citólogos estarão menos habituados a encontrar estas anomalias, o que significa que a sua capacidade de as detetar poderá diminuir. «

Os resultados até à data indicam que a espetroscopia de Raman é mais exata do que a citologia.

"Todos os testes têm falsos positivos e falsos negativos, e o método de Raman também não é 100% exato. Mas tem uma maior sensibilidade do que a citologia, por isso pensamos que melhoraria os resultados para as mulheres ao detetar os casos de cancro, ou pré-cancro, mais cedo", conclui Lyng.

A investigação neste artigo foi financiada pela UE. Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE. 

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